Os dias seguintes da revolução no Egito

por Sulamita Esteliam
Manifestante anti-governo com a bandeira do Egito pintada no rosto- foto: riots

As últimas notícias do Egito dão conta de que o Conselho Superior Militar do país mais populoso das Arábias suspendeu a Constituição, dissolveu o Parlamento e pôs o Exército para desocupar a Praça Tahrir, no Cairo, onde alguns manifestantes ainda resistiam. Não houve violência, segundo as agências de notícias. Clique para ler no Correio do Brasil.

Comunicado divulgado pela TV estatal, no domingo, diz que haverá eleições em seis meses, quando os militares deixariam o posto para o governo que vir a ser eleito, democraticamente. Até lá, um conselho tutelar será formado para preparar emendas à Constituição, que serão submetidas a referendo popular. Há promessa, também, de que os tratados internacionais serão respeitados.

Chefe do Conselho Militar, o gal Hussein Tantawi conversou com israelenses - Correio do Brasil

De certa forma, tais notícias reduzem, um pouco, a ansiedade em torno do futuro da maior nação árabe, após a ascensão dos militares, comandados pelo general Husseim Tantawi. A estratégia dos militares, ao que parece, “é de acalmar a nação e o mundo sobre suas intenções futuras e, no curto prazo, garantir que a lei seja cumprida”, diz o jornal.

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Nós, que habitamos estes trópicos, devassados, no caso do Brasil, por 21 anos de ditadura de coturnos – e meros observadores leigos nesse complicado tabuleiro geopolítico, que somos -, arrepiamos só em pensar governos militares.

A memória da Terra Brazilis relembra 1964, quando um golpe, liderado por civis – políticos de direita, apoiados pelas elites e classe média conservadoras -, e levado a cabo pelos militares, derrubou um governo legitimamente eleito. Foi um golpe, não uma revolução, como tentaram incutir em nossas cabeças anos a fio. Assumiu uma junta militar, que deveria ser provisória, mas que, golpe sobre golpe, acabou impondo o regime totalitário de fardas por duas décadas. Com as trágicas consequências que conhecemos – embora não estejam de todo esclarecidas, e das quais é melhor não nos esquecermos, para continuar cobrando nosso direito à verdade.

No Egito, ao contrário, foi a mobilização popular, pacífica, ainda que movida e provocada pela opressão. Depôs a ditadura que vigorava há 30 anos. É muito diferente. Ou deveria ser. Clique para ler análise de Marwan Bishara, principal editor de política da rede Al Jazeera, postado também por Carta Maior.

Milhares de manifestantes em oração no centro do Cairo - riots

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Reginaldo Nasser, professor de Relações Institucionais da PUC-SP, escreve em Carta Maior o seguinte:

“Observar o que vai acontecer no Egito nas próximas semanas é como assistir um teatro das sombras em que apenas alguns dos atores estão sob um foco de luz e outros vão saindo aos poucos. Entretanto, podemos antecipar e destacar que islâmico ou secular, o novo governo poderá – espero que sim – recusar a adotar incondicionalmente os métodos adotados pelos EUA e a Europa na guerra contra o terror sem que isso signifique ser partidário de Bin Laden. Por sua vez, não afrontar Israel não significa, por outro lado, necessariamente, qualquer tipo de concordância com a política de ocupação dos territórios palestinos. E, finalmente, um novo governo poderá também questionar se para manter a tão aclamada estabilidade política na região é necessário gastar bilhões de dólares em equipamentos militares.

De toda forma, resta ver como os militares e as elites dirigentes que agora comandam a transição vão descobrir uma maneira de conviver com este novo cenário. Nesses momentos cruciais sempre é bom lembrar alguém que entendia de revoluções ( Marx) que certa feita fez a seguinte advertência: “As criadas políticas da França estão varrendo a lava ardente da revolução com vassouras velhas, e discutem entre si enquanto executam sua tarefa”.”

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PS: O legado de Mubarak,  um “governo confiável” das nações desenvolvidas – sobretudo do império norte-americano -, como lembra, ainda, Carta Maior, desnuda o que levou as massas às ruas de todo o país, sobretudo no Cairo, durante 18 dias:  dos 80 milhões de habitantes do Egito, 40% vivem abaixo da linha da pobreza; 44% da força de trabalho é analfabeta; 54% dos empregos são informais; o país tem um déficit fiscal de 8% do PIB – quatro vezes superior ao do Brasil.

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