A crônica, o jornalismo e a literatura

por Sulamita Esteliam

Jornalista, costumam dizer os coleguinhas mais caústicos ou críticos, é um escritor frustrado. Talvez isso explique certa tendência da mídia, não só nativa, em inventar ou travestir histórias, quando os fatos não condizem com seu desejo, opinião ou interesse -quase sempre plugados à química patronal, mais afeita à casa-grande do que à senzala.

Esse pensamento me atravessa a mente, na contramão do texto que transcrevo mais abaixo, da lavra da amiga-irmã cearense, jornalista e escritora, Ana Karla Dubiela. É parte da história do jornalismo de outrora, que tingia com cores de humanidade, e portanto da emoção, retratos da realidade, não raro cruel.

Reportagem. Jornalismo Literário? Às vezes, também. Quem tem 50 anos  ou mais, certamente, já teve no colo um exemplar da revista Realidade, por exemplo. Editada de 1966 a 1976 pela mesma Abril que hoje avilta nossa inteligência com a semanal que já foi Veja – a mais lida do país – e, desde há muito, não passa de Oia!

Mas, queira ou não, é a crônica o objeto de desejo de todo jornalista que se preza – pelo menos da minha geração. Construir um texto a partir do tudo-nada da vida cotidiana, que dê prazer de lamber a cria (ego é o que não falta à categoria) e imaginar o leitor degustar, e nossas almas se tocarem, e se confraternizarem, em ideias e palavras.

Como nós – eu pelo menos – o fazíamos ao ler as crônicas de Drummond de Andrade, ou de Affonso Romano de Sant’Anna, no antigo JB, ou ainda de Roberto Drummond no Estado de Minas. Isso para ficar nos mineiros.

Ana Karla Dubiela estuda o capixaba Rubem Braga, cronista dos cronistas, sobre o qual caminha para o terceiro livro publicado. Tem por seus escritos uma paixão que passei a exercer e a compartilhar.

Fomos colegas de redação em Fortaleza – primeiro na TV Ceará, onde ela foi minha chefe de Reportagem; depois em minha breve e acidentada passagem pelo jornal O Povo, onde estive editora de Economia em 1996, e Karlinha integrava a equipe. Artimanhas da profissão que nos tornou amigas-irmãs, para sempre.

O texto abaixo é parte de um caderno inteiro publicado pelo O Povo, no domingo, 23. Homenagem ao cronista cearense, Airton Monte – escritor, poeta e psiquiatra. Monte é estrela desde o último 10 de setembro, vitimado por um câncer, aos 63 anos – aqui, no sítio O Nordeste.

GÊNERO LITERÁRIO 23/09/2012

O gol de placa consagrado pelos leitores

Híbrida, sim, mas hoje cada vez mais livre e mutante, a crônica, conforme pontua a seguir a jornalista e pesquisadora Ana Karla Dubiela, tem sua força na capacidade profunda de encontro com os leitores

“Fortaleza. Flórida Bar. Sábado. Uma em ponto da tarde. Estou a postos, na trincheira da minha mesa habitual, vigiando a chegada dos ilustres confrades para mais um etílico conclave do nosso Clube do Bode”.

A crônica da crônica, Airton Monte, 8/3/2005

Fortaleza. Todo sábado, a crônica vestia-se de flor, toda perfumada, para beber a manhã com os amigos, criando e recriando a si mesma, infinitamente, no histórico Clube do Bode. Rio, bar Antônio’s, Ipanema. Entre um drinque e o dedilhar de uma nova canção de Vinícius, um poema de Neruda ou resenha do novo livro de Sartre, a crônica vai cantando o que tem para cantar: a vida. Aqui e lá, a crônica suga a alma encantadora das ruas de João do Rio, manda seu recado de primavera pelo gorjeio incomparável de Rubem Braga, considerado por Clarice Lispector (e críticos nacionais) como o pai da crônica moderna. Gaiatamente, como todo bom cearense, Airton Monte afirma que “foi o escritor brasileiro que inventou o gênero, pra poder sobreviver e garantir o aluguel e a cervejinha das crianças”.

Desavisada e despretensiosa, rindo gostosamente de inúteis conceitos, enquadramentos neste ou naquele gênero, a crônica brasileira afasta-se do historicismo que a originou, dá adeus à rigidez da pauta jornalística da semana, dos tempos de José de Alencar e Machado de Assis. Assume-se, simplesmente, como um texto consagrado pelos leitores contemporâneos, como afirmou Airton Monte em entrevista (A traição das elegantes pelos pobres homens ricos – uma leitura da crítica social em Rubem Braga). Híbrida, sim, mas hoje cada vez mais livre e mutante. Agrega gêneros, é adepta do “e” (literatura e jornalismo, e ficção, e história, e poesia, e conto, e…), ao invés do “ou”. Até da flânerie francesa, que tão bem incorporamos, até certo ponto ela se libertou. Em pleno século XXI, não dá para imaginar um homem na multidão, de Edgar Alan Poe, ou o boêmio Baudelaire a catar miudezas no dia a dia nas metrópoles de armas nas mãos.

No século XX, principalmente, quando vive sua idade do ouro, o gênero encontra seus maiores expoentes, a maioria deles fincados em solo carioca. Nelson Rodrigues com seus canalhas e cabras vadias, também batia um bolão na crônica esportiva; João do Rio, dupla face, entre a favela e a coluna social, revolucionou o jornalismo; Braga, Drummond, Sabino e Mendes Campos, provaram que a crônica é feita “Para gostar de ler” – coletâneas que encantaram milhares de alunos no país. E ainda havia Carmem Dolores, Rachel de Queiroz, Otto Lara Resende, Carlinhos Oliveira, Stanislaw ponte Preta Eram tempos nos quais a política, religião, o lúdico cotidiano, a violência e a cultura, tudo virava tema de crônica, muitas vezes em um só texto, como era o costume do “velho Braga” no seu encantador puxa-puxa de ideias (quando ele não tem nada pra falar, então, é ótimo!, dizia Manuel Bandeira).

Hoje, em cada recanto do Brasil, dos maiores aos menores jornais, TVs e blogues de todos os matizes, a crônica está presente. A supremacia da crônica carioca se dilui e surgem novos nichos, como o Rio Grande do Sul de Moacyr Scliar, Verísssimo, Fabrício Carpinejar, Martha Medeiros. No Ceará, Airton Monte bebeu da fonte de cada mestre do século XX, foi citado por Afrânio Coutinho, em seu Dicionário da Literatura Brasileira, 1ª edição e (quem, diria!) teve uma de suas coletâneas (Moça com flor na boca) indicada para a seleção de vestibular da UFC. Ele nem imaginava isso quando declarou: “A crônica é um terreno muito virgem para teses e dissertações, para estudos de especialização, mestrado e doutorado. E não sei como o Ceará ou um país como o Brasil que, pode-se dizer, inventou a crônica ainda não estudou o gênero como deveria”.

Tem razão. Até hoje, a crônica é considerada uma espécie de primo pobre dos gêneros literários, aquele que nunca chegará a clássico. Para Airton Monte, “é inexplicável que apesar dessa receptividade popular, a crônica continue enjeitada pelos acadêmicos da Universidade, que escrevem teses sobre a aliteração em Camões ou a função do ‘quê’ em Guimarães Rosa, gastando montanhas de papel em vão”. O que na verdade importa, para os poucos remanescentes da prosa poética do século XX, como Airton Monte, é a receptividade do texto: “Como diria Affonso Romano de Sant’Anna, o que mantém a crônica viva, desde que foi criada, é o público, para quem ler crônica de jornal virou um saudável hábito. O leitor, quando é tocado por uma crônica, recorta-a, cola num caderno e a revisita quando quer”. Orgulhoso, arremata no peito e chuta a bola: “A crônica é admirada como um gol de placa, o que, como cronista, já me basta”.

Às vésperas do centenário de nascimento de Rubem Braga (2013), talvez caiba relembrar a paixão do cronista cearense pela prosa braguiana: “Eu li tudo que o Rubem Braga escreveu, desde quando eu era pequeno. (…). A coisa maravilhosa do Rubem Braga que eu me lembro é um cartão postal que o Braga mandou da guerra na Itália (para Vinícius de Moraes). O cartão tinha apenas uma frase escrita, que é um verso perfeito: ‘Ao Vinícius, os doces montes cônicos de feno. Rubem Braga’. Pra que mais do que isso? Rubem Braga é comovente… não dá jeito de eu não ficar meio choroso quando leio Rubem Braga. Ele pega você. É o grande poeta lírico da prosa”.

Um ateu confesso que conversava com Deus, assim como o Braga (em Eu e Bebu na hora neutra da madrugada), Airton faz ainda uma súplica de boêmio prosador: ‘‘E se não for pedir muito, Senhor, livrai-me jamais dessa capacidade infinita de sonhar e que me faz sublimemente humano, à Vossa imagem e semelhança”.

Doces Montes.

 
ANA KARLA DUBIELA é jornalista e escritora, doutora em Literatura Comparada (Universidade Federal Fluminense/RJ). Autora dos livros A traição das elegantes pelos pobres homens ricos – uma leitura da crítica social em Rubem Braga, Um coração postiço – a formação da crônica de Rubem, Rubem Braga, o poeta da crônica (co-autora) e As cidades de Rubem Braga e W. Benjamin – flanando entre Rio, Cachoeiro e Paris, a ser lançado em 2013 (centenário de nascimento de Rubem Braga).

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Revista e atualizada às 19:24.


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