Feliz Natal! Alegria, harmonia, abundância solidária…

por Sulamita Esteliam

Antes de mergulhar na cozinha, o que faço com o maior prazer, deixo aqui uma leitura do Natal da pena do meu poeta e cronista favorito, o conterrâneo Carlos Drummond de Andrade. Com meus votos de uma Natal feliz, repleto de alegria, solidariedade, harmonia, generosidade, esperança, abundância e todas as boas energias para vocês, suas família, seus amigos e toda a humanidade que comunga a celebração desse dia – e também para aqueles que não…

A ilustração da postagem é a árvore do ano daqui de casa. Comprei-a no Mercado de Boa Viagem: é feita com cipó da caatinga pernambucana. A criatividade do povo supera as agruras e traduz em beleza o que tem a seu dispor, indiferente aos efeitos do  ciclo da seca, que parece eterno. Só fiz dourar um pouco a pílula.

O presépio, reciclado ao longo dos anos, tem poucas peças daquele que herdei da família do meu pai, aos 7 anos. Foi-me repassado pela tia mais velha, da família regular de meu avô, mas pertenceu à segunda tia, que foi levada pela tuberculose quando eu tinha apenas três meses. Consta que tudo que ela queria era uma sobrinha, mas foi-se sem poder segurar-me ao colo.

Os personagens do presépio original eram pequenos, todos de argila pintada, e foram se perdendo com o tempo. O São José quebrou o pescoço, o Menino Jesus e Maria doei-os à minha filha mais velha, o galo está meio esfalfado pelo tempo, o boi quebrou-se e foi substituído por artesanato do Vale do Jequitinhonha, que adquiri em viagem de trabalho em 1985.

Restaram apenas dois dos três Reis Magos, então completo o trio com um caboclo de lança esculpido em folha de jornal e pintado por artesãos do Recife. O pastor ainda é o original, mas a ovelha adquiri no bazar que foi foi primeiro local de trabalho, e com meu primeiro “salário” aos 11 anos de idade. Maria, José e o Menino Jesus comprei-os tão logo aportei ao Recife; são de gesso pintado.

Armo o presépio todos os anos, desde que me entendo por gente. Ainda que tenha deixado de professar qualquer religião há décadas.

Árvore e presépio cumprem a tradição da casa, que curte o Natal, independentemente de religião - Foto: SE
Árvore e presépio cumprem a tradição da casa, que curte o Natal, independentemente de religião – Foto: SE

Organiza o Natal

Carlos Drummond de Andrade*

Alguém observou que cada vez mais o ano se compõe de 10 meses; imperfeitamente embora, o resto é Natal. É possível que, com o tempo, essa divisão se inverta: 10 meses de Natal e 2 meses de ano vulgarmente dito. E não parece absurdo imaginar que, pelo desenvolvimento da linha, e pela melhoria do homem, o ano inteiro se converta em Natal, abolindo-se a era civil, com suas obrigações enfadonhas ou malignas. Será bom.

Então nos amaremos e nos desejaremos felicidades ininterruptamente, de manhã à noite, de uma rua a outra, de continente a continente, de cortina de ferro à cortina de nylon — sem cortinas. Governo e oposição, neutros, super e subdesenvolvidos, marcianos, bichos, plantas entrarão em regime de fraternidade. Os objetos se impregnarão de espírito natalino, e veremos o desenho animado, reino da crueldade, transposto para o reino do amor: a máquina de lavar roupa abraçada ao flamboyant, núpcias da flauta e do ovo, a betoneira com o sagüi ou com o vestido de baile. E o supra-realismo, justificado espiritualmente, será uma chave para o mundo.

Completado o ciclo histórico, os bens serão repartidos por si mesmos entre nossos irmãos, isto é, com todos os viventes e elementos da terra, água, ar e alma. Não haverá mais cartas de cobrança, de descompostura nem de suicídio. O correio só transportará correspondência gentil, de preferência postais de Chagall, em que noivos e burrinhos circulam na atmosfera, pastando flores; toda pintura, inclusive o borrão, estará a serviço do entendimento afetuoso. A crítica de arte se dissolverá jovialmente, a menos que prefira tomar a forma de um sininho cristalino, a badalar sem erudição nem pretensão, celebrando o Advento.

A poesia escrita se identificará com o perfume das moitas antes do amanhecer, despojando-se do uso do som. Para que livros? perguntará um anjo e, sorrindo, mostrará a terra impressa com as tintas do sol e das galáxias, aberta à maneira de um livro.

A música permanecerá a mesma, tal qual Palestrina e Mozart a deixaram; equívocos e divertimentos musicais serão arquivados, sem humilhação para ninguém.

Com economia para os povos desaparecerão suavemente classes armadas e semi-armadas, repartições arrecadadoras, polícia e fiscais de toda espécie. Uma palavra será descoberta no dicionário: paz.

O trabalho deixará de ser imposição para constituir o sentido natural da vida, sob a jurisdição desses incansáveis trabalhadores, que são os lírios do campo. Salário de cada um: a alegria que tiver merecido. Nem juntas de conciliação nem tribunais de justiça, pois tudo estará conciliado na ordem do amor.

Todo mundo se rirá do dinheiro e das arcas que o guardavam, e que passarão a depósito de doces, para visitas. Haverá dois jardins para cada habitante, um exterior, outro interior, comunicando-se por um atalho invisível.

A morte não será procurada nem esquivada, e o homem compreenderá a existência da noite, como já compreendera a da manhã.

O mundo será administrado exclusivamente pelas crianças, e elas farão o que bem entenderem das restantes instituições caducas, a Universidade inclusive.

E será Natal para sempre

*Carlos Drummond de Andrade/Cadeira de Balanço, pg. 52 – José Olympio, 1972

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