Amigo é para sempre

por Sulamita Esteliam
O Rio São Francisco era uma das paixões de João Rafael. Na foto, a Cachoeira Casca D'anta, na Serra da Canastra, abundante com a generosidade do João, filho de São Roque de Minas - foto: http://www.casadacultura.org.br

Ontem não consegui atualizar o blogue: a cabeça, e a ação, estavam em outros departamentos. Hoje, acordei com uma saudade arretada do meu amigo João Rafael Picardi Neto, que é estrela há exatos três anos, completados no dia 03 de abril. Talvez por que esteja em Minas. Talvez porque, ontem, me encontrei com velhos e bons amigos que não via há muito tempo. Enfim…

Daí, busquei em meus alfarrábios uma crônica que escrevi em homenagem ao João Rafael, por ocasião do seu passamento. E que foi publicada no sítio Jornalistas de Minas, do sindicato da categoria. Transcrevo mais abaixo.

Antecipo, assim, através da lembrança carinhosa, as homenagens aos colegas profissionais de jornalismo – aqueles que levam a sério sua missão de informar com verdade, criatividade e responsabilidade.

Não tenho foto do João Rafael. Busquei na rede e encontrei, não uma imagem dele, mas dois blogues com seus escritos: um de poemas, outro de crônicas. No Blog do Lenoir, amigo comum, encontro texto de Nairo Alméri, retrato em preto e branco do profissional que ele foi.

Dia 07 de abril, aliás, é Dia dos Jornalistas e o Sindicato comemora com grande festa, na Academia Mineira de Letras. Clique para saber os detalhes.

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O curiango bateu asas

Sulamita Esteliam*

Caras amigas e caros amigos:

Saibam todos, onde quer que estejam, que acabamos de perder nosso amado João Rafael Piccardi Neto, digníssimo fundador e presidente vitalício do Clube Pis-cológico da Região Metropolitana de Minas Gerais. Seu passamento se deu num hospital de Belo Horizonte, na madrugada do dia 03 – aliás, como deve ser o ocaso de todo curiango que se preza. Ainda que a boemia, a essa altura, fosse uma cultuada imagem de tempos idos – se é que boemia cultivava. Recebi a informação via correio eletrônico, em nota impessoal do Sindicato dos Jornalistas de Minas, repassada por amigas das Alterosas.

Caso não se lembrem, fui eleita e juramentada diretora etílica daquele Clube, menina-dos-olhos de nosso amado João Rafael. Creio que pretendíamos preocupações ecológicas naquele início dos anos 80. Boa desculpa para arranjarmos mais um motivo para a farra. Com se precisássemos. Ainda tenho guardado em meus alfarrábios o manifesto de fundação. Topei com ele dia desses, mas sabe Deus onde eu o terei guardado.

Naqueles tempos, o dia só começava, de fato, quando a noite acenava e, livre dos afazeres, se abria a primeira gelada na mesa da “sucursal”, tradução para o bar mais próximo, não necessariamente o da esquina. Ali, bem ao lado do velho DC – Diário do Comércio, no Bairro de Santa Efigênia, porta de entrada da Zona Leste da capital que se acreditava de todos os mineiros. Com a cerveja, iniciava-se o ritual que só se encerraria depois da enésima saideira, já mesa cheia, e a edição do dia nas rotativas.

A “sucursal” – quem tem memória há de se lembrar – era o nosso plantão cotidiano, e permanente. João Rafael era o primeiro a chegar. Ali aportava após garantir que suas pautas haviam se transformado em notícia, nas velhas remingtons pilotadas por intrépidos repórteres – a maioria garotada na faixa dos vinte e poucos anos. Alguns um pouco mais – como esta escriba que vos fala. Nossa diferença de idade – minha e do Baixinho-chefe de reportagem – agora que ele se foi aos 59, sei, era pouco mais de cinco anos, a meu favor.

O povoamento das mesas seguia o ritmo do fechamento do jornal. Depois de João, vinha a turma do serviço, da cultura e do lazer. Seguia-se o pessoal dos indicadores econômico-financeiros, do mercado de capitais, da agricultura, da indústria, do comércio, da nacional, da internacional… E a política, a partir de 1982, com a retomada das eleições para governador e o advento Tancredo Neves, distensão da ditadura em curso. A tribo da política – da qual passei a fazer parte, pouco depois que cheguei ao diário -, quase sempre era derradeira editoria a fechar – praticamente, junto com a capa.

João Rafael, como bom libriano, de 10 de outubro, se portava como anfitrião – na redação e no bar.  Lá, a pauta e a palavra certa para cada repórter: “Esta matéria é sua especialidade: tirar leite de pedra”. E lá ia eu, felizinha da Silva, determinada a não deixar frustrar minha missão. Aqui, a provocação certeira, dose sob medida para achegar, e desopilar o fígado de quem ainda trazia o mundo nas costas.

O bar era a nossa bancada para fechar o dia. O Baixinho, sim, tinha boa desculpa: esperar a mulher amada, Heloísa – um dos azes da equipe que ele conduzia como bom camarada. Heloísa cobria agropecuária, e tinha as fontes do setor ao alcance do telefone, embora praticasse a máxima de que lugar de repórter é na rua. Vez por outra, a cobertura se estendia pela noite, junto com a política. E o chefe, embora marido, não aliviava. Também não arredava pé da “sucursal”, enquanto ela não terminasse.  E assim continuou, mesmo depois que veio o filho, primeiro e único.

João Rafael era o irmão mais velho de todos nós. A casa dele e de Heloísa, na Vila Paris, era aconchego dos desgarrados e dos periféricos. Ali, a cozinha mágica de Marinalva, a secretária, era prêmio adicional para quem não podia se dar ao luxo de, dada a distância, almoçar na própria casa. Particularmente, fui diplomada como fila-bóia número um.

O Baixiinho era quem recebia cada um dos repórteres recém-chegados.  O DC era jornal especializado em economia, e sua redação tinha mística própria. Era politizada, à esquerda, e ali estavam “os cobras”. Impossível não se encabular. Bons tempos de jornalismo alegre e responsável.

Não me lembro, exatamente, da minha primeira pauta no DC, onde cheguei com três anos de labuta na profissão – e eram três pautas, em média, por dia. Não me esqueço, porém, que de volta da rua, me quedei embatucada em frente à máquina de escrever – tipo, “meu reino por um lead!” Minha mezinha era a segunda à direita da entrada da redação. A mesa do chefe de reportagem ficava na diagonal, mantida a direita. João Rafael, com seus óculos de lentes espessas, a tudo enxergava do seu posto. Sei que, quando dei por mim, ele estava postado à minha frente: “Assuma o texto. Assuma a informação.” Creio que aprendi, para sempre.

Há algum tempo, soube que João Rafael havia abandonado o copo. Há dez anos, falei com ele, pelo telefone, para confirmar o endereço para qual deveria enviar o convite para o lançamento do meu primeiro livro, Estação Ferrugem, em Belô. Ele não pôde ir, e depois, eu já de volta ao Recife, me ligou para explicar o motivo. Não nos vimos nem nos falamos mais, embora todos os anos eu vá à terrinha beber raiz. Tinha notícias dele pelos amigos, e pelo Pauta, jornal, do sindicato, que continuo a receber, já que mantive a filiação – lá e cá.

Cerca de uma semana atrás, um motorista de táxi me perguntou se eu era potiguar – de Natal, RN. Meu sotaque, particularmente no D e no T, me denuncia que não sou pernambucana, apesar de viver no Recife há quase onze, dos 14 que moro no Nordeste. Lembrei-me, na hora, do Baixinho, e da nossa penúltima conversa: “Parabéns! Você saiu de Minas, mas não ficou besta, não mudou de sotaque.” Nem tanto, mestre, mas você há de me compreender.

Minas era sua primeira obsessão. A segunda era o Rio São Francisco. E não poderia ser diferente, para quem nasceu em São Roque de Minas, ao pé da Serra da Canastra, onde brota o Velho Chico. “Topa fazer uma baita reportagem sobre a navegação do São Francisco?”

A ideia era ir à Pirapora, no Norte de Minas, e de lá pegar uma gaiola, rio acima, até Juazeiro, na Bahia – ou até onde o assoreamento permitisse. O jornal não liberou a verba, e a matéria teve que limitar-se a pesquisa e entrevistas. Foi capa, apesar disso, e os olhos de João Rafael brilharam de contentamento. Pena não ter podido saber qual sua opinião sobre as obras de transposição do rio…

Toda essa polifonia melancólica, caras e caros, é para dizer que a morte pode parecer estúpida – e no mais das vezes o é. No entanto, a gente se encontra nela. Melhor seria se nos cultivássemos mais em vida.

Em nome da vida, João Rafael se privou do álcool durante anos. Manteve o cigarro. Um câncer do pulmão o levou para o outro lado, mas poderia ser qualquer outro mal ou acidente o fio condutor.  Não sei quantos de nós, companheiros de labuta e de mesa de bar, pudemos estar perto dele na fase de adoecimento. Tomara, mesmo, não tenha ficado só, pois que solidão não era a sua praia.

Enfim, ele partiu e agora já não se pode fazer nada. Foi-se para uma banda que a gente intui, mas não sabe se existe, ainda que prefira acreditar.  Melhor crer que ninguém morre, “fica encantado”, como escreveu outro João, o Guimarães Rosa, em livre tradução.

Não chorei a morte de nosso querido João Rafael. Apesar de toda a tristeza em saber que não poderei mais encontrá-lo um dia, numa esquina qualquer de Belo Horizonte. Hoje, entreguei-o ao mar, para que ele viva para sempre, não somente em meu coração, em minha memória, mas ao alcance dos meus olhos e da minha mão.

Praia Boa Viagem, Recife-PE, 07 de abril de 2008, Dia dos Jornalistas.

*Sulamita Estelçiam é editora etílica e co-fundadora do Clube Pis-Cológico da Região Metropolitana de Minas Gerais.

Jornalista e escritora – autora do romance-reportagem Estação Ferrugem, Vozes, 1998


10 comentários sobre “Amigo é para sempre

  1. Minha contribuição para a lembrança do João Rafael

    Onde foram parar os pauteiros?
    Enviado pelo autor, Belo Horizonte-MG

    Eles, com seus cabelos ralos ou grisalhos, estão nas assessorias de
    imprensa, mostrando que fazem falta nos jornais a , revistas, rádios e TVs

    Por João Rafael Picardi Neto, jornalista

    21 de junho, 2004

    Eu mesmo não vi. Um sobrinho me contou que um jovem desceu ou tentou descer, em um caiaque, o poluído Arrudas, que corta Belo Horizonte, partindo da Praça da Estação. Não li nem ouvi nada a respeito dessa peripécia.

    Por três vezes passei defronte do Palácio da Liberdade e constatei que, por três vezes, algum veículo subiu no passeio que circunda o prédio. Em um desses acidentes, na curva da Avenida Cristóvão Colombo, o carro conseguiu entrar no vão entre um poste e a grade e acabou fazendo, entre os ferros, um buraco bem grande, atualmente tapado por uma placa de metal.

    Outro acidente resultou na derrubada de um poste quase em frente ao portão do palácio e, no lugar dele, existe agora um cone. O terceiro acidente, o pior de todos, foi a derrubada de mais um poste, um pouco além do portão, seguindo-se a destruição de parte da grade por um carro, que na “incursão” deixou seus pára-choques pretos na grama. Também só fui ler a respeito do fato alguns dias depois, um pouco desconfiado de que um Vectra tivesse condições de fazer aquele estrago, sem que o motorista nada sofresse.

    Os preços do tomate e do jiló, nos sacolões, subiram assustadoramente. Esse fato também não foi explorado pela imprensa. Com a supersafra 2003/2004, faltou sacaria no mercado e, além de ficar difícil encontrar o saco de ráfia, que agora está substituindo o saco de linhagem, o preço da rústica embalagem teve brusca elevação nos preços. Nenhum registro.

    Não li nada sobre as dificuldades dos produtores para a armazenagem da safra mineira, que cresceu acima da média nacional. Não seria difícil programar essa matéria, pois a dificuldade existe inclusive em períodos de safras menos expressivos. Falo de um tempo em que a imprensa prestava mais atenção à agricultura.

    Cresceu a produção de pão-de-queijo em nível industrial. Nada sobre fecularia ou a produção artesanal de polvilho azedo, matéria que deveria interessar inclusive à TV, pois o assunto gera belas imagens.

    Viajando pelo interior, vejo novas indústrias surgindo às margens das rodovias. Nem uma linha nos jornais sobre elas, nenhum interesse da TV, até porque, se houvesse, o repórter teria de se limitar a dizer “aqui surgiu mais uma empresa”, “esta empresa que começou a funcionar há três meses”, e “aqui temos outra empresa que, criada há menos de um ano, já tem condições de exportar” etc., sem dizer os nomes, sem mostrar placas. Na verdade, cobertura dessa forma é dispensável.

    Notícias positivas, negativas, curiosas, interessantes estão espalhadas pelos quatro cantos do mundo. Até a farinha de mandioca, que comemos no nosso dia-a-dia, tem uma história interessante. O curioso e o inusitado deixaram de ser notícia ou não existem mais profissionais para enxergar por esse ângulo?

    O pequeno “caldo-de-cana” na MG-50, depois de anos de dedicação do pequeno sitiante, transformou-se no grande restaurante. E isso não mereceria registro?
    Criada uma cooperativa de pescadores para explorar o pescado do lago de Furnas. Quem ficou sabendo? Por que não se fala mais sobre os biodigestores tão badalados na década de 80? Minas se firmava como um Estado produtor de seringueiras e de cacau. Porque essas culturas não prosperaram no Estado? Por que importamos todo o trigo que consumimos?

    O Estado é o segundo maior produtor nacional de ovos, porque a maioria do
    produto encontrado na Ceasa-MG vem de São Paulo? Por que, nos espetáculos beneficentes, destinados a ajudar o programa de combate à fome, não valem como entrada produtos como o fubá, farinha e sal, considerados indispensáveis para a composição dos alimentos das famílias pobres? Nunca li, ouvi ou vi na TV a manifestação dos produtores e distribuidores desses alimentos contra a indesculpável
    discriminação. Nenhuma palavra dos nutricionistas sobre a importância de facilitar para os pobres o acesso ao fubá e à farinha, principalmente.

    O que levou os editores dos jornais a pensar que os leitores só se interessam por crimes, política, politicagem, bolsa de valores e o cassino chamado mercado financeiro?

    Abro os três maiores jornais da capital. Todos abordam invariavelmente os mesmos assuntos. Apesar de ter trabalhado mais de 13 anos em emissoras de TVs, quase não assisto aos telejornais, mas acredito que também nesses veículos está faltando imaginação. Ou estariam faltando pauteiros?

    1. Curioso é que topei com este texto na página do SJPMG e pensei tê-lo lincado na primeira citação a João Rafael. Depois que vi seu comentário, fui conferir e o acesso é outro. Vou publicar o texto no blogue. Creio que ele gostaria. Obrigada.

  2. Novas tecnologias não substituem o “velho pauteiro”
    Figura central da produção diária do jornalismo no passado ainda recente, o pauteiro deixou de ser, nas empresas jornalísticas, o sujeito experiente, dono do conhecimento sobre os temas mais importantes do momento, a memória sobre fatos passados que deviam ser lembrados e o banco de dados de fontes.

    A caderneta de endereços do pauteiro valia ouro. E quando o sujeito era o João Rafael, a criatividade transparecia de forma abundante: a capacidade de tirar assuntos dos classificados de jornais, do diário oficial, da rua, do quase nada ou do nada e identificar personagens para sugerir uma boa reportagem.

    Hoje, os veículos de comunicação, focados exclusivamente na redução de custos, abandonaram a experiência, a cultura, as referências históricas e a rede de relacionamentos do pauteiro, substituído pela improvisação e ausência de referências.

  3. Sula, quanto tempo!
    Sou ateu e, por dever de ofício, não preciso acreditar em milagres. Mas o mundo nem nota, pois tinha o João Rafael com tantos santos – São Roque, São Francisco, São Brás … – para compensar. E até fazer milagres, como este, de encontrar teu blog e ler coisas bonitas. O velho João Rafael, com seu sorriso sapeca, gingado malandro (do bom malandro), e conversa mansa, franca e amiga, foi um símbolo nesta lida. É uma saudade que merece ser lembrada, sempre. Parabéns pelas homenagens que faz ao amigo. Ele as merece!

  4. Hoje seria aniversário dele. Não sei como me lembrei. Mas o certo é que estou aqui lendo esse blog maravilhoso. Tenho o João Rafael em alta conta, por ter me incentivado a continuar escrever poesias com palavras, me disse um dia, que eu poderia viver de poesia se assim eu desejasse. Nos correspondemos por 3 anos e nunca nos vimos pessoalmente. Na época soube da morte dele. Senti profundamente. Mas logo me lembrei de algum desadouro que ele me escreveria em resposta. Não sei se ele era assim com todo mundo mas um dia era amável e no outro rabugento. Falo isso com todo carinho e respeito que guardo por ele. Parabéns pelo Blog, maravilhoso. Diva. divapsatya@gmail.com

    1. Obrigada, Diva pelo acesso e a gentileza do elogio. Fico feliz que o blogue agrade gente com a sua sensibilidade. Sempre me lembro do aniversário do João Rafael, que continua muito querido. Além disso, nesse mesmo dia tenho outros amigos que completam idade, e seria impossível esquecer, de qualquer forma.
      Ri um pouco aqui sozinho, lendo sua observação sobre o comportamento de João Rafael… sim, ele alternava amabilidade com rabugice – como bom libriano.
      Confessava que, invariavelmente, acordava de mau humor… hehe Tenho uma filha, também libriana, que é igualzinha. Fique em paz.

      Sim, se algum dia se dispuser, mande um poema para publicar no blogue. Só não tenho como remunerá-la, pois o blogue não fatura com publicidade nem outro meio qualquer…

      Abração.

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