Entrevista: Paulinho Saturnino e o necessário dedo na ferida como parte da cura para seguir adiante

por Sulamita Esteliam

Quinta-feira é dia de entrevista. Desde a semana passada, e enquanto houver fôlego para alimentar chama. Desta vez, nosso convidado é Paulinho Saturnino Figueiredo, sociólogo e professor aposentado da UFMG.

Nós que o amamos desde quando aprendemos com ele na faculdade, a nossa amada Fafich,  a olhar ao redor, o chamamos, simplesmente, Paulim. Euzinha, por minha conta afetiva, agrego outro tratamento: “querido mestre”.

A série se propõe a analisar o Brasil de hoje, o que nos trouxe até aqui e para onde vamos, com o olhar arguto de quem consegue praticar o distanciamento para discernir o todo.

Paulim jamais escondeu que é ativista de esquerda e, em tempos cibernéticos, com grande alcance nas redes sociais, registre-se. Sua palavra certeira, seu raciocínio veloz, o espírito zombeteiro e mordaz se adequam à perfeição ao paladar difuso do ativismo digital.

Todavia, o cientista social não perde o fio da meada no labirinto do humor, da agilidade e das emoções inescapáveis. E é ele que emerge neste bate-papo em conexão Recife-Beagá, que, na verdade, serviu-se do correio eletrônico para se corporificar, com algum recurso do zap-zap.

Ele diz que sua fala está “meio formalista, esquemática”. Euzinha considero instigante, espero que você também.

ENTREVISTA/PAULINHO SATURNINO

Paulinho Saturnino Figueiredo – Fotos: captura no FB pessoal

A Tal Mineira – O Brasil acaba de fazer um desembarque nada fascinante no passado, ou a coisa pode não ser tão ruim quanto se apresenta?

Paulinho Saturnino – Não existe volta ao passado. Essa expressão apenas reflete nossa aflição e nossa perplexidade diante de uma realidade sombria, ameaçadora, ou simplesmente desconhecida. Essa volta imaginada pode ser nostálgica, quando foram bons os momentos vividos, ou pode ser temerosa, quando o passado foi doloroso, como é o caso em questão. Mas seja qual for, a ideia dessa volta carece de poder explicativo. Serve mais para inibir, imobilizar.

O passado resume-se à experiência, à história, a um suporte à reflexão sobre o presente. E por uma razão simples: as condições objetivas que deram vida ao passado, por lá ficaram. Se pensarmos, no caso, o período da ditadura militar, visto de hoje o povo brasileiro não é o mesmo, o Brasil de hoje é recém-egresso de um longo período democrático e de governos progressistas, e, no mundo, as correlações de força mudaram fortemente. 

Dentre meus vícios, o otimismo é um dos mais perversos e persistentes. Viveremos momentos duros, frustrantes, mas sairemos mais fortes, contemporâneos, reaproximados das necessidades e das aspirações das camadas mais sofridas do povo. A grande tarefa dos progressistas, da esquerda, será abreviar esse presente hostil, e se preparar para o futuro.

ATM – Embarcamos num trem fantasma? A seu ver, os militares usaram o ora presidente para chegar ao poder pela via legal?

Paulim – Nós, não sei, mas os militares embarcaram com certeza num trem da alegria. E numa composição mais vasta do que ousariam sonhar. Nas inúmeras solenidades militares que hoje ocupam tempo e espaço da mídia cativa, submissa à agenda oficial do capitão-presidente, o que mais se vê são militares eufóricos, mesmo se disfarçados pelo profissionalismo de caras sisudas. 

Em verdade, o alto oficialato, em especial no Exército, anda se sentindo como numa excursão da CVC à Disneyworld, como se adolescentes com passaportes liberados pra todos os brinquedos e atrações, e com papai e mamãe olhando de longe. Tempo para todos os direitos e aventuras, e tudo explicado com petulância e arrogância à sociedade como fruto da competência, da disciplina, e da impermeabilidade às manhas da corrupção. Um insulto ao corpo técnico-administrativo do Estado, e ao mundo político.

Como efetivamente só uma casta dessas corporações participou do golpe que derrubou a presidenta Dilma, em 2016, e das tramas que desembocaram na eleição de Bolsonaro (e já foi bem tardia sua aceitação como o candidato que representaria seus interesses, e que estaria apto a derrotar Lula, o PT e suas alianças), para a maioria dos quadros militares que vão se espalhando pelos vários escalões do poder do Estado tem algo de surpreendente e inesperado.

Esses militares, ora empoderados, em sua maioria eram jovens oficiais durante os anos de chumbo da ditadura iniciada em 1964. Suas formações e suas carreiras foram forjadas num período de redemocratização, de Constituição mais acolhedora aos interesses populares e de três décadas de convívio democrático na sociedade. Isso faz deles necessariamente atores diferentes, a serem decodificados em suas reações e alianças.

A casta militar se apoderou do centro do poder. Até o combalido, mas ativo golpista, general Vilas Boas ganhou gabinete dentro do Palácio do Planalto. Em seu discurso formal, esse grupo afirma defender os interesses do Brasil, representados pela manutenção da ordem e do status quo. Ou, leia-se, manter os privilégios dos dominantes, e a submissão ordeira dos dominados. Para tal darão, inicialmente, suporte e espaço para a economia do Paulo Guedes, e para a visão draconiana de Estado do ministro Moro.

Mas, como nas contradições que gera, a política é corrosiva por si mesmo, e atiça certezas e ambições, essa aparente harmonia do comando militar sobre o governo em breve conhecerá suas crises, e brechas serão abertas. Penetrar por elas, ou não, com que efeitos, tais decisões deverão ser tomadas pela ação política de oposição.

Com conspiração, traições, Lava Jato, e alguma sorte, os militares chegaram sim ao poder pela via legal. Para boa parte deles foi apenas montar nos cavalos que já passavam selados. E precisamos estar de olho vivo para perceber até onde generais e almirantes (a Aeronáutica se manteve discreta nessa conjuntura) estarão tolerantes às ordens, e eventuais descaminhos, de um mero capitão expulso da força, que vive a bajulá-los, mesmo sendo ele o presidente da República. Os instintos militares não devem nunca ser subestimados.

ATM- O que é mais preocupante em toda essa viagem de regresso?

Paulim – A meu ver, o mais preocupante é acreditar que estamos mesmo numa viagem de regresso, nos enfeitiçarmos com os retrovisores, e atropelarmos a realidade presente.

ATM –  Em sua análise, o que nos trouxe até aqui? A culpa é sempre do PT?

Paulim – Nossos erros. E é importante começar por aí quando estamos obrigados, e tal é o caso, a compreender nossas derrotas e os impasses em que nos metemos. Sem perder a ternura, como apregoava o mestre Guevara, temos que ser duros na análise, em especial se a entendemos como parte essencial da luta política. As feridas têm que ser tocadas, e temos que ser, no mínimo, tolerantes com as análises e propostas que se apresentarão à conversa coletiva, pré-condição para a mobilização eficaz.

Se cremos, e com razão, que inúmeros foram nossos acertos nas ações políticas e de Estado, que fizemos uma revolução pacífica no país, é de se perguntar quais foram os erros que nos conduziram a derrotas em várias frentes. E se perguntar com naturalidade, pois tais são os movimentos da história.

Quanto ao PT, é claro que ele pagaria o preço por ter liderado um longo e bem-sucedido processo de exercício de poder, por ser percebido como o inimigo a ser detonado pelas forças conservadoras e de extrema-direita; e de ter como líder o único personagem político brasileiro a ter projeção mundial, em especial por ter conduzido o país para um período onde houve batalha eficaz contra as desigualdades sociais.

Mas, a poeira vem baixando, e o PT logo saberá dimensionar sua importância como a maior força de oposição ao governo de extrema-direita. Saberá, espero, reavaliar sua inserção junto à sociedade organizada, e buscará um inadiável retorno a práticas de sua origem. Afinal, é balela considerar como mero derrotado um partido que liderou a chapa que obteve 44,87% dos votos válidos na eleição presidencial, e elegeu a maior bancada para a Câmara.

ATM – Os movimentos sociais e as esquerdas têm fôlego e garra para resistir ao obscurantismo?

Paulim – Com certeza que sim. E não só para resistir, como para derrotá-lo a médio prazo, e estando muito mais maduros para liderar os novos tempos que daí surgirão. O Brasil veio se amadurecendo de modo novo, fragmentado. Muitos dos recortes que foram se fazendo possíveis no novo tecido da vida social, uns mais, outros menos conscientes de sua força e organizados, estão descobrindo sua fala e seus interesses, estão se empoderando, e na sequência percebendo que as vitórias estão condicionadas pela capacidade de entrelaçarem esses interesses e propostas a interesses e propostas de outros grupos, segmentos e movimentos.

Qual o papel dos partidos progressistas e das lideranças políticas tradicionais na construção de realidades novas, aptas a promover a convivência, pacífica se possível, de segmentos e grupos que tensionam os limites e os valores da luta de classes como a percebemos hoje? Uma luta de classes obsessivamente negada pelo pensamento liberal, mas que ainda é a matriz explicativa mais importante à disposição. O presente hiperinformado, e com dinâmicas internas ainda incompreendidas, vem colocando questões urgentes à nossa ação e militância, partidária ou não.

Um exemplo: como o ódio ao PT, e especialmente ao Lula, ódio irracional e fantasioso em seu discurso, embora não em sua motivação, conseguiu se espalhar endemicamente, infiltrando-se inclusive em camadas sociais que teriam razões objetivas para serem imunes ao contágio? Claro que a mídia teve um papel determinante, mas nunca capaz de arrancar daí a vitória eleitoral, como presidente, de um revanchista e oportunista, que seduziu as massas com a pura negação, com o ser contra o famoso tudo que está aí, absolutamente alérgico a propostas construtivas e à mínima compaixão diante da tragédia em que veio se tornando a vida dos mais pobres, após a última crise.

ATM – Você acredita que deixarão Lula sair vivo do cárcere ou Lula Livre é causa perdida?

Paulim – Esse é o ponto de minha maior angústia política, e mesmo pessoal, nos dias de hoje. Ando engasgado por ter que conviver, impotente, com essa inominável injustiça histórica. Como Lula já cravou seu lugar na história mundial contemporânea, seus inimigos, nossas elites tentam apagá-lo do presente. Acreditam que a violência do ostracismo será capaz de arrancá-lo do coração de seu povo, e do respeito que a ele devotam políticos e intelectuais de todos os cantos do planeta.

Acreditei, vejo que ingenuamente, que a derrota eleitoral do PT iria criar o caminho para a libertação do Lula, mesmo sob condições. Hoje vejo que a nova conjuntura o empurrou para um quadro de maior hostilidade. Os atores que querem mantê-lo como um troféu ganharam musculatura e apoio. Moro e a Lava Jato em grande protagonismo, que deve durar algum tempo; dra. Raquel bajulando o capitão-presidente, na certa em busca de sua recondução; a velha mídia não abrindo mão da convicção de que supliciar o Lula ainda garante plateia e agradecimentos políticos.

É compreensível que a mobilização pelo #LulaLivre tenha se arrefecido, e que a Vigília diante da PF em Curitiba, onde encarceraram o Lula, mesmo com a persistência heróica da militância, já não tenha o impacto dos primeiros tempos. 

Outras formas de apoio ao Lula serão encontradas. Sua liderança, sua experiência e genialidade política ainda são fundamentais em qualquer projeto de reconstrução de um Brasil em busca de justiça, paz e igualdade social. Lula é o portador dessa utopia, e é impensável que ousem, e consigam, deixá-lo apodrecer na prisão, como é o desejo expresso do presidente e sua trupe. 

ATM –  Há solução sem povo na rua ou somos prisioneiros de um enredo alienante?   

Paulim – Na rua tem sido, entre nós, a principal expressão de vontades coletivas, mais ou menos precisas. Mas, ao menos desde 2013, as manifestações de rua deixaram de privilegiar os interesses populares e as exigências democráticas. As ruas ficaram divididas entre manifestações conservadoras, e mesmo abertamente golpistas, e manifestações que buscavam dar suporte ao governo progressista, no segundo momento mergulhado em crise política, econômica, e mesmo de identidade.

Como a rua é de todos, ali devem caber todas as manifestações, mesmo as equivocadas em suas propostas, segundo nossa ótica. Refutadas e proibidas só as agressivamente preconceituosas e fascistas.

Com despudorado apoio da mídia conservadora, por vezes em abertas convocações, a direita, em especial a golpista, arrancou de casa a classe média acomodada, fantasiou-a de amarelo canarinho, e ocupou as ruas Brasil afora com eficácia e grande repercussão. E assim, incluindo-se aí um habilidoso e até surpreendente manejo das redes sociais, a direita, da liberal à extremista, unidas conjunturalmente, usaram sua predominância nas ruas para golpear uma presidenta democraticamente eleita, e para levar um fascista inexpressivo até ao pé da rampa presidencial.

Respondendo à questão, eu diria que não haverá solução sem o povo na rua. Mas que tal proposição tem que passar por re-significações. No cotidiano político, só em momentos excepcionalmente críticos o povo acode massivamente às ruas de modo espontâneo. Afora, é claro, ocasiões de grandes feitos esportivos, mortes de ídolos e coisas do gênero.

Entre propostas, projetos ou protestos, e a adesão das massas, motivadas a se manifestarem publicamente, existe a questão mais aguda e desafiadora da intermediação. Se houve um domínio por parte da direita na intermediação através das redes sociais, tal vantagem poderá ser apagada em breve pela militância progressista.

Mas, se existe um fator de intermediação para o qual a direita é, e será, inapta, é aquele que passa pela ação e pelo crescimento dos movimentos sociais. É uma incompatibilidade de raiz que afasta a direita dos movimentos sociais e populares. E eles são, mais que nunca, essenciais, por serem perenes e agentes da consciência crítica. Uma consciência que não forja manifestantes eventuais, mas cidadãs e cidadãos assenhorados de seus destinos. Uma Marielle vale por centenas de senhoras piedosas em suas camisas da Seleção.

Cabe aos partidos e às lideranças progressistas encontrarem modos de convivência produtiva com os movimentos sociais. Especialmente sem sufocá-los, e sem tentar moldá-los aos dogmas partidários. E que o povo na rua vá progressivamente resultando da capacidade de se levar a esse povo clareza de propósitos e esperança viável de dias mais felizes num Brasil menos injusto.


6 comentários sobre “Entrevista: Paulinho Saturnino e o necessário dedo na ferida como parte da cura para seguir adiante

  1. Paulim é nosso mestre nosso companheiro querido de ensinanças de otimismo ímpar…só tenho flôres sempre a esse ser tão humano e tão iluminado ao mesmo tempo… querido por todos nós q n somos fakes, digo, seus facefriends seguidores e amigos desde o início dos processos políticos anteriores até os atuais. Nós amamos esse cara!

  2. Que análise! Importante terem pessoas com a lucidez e esperança de Paulinho para reacender em todos nós a objetividade através do texto publicado e a esperança em nossos corações. Muita gratidão mestre!

  3. Prof. Paulinho e erros do partido em conduzir uma política de alianças espúrias financiada com dinheiro público. Como tirar ISO da consciência nacional sem queimar as lideranças de base prontamente envolvida no processo político.

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