A falta que faz um pauteiro

por Sulamita Esteliam
Não encontrei o autor da charge, que representa o candidato Serra, durante a última campanha à presidência: faltou pauteiro...

Recebo de Carlos Plácido Texeira, amigo jornalista e ex-colega de redação no velho e bom Diário do Comércio, em Beagá – creio que no Hoje em Dia, também – texto instigante sobre uma função primordial no exercício do jornalismo: o pauteiro. Enviou-me a propósito da homenagem que esta reles blogueira fez, ontem, ao querido e saudoso João Rafael Picardi Neto.

Plácido deixou o texto nos comentários da postagem, obrigada. Curioso é que já havia lido o artigo no sítio Jornalistas de Minas, quando foi postado pelo Sindicato, há alguns anos. E ontem, procurei por ele, e acreditei tê-lo lincado logo na primeira citação do nome. Hoje, fui conferir e o acesso leva aos poemas do João Rafael.

Creio que, da nuvem que ele pilota noutras plagas, gostaria de vê-lo reproduzido aqui; em território livre, campeado por esta pupila – que também exerceu a função de pauteira: de variedades e de política. Tive o melhor dos mestres.

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Vamos ao texto de João Rafael, na versão publicada pelo Jornal dos Amigos:

Onde foram parar os pauteiros?

Enviado pelo autor – Belo Horizonte-MG
Eles, com seus cabelos ralos ou grisalhos, estão nas assessorias de
imprensa, mostrando que fazem falta nos jornais a , revistas, rádios e TVs
Por João Rafael Picardi Neto, jornalista
21 de junho, 2004

Eu mesmo não vi. Um sobrinho me contou que um jovem desceu ou tentou descer, em um caiaque, o poluído Arrudas, que corta Belo Horizonte, partindo da Praça da Estação. Não li nem ouvi nada a respeito dessa peripécia.

Por três vezes passei defronte do Palácio da Liberdade e constatei que, por três vezes, algum veículo subiu no passeio que circunda o prédio. Em um desses acidentes, na curva da Avenida Cristóvão Colombo, o carro conseguiu entrar no vão entre um poste e a grade e acabou fazendo, entre os ferros, um buraco bem grande, atualmente tapado por uma placa de metal.

Outro acidente resultou na derrubada de um poste quase em frente ao portão do palácio e, no lugar dele, existe agora um cone. O terceiro acidente, o pior de todos, foi a derrubada de mais um poste, um pouco além do portão, seguindo-se a destruição de parte da grade por um carro, que na “incursão” deixou seus pára-choques pretos na grama. Também só fui ler a respeito do fato alguns dias depois, um pouco desconfiado de que um Vectra tivesse condições de fazer aquele estrago, sem que o motorista nada sofresse.

Os preços do tomate e do jiló, nos sacolões, subiram assustadoramente. Esse fato também não foi explorado pela imprensa. Com a supersafra 2003/2004, faltou sacaria no mercado e, além de ficar difícil encontrar o saco de ráfia, que agora está substituindo o saco de linhagem, o preço da rústica embalagem teve brusca elevação nos preços. Nenhum registro.

Não li nada sobre as dificuldades dos produtores para a armazenagem da safra mineira, que cresceu acima da média nacional. Não seria difícil programar essa matéria, pois a dificuldade existe inclusive em períodos de safras menos expressivos. Falo de um tempo em que a imprensa prestava mais atenção à agricultura.

Cresceu a produção de pão-de-queijo em nível industrial. Nada sobre fecularia ou a produção artesanal de polvilho azedo, matéria que deveria interessar inclusive à TV, pois o assunto gera belas imagens.

Viajando pelo interior, vejo novas indústrias surgindo às margens das rodovias. Nem uma linha nos jornais sobre elas, nenhum interesse da TV, até porque, se houvesse, o repórter teria de se limitar a dizer “aqui surgiu mais uma empresa”, “esta empresa que começou a funcionar há três meses”, e “aqui temos outra empresa que, criada há menos de um ano, já tem condições de exportar” etc., sem dizer os nomes, sem mostrar placas. Na verdade, cobertura dessa forma é dispensável.

Notícias positivas, negativas, curiosas, interessantes estão espalhadas pelos quatro cantos do mundo. Até a farinha de mandioca, que comemos no nosso dia-a-dia, tem uma história interessante. O curioso e o inusitado deixaram de ser notícia ou não existem mais profissionais para enxergar por esse ângulo?

O pequeno “caldo-de-cana” na MG-50, depois de anos de dedicação do pequeno sitiante, transformou-se no grande restaurante. E isso não mereceria registro?
Criada uma cooperativa de pescadores para explorar o pescado do lago de Furnas. Quem ficou sabendo? Por que não se fala mais sobre os biodigestores tão badalados na década de 80? Minas se firmava como um Estado produtor de seringueiras e de cacau. Porque essas culturas não prosperaram no Estado? Por que importamos todo o trigo que consumimos?

O Estado é o segundo maior produtor nacional de ovos, porque a maioria do
produto encontrado na Ceasa-MG vem de São Paulo? Por que, nos espetáculos beneficentes, destinados a ajudar o programa de combate à fome, não valem como entrada produtos como o fubá, farinha e sal, considerados indispensáveis para a composição dos alimentos das famílias pobres? Nunca li, ouvi ou vi na TV a manifestação dos produtores e distribuidores desses alimentos contra a indesculpável
discriminação. Nenhuma palavra dos nutricionistas sobre a importância de facilitar para os pobres o acesso ao fubá e à farinha, principalmente.

O que levou os editores dos jornais a pensar que os leitores só se interessam por crimes, política, politicagem, bolsa de valores e o cassino chamado mercado financeiro?

Abro os três maiores jornais da capital. Todos abordam invariavelmente os mesmos assuntos. Apesar de ter trabalhado mais de 13 anos em emissoras de TVs, quase não assisto aos telejornais, mas acredito que também nesses veículos está faltando imaginação. Ou estariam faltando pauteiros?


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