Sensibilidade a serviço do jornalismo e da literatura

por Sulamita Esteliam
No lançamento em Fortaleza, mês passado: Ana Karla está à direita - Frisson

Minha amiga-irmã cearense, Ana Karla Dubiela, não vem mais ao Recife para o lançamento do livro As Mães de Chico, sobre o filme de mesmo nome, que seria no fim do mês. Ela não desce a detalhes, mas me cheira a descompasso com os editores – já passei por isso.  É uma pena. Já estava curtindo o abraço que nos daríamos; tanto tempo só nos encontros virtuais. Portanto, duplamente frustrante o cancelamento.

Ainda assim, não deixarei de falar no assunto. E nada melhor do que dar voz à autora. Para tanto, transcrevo mais abaixo artigo que minha amiga publicou no jornal O Povo, versão digital, de Fortaleza – diário no qual trabalhamos juntas, e onde estive editora de Economia, durante seis meses.

Aliás, só agora me dei conta de que neste 10 de setembro faz, exatamente, 15 anos que fui demitida de lá. A primeira demissão, em 17 anos de jornalismo  e no Dia da Imprensa, a gente nunca esquece.

Melhor ainda quando a razão é ter feito jornalismo: um caderno inteiro de radiografia do processo de industrialização do Ceará, que desagradou o Palácio do Cambeba, à época habitado pelo tucano Tasso Jereissatti. Coisas do avesso da profissão. Mas isso é outro papo para outra hora.

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Ana Karla Dubiela é uma estudiosa da Literatura. Jornalista, escritora e doutoranda pela Universidade Federal Fluminense, foca seus projetos no cronista capixaba Rubem Braga, cultivada paixão. Sobre ele já escreveu dois livros: A Traição das Elegantes e os Pobres Homens Tristes – Uma leitura da crítica social de Rubem Braga, Editora da Universidade Federal do Espírito Santo, 100 páginas; e Um Coração Postiço – A formação da crônica de Rubem Braga, incluído na Coleção Textos Nômades do Banco do Nordeste, 208 páginas. Frutos de suas teses de pós-graduação e mestrado.

Ainda não li o livro As Mães de Chico. Estou curiosa. O artigo de Ana Karla nos oferece um aperitivo, e bela lição sobre jornalismo. Transcrevo:

As mães de Chico somos nós

09.09.2011| 01:30 – O Povo Online-Opinião

Ana Karla Dubiela – Jornalista e co-autora do livro As mães de Chico Xavier

Outro dia o colega Moacir Maia, no Cena Pública (TVC), perguntou-me se, nos dias de hoje, houve um deslocamento de eixo e o jornalista, cético por excelência, do tipo “ver para crer”, não estaria mais espiritualizado. Não posso falar por todos, mas dou meu testemunho: sim, eu mudei. Há alguns anos, não me veria escrevendo os bastidores de um filme sobre Chico Xavier. Muito menos sobre mães que sobrevivem à perda de seus filhos.

Ao ser convidada pela Estação Luz e Editora Intervidas (SP), relutei. Mas o que me fez “perder” o Carnaval pesquisando, resgatando sets de filmagem, entrevistando elenco? O que me fez suportar sentir a dor de cada mãe com que conversei, colocando-me no lugar de cada mulher que procurou Chico Xavier na esperança de receber um recado, um bilhete, qualquer coisa que desse a certeza de que seu filho continuava vivo? Seria masoquismo?

Eu havia perdido minha mãe há tão pouco tempo! Quando soube que o livro estava em 15º lugar no ranking do PublishNews, antes mesmo do lançamento, vi a força do projeto – que tem todo o jeitão cearense de ser. Reconheço que foi um prazer fazer contato com pessoas como Halder Gomes e Glauber Filho, os diretores; Emanuel Nogueira, o roteirista; os atores Daniel Filho, Caio Blat, Vanessa Gerbeli, Tainá Muller; os repórteres Marcel Souto Maior e Saulo Gomes. E ter podido trabalhar com Júlio Sonsol e Calanta Viana, que me ajudaram a terminar a escrita e a seleção de fotos em apenas 45 dias!

Mas foi outro o motivo que me fez escrever: 30 mil pessoas (só na 1º edição) teriam acesso a um novo modo de ver a vida, teriam acesso à esperança. Conheceriam a grandeza de mães que conseguem superar a perda do filho e seguem multiplicando sua experiência, num acalanto de puro amor, que conforta tantas mulheres em igual situação.

E eu tive a chance de dizer que jornalismo não é só manchete sangrenta, mas que também é a boa notícia, é a boa gente, anônima, que corresponde à maioria da população. Como mulher, mãe, jornalista, escritora e, sobretudo, uma pessoa que sempre busca espiritualizar-se, não poderia jamais deixar de escrever As mães de Chico Xavier.

No filme e no livro é a vida que pulsa. Há mortes, vícios, tentativa de aborto, tragédias que nossas famílias ou amigos podem viver a qualquer momento. Mas optar pela vida, ter compaixão, acolher o outro com sua luz e sua sombra é a única saída que nos resta, quando, desprevenidos, somos assaltados pela dor extrema de ver um filho partir. Agora sei que Chico Xavier tinha toda razão.

Um comentário

  1. É isso, minha querida, descompassos! Mas falta pouco para retornar ao antigo compasso, à velha rima e bato aí outra vez… antes disso, mando o livro – assim que estiver menos pirada com a escrita final do próximo… bjoooo

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