Quando escrever dói

por Sulamita Esteliam
Margaridas simbolizam crianças, tocadas pela pureza do orvalho e pela alegria do sol – foto: http://www.margaridasempapel.wordpress

Estou por demais mexida para escrever com propriedade. Mas a palavra, escrita ou falada, tem sido a minha vida. Não posso fugir à minha sina. Ademais, traçar linhas, mal ou bem, baixa a pressão da alma, alivia o espírito. Assim como cantar e dançar espanta os males, afugenta o cramunhão da amargura, da tristeza que sufoca e anestesia.

Só que hoje, 07 de abril de 2011 – Dia Nacional dos Jornalistas, os amigos que me perdoem – é impossível cantar ou dançar, muito menos comemorar. Resta-me escrever.

A notícia da chacina na escola de Realengo, na Zona Oeste do Rio de Janeiro, me chegou em meio ao café da manhã; e ao último telejornal matutino. Eu, que mal ligo a TV – desde que acompanhar o noticiário deixou de ser obrigação profissional -, passei o dia agarrada ao sofá, zapeando as principais emissoras. Olhos e ouvidos incrédulos, atentos, derramados.

Chorei o dia inteiro.

Não há limite para a natureza humana quando ela se aproxima da animalidade.

Sou cada uma das mães e dos pais, irmãs e irmãos, avós e avôs, tias e tios, amigos que se salvaram, de cada uma das crianças vitimadas.

Tenho filha ainda adolescente. Tenho um casal de netos e mais uma sobrinha, todos na faixa de idade, e no período escolar, das crianças-adolescentes escolhidas pelas balas certeiras do desespero. Na cabeça, no tórax e no abdômen. Inconsciente!?

Doze “brasileirinhos”, que tiveram a vida abreviada, como bem lembrou a presidenta Dilma, que também é mãe e avó. E que, por isso, chorou.

Meninas em sua absoluta maioria: dez. Maioria também dentre as  dezenas de feridos,  dos quais onze permanecem internados, quatro dos quais em estado grave. É o que diz o noticiário da noite.

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Por que meninas-alvos-preferenciais!? O algoz não pode mais responder. Suicidou-se, ao que consta. Barrado em sua regência macabra – por um soldado, destemido ou solidário, que lhe atirou nas pernas. Buscou o beneplácito da morte.

O sargento Alves, travestido em herói, e mais dois colegas foram trazidos por crianças feridas, mas corajosas e determinadas. Instadas pela professora, abençoada, fugiram. Escaparam à fúria assassina. Pediram socorro a uma guarnição militar, em trabalho na redondeza.

Do contrário, Wellington  Menezes  de Oliveira, um jovem de 23-24 anos, ex-aluno da escola, reservado e sem antecedentes criminais, teria levado outras dezenas de vidas com ele. Tinha munição para muito mais terror.

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Por que alguém invade um escola para matar inocentes? O que o motiva?

Wellington planejou, se armou, treinou, se abasteceu. Esperou o momento certo. Sabia que não seria barrado na confraternização dos 40 anos da escola. Antes de matar, destruiu as provas  da premeditação. E escreveu uma carta-testamento. Nela, prevê a própria morte, dá instrução para o funeral; e pede que “os puros” orem para que ele renasça no perdão de Deus.

Louco, obsecado ou reprimido em surto psicótico? Como lidar com isso?

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Chacinas ocorrem no Brasil todos os dias. Nossas metrópoles, de há muito, vivem em guerra civil. Crianças e jovens morrem, cotidianamente, esmagados pela violência urbana. Flagelo de séculos de desigualdade, agregada ao flagelo do tráfico e das drogas, que avançam rumo ao interior e levam nosso futuro. Sempre os mesmos: a maior parte meninos, pobres e negros.

Há ocorrências de rixas entre alunos, de agressões e, até, morte de professores – como aconteceu numa faculdade de Belo Horizonte, em dezembro último. Nada que se compare ao que ocorreu na Escola Municipal Tasso da Silveira.

Massacres no território sagrado da escola, lugar de comunhão de ideias e troca de experiências, de construção de universos próprios e coletivos, são comuns nos Estados Unidos, de cultura armamentista. Em alguns países da Europa e, recentemente, na Ásia, também se registram casos.

No Brasil, que em plebiscito nacional recusou o desarmamento da população, é a primeira vez. Entramos de vez no labirinto da estupidez e da barbárie?

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A presidenta Dilma Roussef decretou luto oficial de  três dias. Despachou para o Rio a ministra da Secretaria Especial dos Direitos Humanos, Maria do Rosário, para prestar solidariedade às vítimas e às suas famílias.


12 comentários sobre “Quando escrever dói

  1. Sulamita

    Eu ainda não consigo escrever e falar nada sobre essa tragédia. Me encontro em estado de perplexidade e comoção. Preciso de mais dados para qualquer conclusão e quem sabe obter disso tudo algum tipo de LIÇÃO
    É um momento muito difícil e por ora só posso te agradecer pela tua tentativa e coragem de escrever.

  2. É, Sula.
    Triste. Mexida também – como não?
    Uma tragédia que nos coloca a pensar no estado da nossa sociedade, na falta de amor e nas medidas tão necessárias pra respirarmos, todos.
    Não gostei, obviamente, do ocorrido, mas no meio dele o seu texto é importante pra mim.

  3. ,coro,,,
    Sulamita Querida. que dor é esta que marcou e dilacerou meu coração de mãe mais uma vez. Por quantos ´ja havia horado em minha vida. Há 15 longos e sofridos anos tenho chorado a morte de meu amado filho. Por quantos como JOÃO HÉLIO, JOÃO ROBERTO. LAVINIA, que tinham seus sonhos ainda no coração e um pouco na mente por serem tão pequeninos. E desde quinta-feira sofro, choro não durmo e sinto um sesejo imenso de abraçar mães e pais de mais esses jovens que se foram de forma tão cruel.Esta dor tão cruel habita meu coração e parece não ter fim.Não sei se vou aguentar ou sucumbir pois meu coração está batendo bem devagar pela dor que serepete todos os dias Peço preces para todas nós que perdemos nossos filhos. DEUS ME DEU UM FILHO TAO BOM E HOJE TEM O PRIVILÉGIO DE CUIDAR DELE. REGINA BORDALLO, MÃE DE VÍTIMA DE VIOLÊNCIA NO RIO DE JANEIRO.

  4. Sulamita Querida. Desculpe alguma falta de letras em meu comentario acima, ate meu nome escrevi errado, é REGINA CELIA. Perdão mas escrevi meu pequeno texto em meio a muitas lágrimas. Agradeço a DEUS por voce existir e nos dar conforto. REGINA BORDALLO,

    1. Regina, eu é quem pede desculpas pela demora na aprovação dos comentários – os seus de outras pessoas queridas, que me honram com o acesso ao blogue. Estive envolvida em atividades diversas desde a última sexta, e só agora à noite acessei o computador.
      Obrigada, de todo coração.
      E que os Anjos e o Pai Celestial nos dê equilíbrio para encarar nossos desafios materiais e de alma. Abração.

  5. Sulamita só de lembrar da vontade de chorar eu sou mãe tenho 3 filhos e um neto eu pergunto pra Deus o que vai ser dos nossos filhos, nossos netos e dessa geração toda que esta pra vir? Dentro de casa não estão segura e nas escolas também não então o que nós temos que fazer nunca perder á esperança de ter sempre um dia melhor e ter muita fé em Deus porque só através dessa fé nos estamos seguros do contrário percamos o chão,crianças que não podem brincar como nós ja brincamos e muito,jogar bola na rua, brincar de bonecas,jogar peteca infelismente isso não existe mais á sempre um pedófilo,estuprador,sequestrador e psicopata rodiando nossas crianças é muito triste hoje não da pra ligar televisão só noticias ruins quanto sofrimento. O que eu posso dizer neste momento que Deus proteje todas as crianças e todos nós e pedir pra Deus confortar todos os familiares da grande perda de seus queridos filhos e que Deus possa confortar os corações deles.

  6. Texto muito bom.
    Parabéns, Sulamita!!!
    Triste demais a tragédia no Rio com as crianças. Estou estarrecida e consternada com esse fato, com toda esta situação. Tenho sobrinhas nessa idade, e me senti por um instante tia de todas estas crianças que se foram. Sofri, chorei. Por um momento tive vontade que esse ‘indivíduo’ não tivesse ido para que… aaah nem sei o que digo. Chocada!!!

  7. Compartilho com vocês, minha melancolia por tal tragédia do dia 07… Já sou avó e tenho um neto de o6 anos que mora no Rio. Qd soubemos, estava na rádio trabalhando, imediatamente visualizei-o na escola, em sala de aula, mesmo sabendo que não fora na escola dele… Gente, o meu desespero foi tanto, q liguei pros pais dele (filho e nora) agoniada com a mesma dor dos pais, avós e familiares daquelas crianças!
    O que me preocupa agora depois de tanta perda de forma tão doída, é como iremos lidar a partir desse triste episódio, com comportamentos suícidas semelhantes, no nosso universo jovem?
    Até que ponto responsabilizamos a internet, os bullings, os conflitos íntimos dos jovens e adolescentes; os seus instintos assassinos? De que forma a precaução terá que ser trabalhada nas escolas ou em outras localidades educacionais? A quem caberá a tarefa principal? A psicologia? A psiquiatria? A polícia? Os educadores? Os pais? A sociedade? O estado?
    Que ferramenta, nós da imprensa geral teremos que lançar mão, para contribuir?
    Deixo aqui em nome de tod@s que fazemos o Grupo Mulher Ideal no cariri do Ceará, nossa mais sincera solidariedade e gostaria de fazer uma observação: Graças a Deus que a ação solidária e sentimental das pessoas brasileiras, continua com a sua chama
    acesa!!!
    Amor e Luz para tod@s!!

  8. Parabéns pelo seu texto. Tentando deixar a emoção de lado … o que é quase impossível, precisamos refletir sobre o papel da mídia neste episódio. Sabemos que a mídia hoje exerce um papel avassalador na vida das pessoas. Pauta o dia-a-dia de todos nós. Infelizmente o que prevalece são programas que ressaltam a violência, banalizando-a, mostrando-a como mais um caso que sobrepõe a outro e assim por diante. De forma que episódios como esta tragédia passam a serem vistos como algo comum, corriqueiro que daqui a alguns dias será esquecido e substituído por outro fato tão avassalador como este. Se queremos uma cultura de paz, precisamos começar a pautar e dar o destaque necessário nas notícias como estas, mas contudo, sem banalizá-las e precisamos urgentemente buscarmos alternativas e formas de vida mais saudáveis e termos como parâmetros programas e programação construtiva, que não banalize e nem ganhe audiência com as dores alheias.

  9. regina célia você não me conhece mas eu conheço a história da covardia que fizeram com seu filho pois sou namorado da filha dele…. e ela sofre muito ao lembrar disso….

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