por Sulamita Esteliam

No rescaldo do absurdo referendado pelo STF -Supremo Tribunal Federal quando ao estupro de meninas – aqui e aqui, neste blogue -, muito pertinente o artigo da videomaker paulistana, Rita Moreira, publicado no Observatório da Mulher. Recomendo – clique para ler. Traz elementos importantes de reflexão, a partir da decupagem do programa Profissão Repórter, da TV Globo, conduzido por Caco Barcelos. Por exemplo: até que ponto a prática do abuso sexual infanto-juvenil é parte da nossa cultura?
Caco é profissional respeitado, exemplo raro de exercício do jornalismo na mídia nativa atual, em particular na plim-plim. Daí que as críticas, pertinentes, que faz a autora à condução da reportagem sobre As Rotas da prostituição (?) Infantil no Brasil, mostram que ninguém está imune ao erro. O problema é prevalecer…
Mostram mais: que telespectadores, ouvintes, internautas e leitores devem manter o olhar crítico sobre a mensagem que se lhe é transmitida por qualquer meio.
O que nos leva a outras perguntas: 1) qual o papel da mídia na formação da consciência nacional? 2) quais os limites da autonomia de repórteres e editores ao tratarem de assunto tão sensível?
Não obstante, há, na opinião pública, a ilusão de que o jornalismo deve se pautar pela isenção, pela imparcialidade. Ora, ora, isto não existe. É historia da carochinha que nos contam, a nós, profissionais de imprensa, nos bancos da escola, e que é reforçada pela mídia sempre que quer mascarar o viés no enfoque deste ou aquele assunto.
A parcialidade começa na escolha do tema a ser coberto, passa pelo detalhamento da pauta, prossegue na escolha das fontes – proposital ou ocasional ou por força das circunstâncias -, na redação do texto, e se consolida na edição; para o bem ou para o mal. Equilíbrio é tudo que se pode desejar ou alcançar.
Independentemente da mão de quem detém o poder, de fato: o dono do veículo; ou até mesmo da ideologia e dos princípios que cada um carrega consigo. Nas vezes que estive editora, dizia à equipe que a autocensura não estava no nosso contracheque, vale para os coleguinhas que chegam.
Aos veteranos, é recomendável não esquecer, um dito dos anos 70: “O pior da ditadura é o guarda da esquina”. Sempre lembrando que há um custo ao se escolher ser jornalista, um preço a se pagar por cumprir nosso papel.
Não quero dizer com isso que as interferências patronais não sejam frequentes, e muitas vezes estaparfúdias e imorais -ocasião em que o profissional pode escolher entre o emprego e a ética; a isso chamamos “pegar o boné”. Quero dizer que jornalismo, como qualquer outra profissão, é feita por gente, com toda a pequenez do gênero humano.
O diabo é que lidamos com bem tão precioso quanto a vida: a informação.