A dor e a cura nossa de cada dia

por Sulamita Esteliam

Ainda estou engasgada com a tragédia que aconteceu em Santa Maria, RS. Quem não está!?  Todavia, é próprio do meu jeito de ser e viver, continuo focada em emanar bons fluidos para os sobreviventes: os 118 que ainda se encontram internados, 75 dos quais estado crítico – mas que aguentaram até aqui – e mais de 54 horas se passaram; para os pais e mães, familiares e amigos dos 234 jovens* que tiveram suas vidas e sonhos abortados por uma sucessão de erros, negligência e despreparo que redundaram na catástrofe; pela a iluminação das autoridades na investigação e punição dos culpados; mas também pela consciência da responsabilidade de governantes, empresários, artistas e que tais em evitar que novas chacinas motivadas pela incúria voltem a acontecer.

A presidenta Dilma Roussef fez um alerta aos prefeitos reunidos em encontro em Brasília, na segunda-feira: “Eles eram jovens, tinham sonhos, poderiam ser nossos futuros prefeitos, prefeitas, presidentes ou presidentas, futuros cientistas, agrônomos, juízes, filhos, filhas, netos, netas de cada um de nós. A dor que presenciei é indescritível. Falo dessa dor para falar da responsabilidade que todos nós, do Executivo, temos com a população. Temos o dever de assegurar que ela jamais se repetirá.  O nosso trabalho é cuidar da nossa gente, garantido a eles e a elas oportunidades de melhorar de vida.”

Deu-se em Santa Maria, no Sul do País, mas poderia ser em qualquer outra cidade deste nosso Brasil. Aconteceu com jovens que a maioria de nós desconhecíamos, mas poderia ser com nossos filhos, netos, sobrinhos, amigos destes e de cada um de nós.

Há outros pais e mães, e avós, tios e tias, e amigos sofrendo a perda de alguém querido, neste exato momento em que tento escrever algo que faça sentido e não soe piegas. Acontece todos os dias, por motivos diversos. Esta noite, mesmo, antes de dormir, recebi notícia de que uma garota, das relações de uma das minhas filhas, decidiu parar o mundo para ela descer. Tinha menos de 30 anos.

Como entender o que leva uma pessoa, de qualquer idade e mais ainda jovem, a gesto tão definitivo!? Há consolo possível para pai e mãe em situações como essa? Só mesmo pela fé de que tudo está escrito e nada acaba aqui.

A noite foi complicada, aqui em casa. Em nosso lar habitam antenas de alta sensibilidade. Até o gato esteve indócil, reclamando ausências – ou presenças…

Precisei de um banho de mar, logo cedo. Antes da minha minha caminhada matinal. Entrei na água e, com licença de Iemanjá, pedi a Damabiah -o Anjo que tem a difícil tarefa de me proteger – e Gabriel, a cuja falange se filia, que cuidem de curar as feridas da alma de cada um dos que se foram e daqueles que ficam; que guiem a recuperação daqueles que ainda inspirem cuidados. E que a justiça se faça, em todos os planos.  Eles podem, são Anjos.

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* O número de vítimas foi corrigido pelo IGP – Instituto Geral de Perícia do Rio Grande do Sul, nesta terça – aqui.

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Abaixo, linko acessos às últimas informações e algumas reflexões que pude colher na rede sobre Santa Maria:

Latuff Cartoons: #Charge – A Tragédia de Santa Maria: isso é jornalismo?

Carta Capital:

Após incêndio em boate 118 pacientes seguem internados

Ministério Público suspeita que presos tentaram forjar provas

Carta Maior/Saul Leblon: Contra a fatalidade: tomar a cidade nas mãos

Vi o Mundo: Sul 21: Boate Universitária foi fechada, mas a Kiss continuou funcionando

Blog do Rovai:

Jornalismo urubu: Chico Caruso, Noblat e a canalhice de fazer humor com Santa Maria

Balaio do Kotscho: Tristeza, revolta e dor: a tragédia de cada um

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Atualizado às 19:30, hora do Recife.


2 comentários sobre “A dor e a cura nossa de cada dia

  1. Dizer que estamos passados e solidários é tão pouco, né? Mas é mais digno que enfiar o microfone para arrancar dores viscerais dos parentes das vítimas… uma amiga gaúcha, que tem família em Santa Maria, ligou para a irmã e descobriu que, a sobrinha, excepcionalmente, não havia ido à tal casa de shows naquela noite porque a mãe tinha viajado e ela teve que cuidar do irmão menor… mas acabou indo lá e descobrindo que 20 de seus amigos estavam mortos! Que isso sirva pra mexer nas leis tão omissas sobre o assunto e nas nossas consciências – inclusive na hora de frequentar locais inseguros e/ou deixar que nossos filhos os frequentem. Muito bom seu artigo, Sula mia. Bjos!

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