Justiça aplicada com rigor em PE

por Sulamita Esteliam*
Alcides Lins era filho e estudante exemplar
A jovem Amanda teve sua vida interrompida aos 17 anos - PE 360 Graus

Os cidadãos pernambucanos, através de júri popular, colocaram na cadeia, hoje (terça), dois assassinos de sonhos: João Guilherme Nunes da Costa e Thiago Tavares Alencar. Ambos participaram do assassinato de dois jovens diferentes, em local e épocas diversas. O primeiro, assassinou o jovem estudante de Biomedicina, Alcides Nascimento Lins, em 05 de fevereiro de 2010. O outro é acusado de estuprar, espancar, matar e ocultar o corpo da estudante Amanda Beatriz Silva de Oliveira, em 20 de janeiro de 2007. Ambos tiveram parceiros no crime, que já cumprem pena.

João Guilherme, reincidente, pegou 25 anos de prisão – 21 por homicídio duplamente qualificado  e quatro por corrupção de menor. Foi ele quem determinou que seu parceiro adolescente, então com 16 anos, atirasse em Alcides, mesmo depois de constatar que a vítima não era a pessoa que procuravam: “Não ia perder a viagem”, confessou durante o julgamento.

Seu comparsa já cumpre medida sócioeducativa de três anos, a mais dura prevista no ECA -Estatuto da Criança e do Adolescente.

Thiago Alencar foi condenado a 30 anos e seis meses, mas nega que tenha participado do crime de estupro e assassinato da garota Amanda, de 16 anos; a família dele acredita em sua inocência. O rapaz admite, porém, que ajudou o amigo Geison Duarte da Silva a esconder o corpo, no apartamento do amigo – na Av. Manoel Borba, Boa Vista – que teria ameaçado matar-se. Geison, assassino confesso, foi julgado em março 2009 e levou pena de 35 anos. Aqui, o noticiário da época.

Na ocasião, Thiago tinha acabado de passar no vestibular para Direito. Recorreu da pronúncia, por isso só foi julgado agora, aos 24 anos.

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Alcides tinha 22 anos e cursava o último ano de Biomedicina na Universidade Federal de Pernambuco. Menino pobre, filho de ex-catadora de lixo, que criou sozinha quatro filhos, fora o primeiro colocado no vestibular. Era aluno exemplar, querido por colegas e professores.

Foi baleado em frente de casa e na presença da mãe. Morava na Vila Santa Luzia, na Torre. O mesmo lugar onde seu executor matara outra pessoa, tempos atrás. A retrospectiva do caso.

* com noticiário das tvs e jornais locais

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O assassinato de Alcides Nascimento Lins aconteceu na véspera da re-estreia do programa Violência Zero – de defesa dos direitos humanos. Voltava, renovado, depois de 22 anos, pela Rádio Olinda. Produzido e dirigido por Ruy Sarinho, da Sintonia Comunicação Popular, teve na sua primeira bancada de apresentadores, Taciana Portela, Mariana Arraes e Urariano Motta.

Na segunda versão, esta hoje reles blogueira era apresentadora-convidada, junto com o veterano Saulo Gomes, depois com o próprio Ruy Sarinho. A estreia se deu em pleno sábado de Carnaval: 06 de fevereiro de 2010. E a crônica, emocionante, escrita por Uraniano Motta, jornalista e escritor – e culpado pelo convite de Ruy -, foi a primeira que li no ar.

Transcrevo a homenagem, mesmo sem ter pedido autorização do autor. Creio que ele não se arretará.

Carta a meu irmão

Urariano Mota

Eu também já fui como você, Alcides. Eu já fui igualzinho a você, menino pobre que nem sempre tinha o o que comer. Esclareço, pior dizendo: depois da morte do meu pai, quase nunca tinha pra comer. Mas se tem uma coisa que me fazia igualzinho a você era o gosto pelos livros, pela leitura, pela palavra impressa, que eu lia como um crente abre a bíblia e crê na palavra de Deus. Eu também já fui como você, até no tipo físico, até na cor, até na forma da tua pele. É lógico, não fui igual a você na aprovação das duras provas do vestibular, a ponto de ser classificado em primeiro lugar. Isso não, eu jamais consegui, embora sonhasse em fazer igual a você, quanto tinha quinze anos.

Lembro de um dos escândalos no Bairro de Água Fria, em 1966: O filho de um lixeiro havia passado no vestibular de engenharia. Miro, lembro bem. Ele era apontado como exemplo para nós, que não era assim tão grande, porque já gostávamos de estudar com o mesmo amor com que jogávamos bola.  Por isso, foi uma impressão de coisa conhecida, familiar, que abri o jornal há três anos e soube que você, Alcides, filho de uma ex-catadora de lixo, havia passado no vestibular. E passou lá em cima, no primeiro lugar entre alunos de escolas públicas. Então, eu me disse, há três anos: Alcides é meu igual, Alcides é o que eu sonhava ser. Esse irmão eu conheço.

E mais fui me identificando com você ao saber que você gostava de pensamentos como este: “A felicidade se conquista aos poucos. A felicidade é adquirida por cada pedra tiradado caminho”. Que coisa, não é, meu irmão? Eu também, quando era contínuo de A F Mota e Companhia Limitada, enquanto limpava  o lixeiro escarrado pelo português dono da firma, ia escondido para os livros de auto-ajuda, que me consolovam com pensamentos deste jeito: “Você é aquilo que você imagina ser”. Então, o contínuo estufava o peito para aguentar até a noite, quando ia para o curso clássico no Ginásio Pernambucano. Assim como você acreditava na felicidade, eu também acreditava que a gente crescia e melhorava de vida só pela força do pensamento positivo.

A vida me ensinou que não é bem assim, que as coisas não se passam, exatamente, dessa maneira. Entre o sonho e a realização, quanto trabalho, quanto suor, quando coisa a gente tem de engolir, Alcides. Quanto desrespeito a gente mastiga, mastiga, engole inteiro e o corpo devolve em turmor que explode no corpo da gente, meu irmão. Por isso entendi, quando você, sem a experiência destes meus 59 anos, encarou os delinquentes, não ouviu a sua mãe, que lhe gritava para entrar, entrar urgente na sua casinha que mais parece casa de pombo, só tem entrada, e você, não, parecia se dizer, será que eles não veem que eu sou o jovem de futuro? Será…? E os marginais não viram, ou, então, de raiva, porque eles próprios já não têm mais qualquer futuro, apagaram com o teu, meu irmão.

Por isso, não gostei das notícias que vieram depois, quando toda a imprensa disse que você morrera por engano. Que morreu porque foi confundido com um  traficante de drogas. O que isso quer dizer, mano? Que se você fosse usuário, comprador de maconha, estava certo receber duas balas na cabeça? O que é isso? A tua morte acende e eleva uma revolta imensa na gente, porque o crime e a barbárie cortaram o esforço de civilização em um jovem pobre. Mas a tua morte também nos ensina que não existe execução certa, que não há morte boa para ser aplaudida. Entre o uso da droga e a decência, entre o consumo de drogas e o amor pelos livros, às vezes não existe mais do que uma casinha de diferença. Assim como na tua vila de casinhas de pombo. Nenhuma morte é justa, Alcides, e tu, bem sabes, e tu, bem sabias. Quando criaste dificuldade para que o teu vizinho não fosse morto. E terminaste morrendo no lugar dele.

Mas a tua morte, por fim, deixa em todos nós a maior lição, Alcides. A lição é esta, meu irmão, meu igual: que mais vale a luta que a vitória. Você esteve no bom combate, Alcides. Você esteve na luta de reunir forças por acreditar que pelo teu trabalho e estudo poderias ajudar a tua mãe, os teus amigos, o teu povo. Filho de uma ex-catadora de lixo, recuperaste ao fim a dor da tua mãe para todos os jovens, até mesmo para os maduros de todo o Brasil… mais vale a luta que a vitória. Eu acho que aprendi, mano. Eu juro que, quando crescer, eu quero ser igualzinho a Alcides.


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