De livros, democracia e saudade

“Ditadura vem, ditadura vai! Ditadura vai, ditadura vem! Vai e volta! Posso dizer que golpes e ditaduras da direita são como cancros não diagnosticados que corroem as democracias burguesas, neoliberais. Ficam como serpentes venenosas a dormir. E, quando os movimentos democráticos crescem, elas se agigantam e dão o golpe.”

Romeu Sabará – Memórias de um Antropólogo Brasileiro em Plena Ditadura, pg 434 das 460 pgs. Chiado Books, 2018

por Sulamita Esteliam

Li pouco ano passado. Poucos livros, quero dizer. Ao contrário de 2017, quando devorei literatura – ao menos um livro por mês.

O livro de Romeu Sabará, que foi meu professor de Antropologia no básico do curso de Comunicação Social, na Fafich/UFMG, na segunda metade dos anos 70, foi o último que li do ano que passou. Na verdade, conclui a leitura no segundo dia deste 2019.

Foi um bom passeio pela memória da minha própria consciência e juventude. Um revisitar da História pelas histórias.

Ainda que o estilo não fuja às minúcias da ciência, é uma curiosa mistura de prosa e poesia. E há momentos de, como diria minha tia Mundica, “gastura”, pelo didatismo, e de risos. Porque se há uma coisa que Romeu sempre soube foi rir de si mesmo e do insólito.

Sabará se coloca como um estudo de caso no livro. Sua história pessoal e profissional é a referência para dissecar a fragilidade da democracia brasileira, a começar pela Academia.

Para mim soou bastante familiar. Afinal, não só na Universidade nossos caminhos se cruzam. Uma parte da história pessoal, profissional e política do professor se passa nos sítios onde cresci e frutifiquei: a região operária onde Belo Horizonte e Contagem se confundem, cenário e referência do meu primeiro livro, Estação Ferrugem.

Por essas picardias do Universo, reencontrei meu velho mestre no Sindicato dos Jornalistas, em setembro de 2018. Foi quando me convidou para o lançamento do seu livro, uma semana depois, no Sindieletro, na Floresta.

Reconheceu-me ao primeiro olhar. Perguntou sobre o livro que eu havia escrito sobre o Ferrugem. Quis saber se havia me livrado “do marido doidão” (o primeiro). Riu muito quando eu lhe disse que o ex se tornou um careta. Acompanhou-me ao encontro de mulheres com a eterna presidenta Dilma, em Santa Tereza.

Fiquei impressionada com a memória e vitalidade do mestre, ele também tido e havido como um maluco beleza naqueles tempos idos

Outro livro que li, e não foi fácil, a despeito da narrativa fluida, pelo peso da história, é Não Foi por Acaso – a história dos trabalhadores que construíram a Usiminas e morreram no Massacre de Ipatinga., 2009, edição independente.

Uma história densa ocorrida no que viria a ser o Vale do Aço das Minas Gerais no início dos anos 60, e que não pode ser esquecida. Mostra o modus operandi da classe dominante e os efeitos nefasto da omissão do Estado em qualquer tempo.

O livro-reportagem do querido amigo Marcelo Freitas foi menção honrosa no prêmio Vladimir Herzog 2010.

Cumpre o importante papel de reviver acontecimentos que a História oficial tentou encobrir: o assassinato de operários da Usiminas, que se revoltam com o estado de semi-cativeiro permanente assédio moral a que eram submetidos, em nome do progresso da ordem.

Li também A Verdade Vencerá, de Luiz Inácio Lula da Silva, Boitempo, 2018 e Gilberto Bem de Perto, autobiografia de Gil, escrita a quatro mãos com Regina Zappa.

Sorte é que no meio do caminho sempre corre alguma poesia para aliviar…

Costumo ter dor de consciência quando leio pouco. Não desta vez. Ano passado meu tempo foi ocupado pela militância. Até na leitura.

Daí o vazio do tamanho do mundo, ao constatar que pouco ou nada adiantou. E cá estamos numa viagem desembestada rumo ao passado

Não obstante, vou e volto: estaria me sentindo um verme se tivesse feito o contrário, ou simplesmente ficasse na janela vendo a banda passar.

Política e direitos humanos absorveram boa parte do meu tempo, Mas não só. Viajei muito, também.

Fui a Minas duas vezes, ver a família, amigxs e beber raiz, como faço praticamente todos os anos. É como um elixir de pertencimento e sobrevivência.

Fui a São Paulo, participar do VI Encontro de Blogueir@s, e aproveitei para rever amigxs e parentes.

Estive em Curitiba para conhecer e apoiar a Vigília Lula Livre, e em Brasília para a marcha popular em apoio ao registro da candidatura de Luiz Inácio Lula da Silva à Presidência da República.

No mais, escrevi, todo o tempo. Não rendi o suficiente, contudo. O novo livro ficou na mascação. O blogue, trincheira que é, absorveu-me.

Ocupei-me também de revisar, e re-revisar dois livros meus: Em Nome da Filha, que está em fase de impressão depois de 15 anos no freezer e em breve vai circular pela Editora Viseu; ironicamente, uma editora paranaense, de Maringá.

O livro trata de violência contra a mulher. Conta a história de um relacionamento abusivo, de perseguições e feminicídio. É a crônica de uma tragédia anunciada, e da luta de uma mãe para fazer justiça, daí o título.

O cenário é Pernambuco, especialmente o Recife e área metropolitana.

O outro livro é Estação Ferrugem, o primeiro, com edição única há 20 anos, pela Vozes/Prefeitura de Belo Horizonte. Trazê-lo à tona, de novo, é um dos projetos para este ano.

Você deve estar se perguntando por que diabos vim de retrospectiva em pleno 16 de janeiro.

E não tem nada a ver com a história, mas hoje seria aniversário da maninha Cordélia, um leitora voraz, e hoje bateu uma saudade arretada das nossas tertúlias.

É que a vida imita a arte, e o tempo nada mais é que o compasso da marcha que a gente sabe onde termina.


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