O dia em que Paulinho não morreu…

por Sulamita Esteliam

Havia começado assim o texto de despedida, depois da notícia que pipocou em diferentes grupos do zap-zap e em todas as redes sociais: “E lá se foi nosso Paulinho … ao encontro da sua Katinha!”

Não, não foi o Covid-19 que o levou de nosso convívio neste plano, mas complicações decorrentes de uma pneumonia: falência múltipla de órgãos. No início desta noite, em Beagá de nosso amores e terrores.

Era o dia 08 de abril e 2020.

Paulinho Saturnino ou Paulo Roberto Saturnino Figueiredo é dessas pessoas especiais, que a vida, caprichosamente, coloca em nossos caminhos. O tipo de gente que levamos para sempre em nossos corações e mentes. No meu caso, há coisa de 40 anos e lá vai pedrada, desde o curso básico de Comunicação, na Fafich – Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da UFMG, ainda no prédio da Carangola, no Bairro de Santo Antônio, na Beagá da minha juventude. Minha vida mudou, completamente, a partir dessa vivência.

Recebera a “notícia” por cinco grupos diferentes. Jornalistas experientes, de renome, que depois fizeram mea culpa, nas mesmas redes onde anunciaram o “encantamento” do mestre Paulinho.

Euzinha conversava com uma ex-colega faficheira, mas não jornalista, pelo Messenger, exatamente sobre o estado dele. A pessoa, que seria parte da família, por vias tortas, me dizia da gravidade do caso. Euzinha falei da informação que acabara de chegar, se ela tinha como confirmar e me retornar.

Foi como uma tsunami nas redes. De repente, já tinha foto de despedida publicada no Facebook, textos, textinhos e textões lamentando a perda, louvando-lhe os méritos, gabando-se da amizade, transbordantes de afeto. 

Até que alguém da família desmentiu num comentário bem-educado: “Ele ainda está entre nós…”.

Os pedidos formais de desculpas vieram no mesmo diapasão da “barriga”. Fruto da confiança nas fontes, várias e diversas, todas íntimas ou próximas, todas confiáveis.  A boa desculpa: prova do quanto é querido.

Enfim, o “furo” não resistiu ao teste da verdade. E ainda bem. E Euzinha fui salva pelo meu descrédito no poder do tal “furo”, há tempos desenvolvido. Não escapei, entretanto, de ser apontada como uma das agentes na propagação da notícia falsa.

Havia buscado, no 13 de fevereiro de 2011, trecho da postagem, a primeira, que que fiz sobre o “querido mestre Paulinho Saturnino”, com este título.

Fui auxiliada por navegantes que deram a rota na lista das postagens mais acessadas, que viceja ao pé da página principal do blogue. Certamente, a notícia da internação dele, no domingo 05 de abril de 2020, atiçara a busca. Escrevi a respeito no da seguinte.

Meu pensamento, e torcida, de fato, era que ele venceria mais essa. Nós, irmãos e irmãs de alma, amigxs, admiradores e pupilxs do Paulim, o temos na conta de super…

“(…) o bicho é tinhoso, de lábia afiada e coração tentaculoso. Quando a gente pensa que o driblou, ele aperta o passo e nos pega na esquina, com aquela agilidade prodigiosa que caracteriza os que conseguem suprir com a inteireza do espírito as limitações do corpo. E quando parece que a própria lei da gravidade se encarregou de enquadrá-lo de vez (e isto já ameaçou acontecer duas vezes de dois anos pra cá), o sacana saca da algibeira um truque, daqueles bem dele, caramelado com seu inesgotável senso de humor, e retoma a posse de nós, as centenas de nós que somos seus servos indefesos.”

Tuca Zangaba em comentário no blogue em 24 de fevereiro de 2011

Observador e crítico sagaz, Paulinho é daqueles para quem rir sempre foi o melhor remédio. O humor  sempre foi sua especiaria para temperar uma ironia quase impiedosa, até consigo mesmo.

Apaixonado pela vida, quase se entregou à tristeza quando perdeu sua companheira de toda a vida, a amada Katinha.

Em janeiro de 2019, mal começado a era capiroto, já em desgoverno, o A Tal Mineira fez uma pequena série de entrevistas sobre as perspectivas, ou falta delas, do Brasil sob a ameaça de direção. Paulinho Saturnino foi uma das escolhas de maior repercussão. Vale à pena ler, ou reler

PS: Entrevista reblogada neste 2021

Ativista voraz nas redes sociais, temia cair nas malhas da pandemia, mas não deixava de fazer piada da sombra que o acompanhava. Dia 03 de abril, como de hábito, fez dezenas de postagens no Facebook e no Twitter sobre a crise sanitária e política.  Na penúltima delas, no FB, às 3:40 da madrugada, escreveu:

“Matutando na madrugada. Tentei imaginar, e depois? Descobri, então, que perdi a noção do que seja depois. Hoje não imagino nada mais abstrato, impalpável, que visualizar um depois, nem do próprio coronavírus, mas dessa fase de seu maior assanhamento, assim se espera. Os imunizados sobreviventes, claro que os testados e certificados, formarão uma certa casta privilegiada nessa caminhada, embora, de início, isso não afete a estrutura que garante nossa desigualdade social. De início, já que rapidamente os patrões darão destaque àqueles que não mais contaminam, nem são contaminados. Os membros dessa casta acabarão assumindo a cara de feliz superioridade que mostrava ontem o senador Alcolumbre, ao se dizer curado. Se o Tarcisio Meira estivesse ali, a seu lado, o senador seria mais cobiçado que o velho galã.

Ah, o depois… é muito o que pensar. Eu, por exemplo, no miolo do tal grupo de risco, se estico o olhar catando o depois, me deparo com um caminho naturalmente enevoado, do qual só se podem ver pequenos trechos. Cada um, um dia, com seus possíveis cuidados diante da insondável matreirice desse vírus 🦠 danadinho. Me perguntaram o que espero do futuro. Gastei uns bons minutos tentando lembrar o que significava futuro. Não consegui. Só me lembrei de uns versos do mestre Paulinho da Viola, no imortal Samba Curto:

“Só me resta seguir
Rumo ao futuro
Certo de meu coração
Mais puro”

Pois é, minha gente boa. É assunto pra mais de muitas léguas. Depois a gente estica. Ôpa, eu disse depois…

Realmente profético nosso tinhoso mestre.

Paulinho vacina

Paulinho está vivíssimo. Quem navega pelas águas do A Tal Mineira bem o sabe.  E cada vez mais ativo e mordaz em seus comentários nas redes sociais sobre nossa travessia pantanosa dessa pandemia, que está longe do fim, e o cai-não-cai do desgoverno, que segue apostando no caos. 

Nesta segunda, rememorou o sufoco da noite que antecedeu a sua internação:

Durante a madrugada agitada de 04/04/2020, enviei alguns zaps confusos para minha nora, que é médica. Falavam de sintomas que cresciam desnorteados. Em verdade, eu já delirava. Era puro instinto de sobrevivência. 
 
Ela viu as mensagens ao acordar bem cedo, e diante daquela zorra informativa fez o melhor. Mobilizou meu filho, e ele me encontrou quase já pra lá de Bagdad. 
 
Como nos últimos anos tenho vivido sob supervisão permanente, e muito competente, da Unimed-BH, a ambulância não demorou a me recolher. Lembro-me vagamente da médica toda paramentada me explicando algo antes de me embarcar. Me entreguei, enfim.  
 
Entrei na UTI do hospital da Unimed-BH com quadro de Covid19. Fui de imediato intubado, depois traqueostomizado. Deram pouca esperança de me salvar, e remeteram meu filho para uma quarentena em casa (e ele passou o tempo aqui sozinho, ou melhor, ele e sua Juju). 
 
O hospital relatava por telefone, a cada tarde, meu estado de saúde. Se no início extremamente pessimistas, à frente, pelo que sei, foram injetando doses de otimismo. Parecia que eu, nas profundezas do coma que duraria um longo mês, optara por ficar por aqui, e estava em guerra contra o mal já constatado como não Covid19, mas que me levava a falências múltiplas de órgãos. 
 
Um mês depois da chegada, me levaram pra enfermaria todo ligado nos últimos aparelhos, sob alimentação parenteral e em dependência total. Gastei alguns dias para ir acordando, e me re-situando no mundo real. Que eu descobriria logo surreal. Eu pedia pra ligar a TV e acompanhava o que via sem compreender muito bem. Era Bolsonaro-Covid19, Covid19-Bolsonaro. Custei a entender que era aquilo mesmo. 
 
Um mês depois, eu recauchutado, mas um caco, fui mandado pra casa. Uma cuidadora e minha cama hospitalar me esperavam, acolhedoras. De lá pra cá, as coisas melhoraram muito, e continuarão melhorando. Estou feliz e contente, até me surpreendo. A vontade de viver continua intensa e latejante. 
 
Escrevo isso cheio de gratidão, e querendo que a gratidão fique registrada. Gratidão infinita e eterna por meus amorosos protetores, Henrique, meu filho, e Déborah, minha nora.”

Como se vê, é quase uma ressurreição!

Daí que lhe revelei a crônica adormecida nos rascunhos, há um ano, e que tinha pensado em publicá-la no 30 de julho, dia do seu aniversário passado, mas desisti. E falei da coceira que a lembrança me deu em publicá-la, agora, que ele está inteiro e sacudido na clarividência. 

 – Que delícia. Faça o que quiser. Beijos. – Foi sua  resposta, ante o título: O Dia em que Paulinho não morreu.

Paulinho Caros Amigos

Imagens capturadas no Instagram/Paulinho Saturnino,

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Postagem revista e atualizada dia 06.04.2021, às 12:27: correção de erros de digitação e complemento de informação no parágrafo sobre “furo’ x “barriga”.

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