O menino e os olhos para a vida

por Sulamita Esteliam
Foto: Hugo Batista,/Flickr
Foto: Hugo Batista,/Flickr

A caminho do trabalho, na tarde da segunda-feira, vi uma cena que não  me sai da cabeça: os olhos de uma criança, um menino de seus 10 anos – a idade do meu terceiro neto -fixados num ponto qualquer do nada… O que se passaria por sua tenra cabeça? O que lhe ia pelo coração valente? Pus-me a imaginar. Estava o menino ao lado de um homem, que acabara de empurrá-lo, até com algum cuidado, para o centro do veículo. Esgueiraram-se pelo corredor apinhado, e no sentido contrário da porta de saída.

Então, ouvi uma voz forte. Colocava-se acima do barulho do trânsito, das pessoas que falavam ao celular, como se em casa ou no deserto estivessem, das histórias contadas em voz alta para a colega de cadeira -conhecida ou não. As pessoas exalam carências, nem sempre acompanhadas de pudor. Mas, não me arvoro em palmatória do mundo.

A voz do homem, que poderia ter 30 anos, se tanto, calou todas as matracas. Troava sobre a mescla dos sons: todas as vozes, a balbúrdia externa, o ronco do motor do ônibus, o chacoalhar da carroceria montada em amortecedor de quinta – como é próprio de nossos transportes coletivos que rodam nas avenidas, quase nunca bem-cuidadas de nossos centros urbanos.

– Amados, bom-dia! Desculpe perturbar o sossego da sua viagem…

É a senha de todo vendedor ou pedinte nos coletivos do Recife. Aí entendi o trajeto que fizeram até o meio do veículo: entraram pela porta traseira. As concessionárias proíbem a presença  “dessa gente”, mas os motoristas fazem ouvidos moucos. Talvez por solidariedade de classe. É comum, e é bom que seja assim.

E o rapaz desfiou sua história, que também não é rara – a despeito das estatísticas governamentais de geração de emprego, crescimento da renda e inclusão social. O fosso é um buraco sem tamanho, cavado há quinhentos anos.

Estava desempregado há algum tempo. Vivia do que amealhava da venda de pipoca e água mineral na Av. Dantas Barreto, “na cidade”- bairros de Santo Antônio/São José, no Centro, que no Recife são vários.

– Tenho um filho de 10 anos, este aqui ao meu lado… e mais uma filhinha de 3 anos. Minha família está passando necessidade, preciso da ajuda de vocês… Sei que é humilhante para um homem trabalhador, mas não tenho outra saída…

Olhei para a o menino, que olhava para o nada, e baixei minha cabeça.

A criança destoava da cena, que nossos olhos e ouvidos, de certa forma, já se acostumaram a ver e a escutar. Procurei entender as razões do pai. Bem-falante, jovem, tinha boa aparência, assim como o filho. Eram fortes, aparentemente bem-nutridos. Precisava da presença do menino para despertar a compaixão das pessoas. Nós e nossos estereótipos.

Mantive os olhos nos pés. Mas o olhar do menino não me saía da cabeça.

Contou o rapaz, pai do menino: a filhinha de 3 anos adoecera, e ele teve que acompanhá-la ao Hospital do Imip. Perdeu o dia de trabalho. Não encontrou nos postos públicos os medicamentos receitados pelo médico. Teve que usar o pouco que restava para comprar parte dos remédios. Não tinha dinheiro para adquirir a mercadoria para ganhar algum, e ainda faltava uma pomada para passar na pele da menina. Pedira emprestado aos “amigos” da faina ambulante dinheiro para comprar um saco de pipocas, mas sabe como é, nessas horas …

Era o segundo ônibus que ele tomava. No primeiro, conseguiu R$15. O sacão de pipoca, industrializada, e um fardo de água custavam R$ 35. Aquele ônibus passava pelo Cais de Santa Rita. Se conseguisse completar a colheita, poderia descer e comprar sua mercadoria. Eram cerca de duas da tarde. Até o início da noite venderia tudinho, e poderia obter os recursos os quais necessitava.

Antes que terminasse o discurso, as pessoas mexeram nos bolsos. Ergui a cabeça para ver o menino, quando o pai estendeu a mão para pegar os trocados de que eu dispunha. O olhar do menino me encarou por um instante, me atravessou e à minha vizinha, que não se mexeu, e foi estacionar num ponto qualquer do infinito.

O pai agradeceu, a todos os amados e amadas, em nome de Deus. Tomara tenha conseguido arrecadar o suficiente. Apearam no Marco Zero.

Pensei: é uma boa caminhada até o Cais de Santa Rita. Nada que as pernas de um menino de 10 anos não possam aguentar. E os olhos do menino poderiam, finalmente, apreciar a paisagem.

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