Em Pinheirinho o que houve foi limpeza social

por Sulamita Esteliam

“Um indivíduo tem o direito de não cumprir as leis arbitrárias e recusar-se a obedecer a um regime cuja tirania se tornou insuportável. Ter razão é mais honroso do que respeitar leis.” (Henry Thoreau, sobre o dever da desobediência civil)

A foto fala por si - capturada no Facebook
Com a roupa do corpo - foto capturada em http://www.viomundo.com.br

Quero falar de direito à dignidade.  E ter um teto, ainda que não possa chamá-lo de seu, é o mínimo. Quero falar de humanidade. E jogar mil e seiscentas famílias ao relento – aqui, no blogue – sem dinheiro a água, comida e banheiro, sem opção para as necessidades mais elementares não seria permitido, se as pessoas viessem em primeiro lugar.

Escurraçados feito bichos. Amontoados, homens, mulheres, idosos e crianças. Feito prisioneiros em campos de concentração. Espancados porque ousaram o elementar direito de resistir. Pedras e paus contra balas de borracha? Escudos de plástico e madeira, contra coletes à prova de bala?

Resistiram a deixar o lugar que ocupavam há oito anos. Há oito anos! Não são mais invasores, são moradores. Gente que ali construiu suas vidas, pariu seus filhos, gerou seus amores e teceu suas amizades.

Isso. Estamos falando de gente como a gente. Não importa que tenha se tornado ponto de tráfico e esconderijo de traficantes, como escreveu uma bem-intencionada moça no Facebook. Tráfico existe, também, nas baladas frequentadas pelas classes favorecidas. E isso é outro papo.

Importa, sim, que ali moravam trabalhadores em sua maioria – e ainda que não fosse. Sem acesso a condições mínimas de vida decente. Lugares onde o filho chora e a mãe não escuta, e vice-versa.

Como, aliás, acontece em boa parte das comunidades de periferia, não precisa ser favela, Brasil afora. E aí vou concordar com a moça, que aquela, pelo que se sabe, permanece uma área esquecida, não por Deus, mas pelos homens que detêm o poder de mando e da caneta. E pela sociedade, que costuma preferir cães a uma criança pobre.

Não, jamais fui a Pinheirinho ou a São José dos Campos. Mas não preciso conhecer a Faixa de Gaza para me solidarizar com o povo palestino. Só para citar um dos incontáveis exemplos pungentes.

Ali, como acolá, o poder público, no geral – e a despeito dos avanços recentes – o Estado, quando aparece, é para mostrar a sua face truculenta, monstruosa, aberrante.

Por favor, não me venham com lero-lero legal ou sociologismo e outros ismos de gaveta, para justificar atrocidades. Muito menos com “síndrome de Regina Duarte”: medo de que “daqui a pouco tomem as nossas casas…”, como se manifestou outra. Francamente!

Se fosse para cumprir a lei, a barbárie de Pinheirinho, como tantas outras, não teria acontecido. O megaespeculador Naji Nahas estaria na cadeia, teria ressarcido aos cofres públicos e à gente que ele esfolou com suas fraudes.

Nem teria se tornado proprietário daquele terreno de mais de um milhão de metros quadrados, que na verdade pertencia ao Estado, como revela o deputado Protógenes Queiroz (PCdoB-SP), no Portal Luiz Nassif.

Se a Constituição fosse respeitada, aquele terreno já teria sido desapropriado, a bem público. As autoridades municipal e estadual já teriam desenvolvido e inscrito um projeto de moradia e urbanização nos programas sociais do governo federal para assegurar moradia digna para o povo que ali vivia – sim, porque as casas já começam a ser demolidas.

Não me venham com lero-lero de respeito à lei, à decisão judicial. Qual delas, a estadual ou a federal? A que mandou desocupar ou a que mandou suspender?

A questão é política, mais do que jurídica. Havia uma negociação em curso entre os governos estadual e federal para adiar por 15 dias o desenlace, enquanto se procurava solução – antes tarde do que nunca. Havia uma decisão da Justiça Federal determinando a suspensão da ordem de desocupação – aqui, na Rede Brasil Atual.

Um telefonema do governador para o prefeito e para a juíza teria suspendido a barbaridade. Questão de vontade, de humanidade, e de escolha, pura e simples. Escolheram massacrar, varrer “essa gentinha”, em nome da lei e da propriedade. Limpeza social, como na cracolândia.

A pergunta que não quer calar é: e vai ficar por isso mesmo!?

“Temos duas opções: seremos todos indignados ou resignados, e eu não vou me resignar nunca” (Darcy Ribeiro)

5 comentários

  1. Amiga Sulamita Esteliam,
    Vá desculpando o meu linguajá.
    O pior e mais atroz de tudo isto é encontrar indivíduos, ditos pessoas humanas, que ainda encontram justificativas para o extermínio de pobres, de indigentes, como essa moça do facebook que você citou e que defendeu a ação vergonhosa, imoral, como o combate ao tráfico.
    Essa moça deve se sentir superior à condição de gente dessa gente esmagada de Pinheiro.
    Coitada!
    A maior culpada pelo tráfico de drogas e crimes correlatos, no Brasil, é a nossa burguesia, a granfinagem endinheirada que sempre realizou seus bacanais, a princípio, com a romântica maconha e, depois, o cheiro do pó.
    Quantos políticos da fina-flor da nossa elite, intelecutais escovadinhos, artistas e novos ricos não foram atrás de uma droguinha para preencher os vazios de suas vidas?
    Aqui, na minha província, tenho inúmeros casos pra contar.
    Tinha um colega, numa das faculdades que cursei, que se vangloriava em assessorar, em Brasília, um poderoso e silencioso político pernambucano e de presenciar o time de assessores se divertirem na Capital, com muito uísque rótulo preto, uma fumacinha e, provavelmente, o famoso pó branco.
    Noutra ocasião, uma amiga minha chegou de uma festa no apartamentozão de um ex-político de família famosa, no Estado, contando que estava num dos andares da mansão e o anfitrião já chegou convidando-a para uma trepada.
    Ela perguntou pela companheira dele e foi informada de que a mesma já estava no andar de cima, nos braços de outro, tudo movido pelo cheiro de cocaína e pela maconha.
    Putaria é muito bom!
    E eu gosto!
    Mas não precisa de droga como combustível.
    Conto esses fatos para mostrar que não foi a pobreza, a miséria, que incrementou o tráfico de drogas no País.
    Muito pelo contrário, essas classes são as maiores vítimas, usadas pelos granfinos.
    Quem financia e sempre financiou o tráfico foi a burguesia brasileira, que tem o dinheiro para pagar as drogas mais refinadas, mais caras, e que, por consequência, as que geram maior violência, mais crimes.
    O caso de Pinheiro não passa de especulação imobiliária, de grilagem de terra – que é crime – e não é produzida por pobres, mas sim pelos mais ricos deste País que financiam políticos escrotos, assassinos, sejam pela ação, ou pela omissão.
    Esses grileiros produziram suas riquezas com o crime, com mortes, expulsando os verdadeiros donos da terra de seu chão, coisa ainda em vigor em quase todas as regiões do Brasil.
    E a maioria desses grileiros ainda é chamada de doutor, ou doutora.
    Minha solidariedade à toda essa gente simples de Pinheiro.
    Basta de violência. basta de humilhação!
    E que São Paulo, que o Brasil, tenham vergonha na cara para botar os grileiros de terra na cadeia, que é o lugar desses filhos-da-puta-sociais.

    Um abraço, a essa Gente de Pinheiro.
    Ruy Sarinho
    Olinda/PE

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