Pílulas de um domingo no Recife

por Sulamita Esteliam

Depois de mais de uma semana enfurnada no trabalho, aproveitei o primeiro domingo de sol em muitos dias no Recife para caminhar na praia. A maré estava seca, o que alarga a faixa de areia nos locais mais estreitos, possibilitando pisar o solo em linha reta, para felicidade dos joelhos. As barracas, por volta das 9:30, já estavam lotadas, todo mundo buscando tirar o mofo do inverno que se despede – e que aqui se traduz em chuva, muita chuva.

No Pina, a faixa de areia é naturalmente mais larga - internet

Caminhamos até o Pina, cerca de 3 km, eu e meu companheiro. É muito bom ver crianças correndo pela areia, atrás da bola ou se refestelando na areia molhada, como siris. Pais e mães, avós e avôs revisitando a infância, através dos filhos, dos netos. Jovens e adultos reabastecendo as energias. Pipas soltas ao vento, alternando vôos, até onde a vista alcança, com longos mergulhos – que requerem e expõem destreza.

Já estava com saudades da música dos ambulantes apregoando suas mercadorias. A pé, de bicicleta ou empurrando um carrinho, são um espetáculo à parte: “olha o caldinho!: feijão, peixe, camarão…”, “ostra-ostra…”, “camarão-camarão…”, “caldeiraaada!”, “amendoim torrado e cozinhado…”, “carangueeejo!”, “salaaaada!”, “olha o arrumadinho!”, “açaí!”, “vai um escondidinho aí, moça?”, “cochinha no espeto, uma delícia!”, “sandu-íche na-tural!”, “espetinho-espetinho…”, “pirulito”, “Ei: algodão-doce”, “olha o peixe! – escolha, freguesa, tá fresquinho; a gente assa (frita) na hora…”

Vende-se de tudo na orla, e não apenas o de cumê: óculos de sol, bronzeador, cds e dvds-naturalmente piratas, cangas, saídas, camisetas, pipas, sandálias, bijous, tatuagens de hena, cofres de gesso em forma de sapo, brinquedos de PET reciclado, panos de prato, redes, artes e artimanhas, nomes escritos em um grão de arroz…

Claro, há o departamento dos sem-noção do coletivo. Nada contra os cães, mas praia não é lugar de cachorro, particularmente num dia movimentado  – e há placas de alerta no calçadão.

Muito menos é lugar de desfilar de motocicleta, por mais que possa ser aprazível. Encontramos três amostrados, como se diz aqui, no percurso de ida; um deles, já de cabelos grisalhos, carregando a parceira na garupa. No retorno, outro, jovem e garboso, voltava acelerando a máquina, como se estivesse em via deserta.

E ninguém diz ou faz nada.

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Ao lado do do prédio onde moro, inaugurou uma sorveteria de conhecida marca local, unidade que se autodenomina “gourmet”.  Certamente o preço acompanha a sofisticação, mas vive lotada; chega a provocar engarrafamentos no trânsito da esquina movimentada.

O tamanho e as linhas arrojadas da arquitetura das instalações chamam a atenção. Entretanto, quem desenhou esqueceu-se do trivial: um compartimento para acondicionar lixo. Ontem, sol a pino, pouco antes do horário da abertura (funciona de 11:00 às 23:00) sacos e sacos se acumulavam sobre o verdejante gramado do jardim, ao lado do estacionamento.

Detalhe: a coleta de lixo na área se dá às segundas, quartas e sextas.

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Era para ser o fecho de ouro da festa, cujo objetivo é contribuir para a inclusão social da pessoa com deficiência, via atividades artísticas e culturais: o grupo de reggae Tribo de Jah, do Maranhão, no show de encerramento da 11ª Semana Estadual da Pessoa com Deficiência, no Parque Dona Lindu, em Boa Viagem, na noite do domingo.

Mas o espetáculo, gratuito, foi abortado a 50 minutos da abertura – por conta de tumultos. Não havia policiamento, assegura quem lá esteve.

Quem me contou foi minha filha, que foi com amigas, mas só ficou meia hora – saiu logo na primeira confusão. Os amigos que permaneceram ligaram, pouco tempo depois, preocupados. Contaram que o show fora encerrado pelo vocalista – o único dos cinco que enxerga, parcialmente: “sentimos muito, mas não dá para tocar desse jeito”, teria dito.

Nas redes sociais, a moçada que curte reggae descreve os acontecimentos: brigas de galeras de bairros e de “maloqueiros”, além de arrastões.  Reclamam da falta de policiamento e lamentam que o show, “massa”, num lugar “da hora”, tenha sido abortado.

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Liguei para a SEAD Superintendência Estadual de Apoio à Pessoa com Deficiência, órgão vinculado à SEDSDH – Secretaria de Desenvolvimento Social de Direitos Humanos de Pernambuco, promotora do evento. A Assessoria de Imprensa ficou de checar o que teria havido e retornar. Disse, porém, que “houve apenas uma confusão” e que havia “quatro duplas de policiais militares circulando pelo parque”.

Insuficiente pelo visto – ou para serem vistos e desestimular arruaceiros, como se depreende.

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