Quem não está comigo está contra mim, ou tudo cessa quando um valor maior se levanta

por Sulamita Esteliam

Pretendia dar um tempo nessa história do livro-denúncia – aqui e aqui, neste blogue -, só para mudar mais um pouquinho de assunto. Até a próxima terça, 20, quando o deputado Protógenes Queiroz (PCdoB-SP) deve protocolar no pedido de instalação da CPI para investigar a lambança, com dinheiro público, de que trata A Privataria Tucana. Impossível!

Queria, por exemplo, falar da caminhada que fiz esta manhã pela Praia de Boa Viagem, até as imediações do Parque Dona Lindu. Fui pela areia, apesar da maré alta. Em determinado trecho, a faixa de praia se estreita, muito, e você segue junto às pedras de contenção, onde mar, cada vez mais, buscar recuperar o espaço que se lhe foi tomado, e as ondas explodem em contínuo orgasmo. E o prazer é dividido com quem se expõe. Hidromassagem indefinível.

Resisti, quanto pude. Ao retornar, meu propósito foi pro ralo, diante do que encontrei na rápida navegada pela blogosfera: o comentário da Ombudsman (ouvidora) – deveria ser Ombudswomen – da Folha de São Paulo, Suzana Singer; ela é a cara do pai, o economista-militante Paul Singer,  e mostra que, também, se lhe herdou a fibra.

Como diria Camões, em livre tradução do verso de Os Luzíadas* : tudo cessa quando um valor maior se levanta.

Está no Luiz Nassif On Line, mas foi revelado pelo Eduardo Guimarães, do Blog da Cidadania, aonde o vazamento foi parar. Lá, descubro que, agora, a crítica é restrita à sala e cozinha folhatinespas, pasmem! Coisas do Brasil, sem pejo ou complexo.

Provavelmente, como observa Guimarães, à essas horas tem mais um ou uma jornalista desempregado/a.

Transcrevo a crítica, mas, antes, registro comentário de Paulo Henrique Amorim, no seu Conversa Afiada, a propósito da CPI dos seis dias (tempo para se obter 172 assinaturas, uma a mais do que o exigido regimentalmente. Deputados de todos os partidos assinaram, até do PSDB): “Nunca se viu isso antes”.

* Obrigo-me à citação original de Luiz Vaz de Camões, poeta português: “Cesse tudo que a antiga musa canta/que outro valor mais alto se alevanta“.

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15 de dezembro de 2011

Crítica interna

ANTES TARDE DO QUE NUNCA

por Suzana Singer

Ainda bem que a Folha deu a notícia sobre o livro “A Privataria Tucana” (A11). A matéria está correta, com o destaque devido, mas o jornal deveria continuar no assunto, porque há mais pautas no livro.

Exemplo: por que Verônica Serra e o marido têm offshores? Não deveríamos investigar e questioná-los? É já publicamos que Alexandre Bourgeois, marido de Verônica, foi condenado por dever ao INSS? É verdade que as declarações que ela deu na época das eleições, sobre a sociedade com a irmã de Daniel Dantas, eram mentirosas? Fomos muito rigorosos com o caso Lulinha, por exemplo.

Outra frente é a o tal QG de dossiês anti-Serra na época da eleição presidencial, que a Folha deu com bastante destaque. O livro conta coisas de arrepiar a respeito de Rui Falcão. Ao mesmo tempo, sua versão de roubo dos seus arquivos parece inverossímel. Seria bom investigar, já que ele faz acusações graves contra a imprensa, especialmente “Veja” e “Folha”.

Teria sido bom editar um “acervo Folha conta a história da privatização” para lembrar ao leitor que o jornal foi muito duro com o governo FHC. É um erro subestimar a capacidade da internet – e da Record – de disseminar a tese do “PIG”. E também seria bom esclarecer, com mais detalhes, o que é novidade no livro sobre esse período.

O Painel do Leitor só deu hoje uma carta cobrando a cobertura do livro. Eu recebi 141 mensagens. Quem escreveu hoje criticou a matéria publicada por:

1) ter um viés de defesa dos tucanos;

2) não ter apresentado Amaury Ribeiro Jr. devidamente e não tê-lo ouvido;

3) exigir provas que são impossíveis (ligação das transações financeiras entre Dantas e Ricardo Sérgio e as privatizações);

4) não ter esse grau de exigência em outras denúncias, entre as mais recentes, as que derrubaram o ministro do Esporte (cadê o vídeo que mostra dinheiro sendo entregue na garagem?);

5) não ter citado que o livro está sendo bem vendido

—–

Mesmo que você seja um leitor de direita, adesista à mídia, reconheça que a ombudsman referendou, uma por uma, as teses da blogosfera progressista. Não só quanto ao viés tucano do jornal como, também, quanto ao poder de difusão da blogosfera.

Chega a ser ridículo a ombudsman ter que avisar ao jornal sobre esse poder. O fato, porém, é que veículos como Globo, Folha, Veja e Estadão, entre outros, parecem acreditar que o que não publicam, não aconteceu. Um dia pode ter sido assim, mas hoje em dia, com a internet, já era. A internet ajudou a derrubar ditaduras sangrentas no Oriente Médio. Não tem, portanto, qualquer dificuldade em fazer circular maracutaias de jornais.

Diante de crítica tão arrasadora de sua ombudsman, porém, o que é que fez a Folha? Aprofundou o partidarismo e a omissão e em sua edição desta sexta-feira só publicou uma coisa sobre a privataria tucana, a nota que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso divulgou ontem se queixando do livro que desnuda o saque que seu governo praticou.

Vale registrar que os tucanos e a mídia, de mãos dadas e em uníssono, desqualificam o livro de Amaury Ribeiro, autor de “Privataria”, porque ele foi indiciado pela Polícia Federal , apesar de ter sido um indiciamento político feito para atender aos interesses eleitorais do PSDB ano passado, pois está sendo investigado por tucanos e mídia terem dito que trechos de seu livro seriam um “dossiê” contra José Serra, o que a publicação do livro, quinta-feira passada, desmente.

Mas se o fato de Amaury estar indiciado o desqualifica como cidadão e jornalista, então os indiciamentos e condenações de familiares de Serra e os processos a que o tucano responde não o desqualificam, também? Ou essa lógica só funciona para os adversários do PSDB e das empresas de comunicação que a ombudsman chama de “PIG”?

4 comentários

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