Querido mestre, Paulinho Saturnino

por Sulamita Esteliam
Ao mestre Paulinho, com carinho e admiração - foto: álbum do FB

Paulinho Saturnino ou Paulo Roberto Saturnino Figueiredo é dessas pessoas especiais, que a vida, caprichosamente, coloca em nossos caminhos. O tipo de gente que levamos para sempre em nossos corações e mentes. No meu caso, há coisa de 30 anos e lá vai pedrada, desde o curso básico de Comunicação, na Fafich – Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da UFMG, ainda no prédio da Carangola, no Bairro de Santo Antônio, na Beagá da minha juventude.

Há mais de 20 anos não tenho contato pessoal com Paulinho, querido mestre que me-nos iniciou nas manhas da Sociologia. Depois, tornou-se fonte, preciosa e consistente.

A vida me levou para outras paragens. Ainda assim, frequentamos, várias vezes, as páginas da mesma edição de O Cometa Itabirano, pasquim mineiro do qual somos colaboradores. Editado, há mais de 30, pelo amigo comum, e ex-colega de faculdade, Marcelo Procópio. Agora, pelas artes da tecnologia, retomamos, todos, a amizade, via Facebook.

Observador e crítico sagaz, Paulinho é daqueles para quem rir é e será, sempre, o melhor remédio. De fato, vale-se do humor para temperar uma ironia quase impiedosa, até consigo mesmo.

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Com a permissão do autor, a partir do FB, reproduzo texto que ele publicou, há pouco mais de quatro anos, em seu blogue Rindo de Nervoso… (o blogue, atualizado regularmente – e que vale a emoção de cada palavra -, tem novo endereço e nome agregado: Rindo de Nervoso… ainda).

A crônica que transcrevo fala sobre amizade, Beagá e seus bares, e a saga do deficiente físico que gosta de trocar figurinhas com os amigos em torno de uma mesa de boteco. Também no FB, garfei a foto que ilustra a abertura desta postagem.

Para começar bem a semana, apreciem sem moderação:

Segunda-feira, Maio 14, 2007

Cometa, onde continuo colaborando, fez um número especial (com 50 mil exemplares) para ser distribuído nos bares de Beagá durante a promoção, de sucesso garantido, “Comida di Buteco”. Deixei lá o textinho que transcrevo abaixo:

De porta em porta

Aos tantos amigos, alguns
hoje já mortos, que me
carregaram nas escadas dos
bares da vida, e muitas
outras que tais
,

Boteco é assunto transcendente em boca de belorizontino, fizemos da qualidade e da simpatia de nossos botecos uma lenda, e adoramos proclamá-la, mais que isso, nos obrigamos a cultivá-la. Não existe relato de história passada por aqui, na tinta do poeta ou na boca fácil do vulgo, que não inclua seu exemplar: do onisciente Bar do Ponto dos primórdios, aos balcões onde mal cabe um par de cotovelos no Mercado Central dos fígados acebolados; dos copos sujos do baixo e do médio meretrícios, aos incontáveis barzinhos da moda que dão fundo biográfico aos lazeres de nossa classe média. Existem botecos onde o melhor é a conversa, existem outros onde ouvir boa música parece regra, e existem até aqueles onde se encontra paz para partilhar silêncios e testas franzidas, olhares perdidos em copos pela metade.

Diz-se que os que habitam esse território ornado por montanhas feridas precisam de razões relevantes, quase nobres, para não ocuparem, com disciplinada constância, um bom lugar no boteco de escolha. Pensando assim, de sopapo, me ocorreram três dessas razões: falta de dinheiro, crise de desamor pelas surpresas da vida, e barreiras arquitetônicas e urbanísticas, que é a razão que ora mais me interessa. Às duas primeiras razões, com as quais quase todos um dia conviveram, dirijo umas palavrinhas.

Lamento a morte covarde do fiado e do pendura, verdadeiras instituições da convivência cordial que expunham, para constrangimento ou gáudio dos assuntos da freguesia leal, nas cadernetas ensebadas ou nos papeizinhos espetados, depoimentos vivos sobre as penúrias ou as falhas de caráter de algum parceiro de copo. Quem os matou foi a banca, com seus tristes e indispensáveis cartõezinhos de plástico ¿ débito ou crédito, senhor? -, que transferiram tais assuntos para seus cofres e sigilos inescrutáveis. Da razão ligada ao desamor pela vida, não cabe aqui tratar. Paradoxalmente, é assunto bom para mesa de bar, amainadas a mágoa e a dor.

Mas, sei dessas coisas aí mais por ouvir contar, pois os botecos de aqui, em sua grande maioria, hoje são cruéis com os de minha laia. Já não sei em quantos deles tentei aportar e fui expulso pelas impossibilidades ambientais, rabicho entre as pernas. Andando com muletas até à beira dos 50 anos de idade, numa Beagá amena por boa parte desse tempo, apesar dos percalços pude transitar de modo razoável pelos botecos da cidade. Em especial nas décadas de 1960 e 1970, foi na efervescência de suas mesas que desenhei o principal de minha vida, de meus rumos, e o perfil de meus amigos.

Hoje, regredido para cadeirante há já uns 8 ou 10 anos, no que deveria ser o gozo da aposentadoria, só vi as coisas se complicarem. Os amigos pensam em te convocar, mas sabem que naquele boteco, ou naquele outro do torresmo perfeito, cadeira de rodas não chega, e não entra.

Proponho um raciocínio de ordem capitalista, pragmático (sem fricotes humanitários ou cidadãos, posto que isso parece irritar os donos do negócio e as autoridades concernidas): devagarinho, os deficientes vêm acedendo às classes consumidoras, por outro lado vemos os velhos rejeitando a morte, e, ao esticar a vida, reabastecendo com freqüência as legiões de deficientes. Estamos sendo empurrados para os shoppings centers e derivados, espaços onde não floresceram botecos de qualidade, talvez por alguma incompatibilidade inata entre o beberico e a conversa mansa, de um lado, e as tsunamis de homens e mulheres ensacolados, e crianças urrando seus mais baixos desejos, de outro.

Pensando bem, o acesso adequado a botecos de bom nível merecia ser tratado como uma questão básica de cidadania, direito inalienável. Ainda comemoraremos essa idéia, então vitoriosa, num boteco de boa bebida, bons petiscos e bons acessos.


5 comentários sobre “Querido mestre, Paulinho Saturnino

  1. Como bom mineiroca que sou, é um grande prazer visitar o blog de uma pernambeira ou mineiribucana (minasbucana também cai bem). Em que pesem dois defeitos em comum: sermos jornalistas e amigos do Paulinho. No meu caso, o segundo é o pior, porque tenho mais tempo de Paulinho do que de jornalismo. Na verdade, já deveria ter me aposentado dele há 6 anos, mas o bicho é tinhoso, de lábia afiada e coração tentaculoso. Quando a gente pensa que o driblou, ele aperta o passo e nos pega na esquina, com aquela agilidade prodigiosa que caracteriza os que conseguem suprir com a inteireza do espírito as limitações do corpo. E quando parece que a própria lei da gravidade se encarregou de enquadrá-lo de vez (e isto já ameaçou acontecer duas vezes de dois anos pra cá), o sacana saca da algibeira um truque, daqueles bem dele, caramelado com seu inegotável senso de humor, e retoma a posse de nós, as centenas de nós que somos seus servos indefesos.

    O mais triste nisso tudo é que eu, assim como você, há meses tenho também de aturá-lo diária e noturnamente no facebook. Por que diabos a Vida desrespeita a Natureza e nos imputa irmãos que não foram gerados pelo mesmo ventre materno?

    Um abraço paulínico!

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