Entrevista com Naná Vasconcelos, o resgate

por Sulamita Esteliam

Sei que pode parecer extemporâneo, mas fevereiro se foi ainda há pouco e o sábado de aleluia ainda está distante. Então, aproveito para cumprir a promessa feita aqui no blogue, e posto a entrevista que fiz com o mundialmente reconhecido percussionista, Naná Vasconcelos, para a Revista dos Bancários, onde também batuco minhas teclinhas, ultimamente.

Naná Vasconcelo, majestoso: talento e simplicidade - Itamar Crispim/Prefeitura do Recife
Naná Vasconcelo, majestoso: talento e simplicidade – Itamar Crispim/Prefeitura do Recife

Aí vai a íntegra – e aqui o acesso à publicação:

ENTREVISTA/Naná Vasconcelos

Santo de casa faz milagre, sim. Melhor quando está vivo

Quebrar paradigmas é uma constante na vida deste recifense, de Sítio Novo. Desde menino, quando iniciou-se na música, aos 12 anos, no lendário Batutas de São José. Precisou de autorização especial do Juizado de Menores, numa época em que “criança era criança”. Não pediu permissão para reinventar o berimbau. Levou o instrumento basilar da capoeira para os palcos do mundo, mesclando o som ancestral com violinos, pianos e violoncelos eruditos, com guitarras, baixos e sopros falantes, vozes e ecos – materiais e orgânicos. De Villa-Lobos a Hendrix, seus caminhos são uma mistura de sons. Os instrumentos, os mais inusitados. O ritmo é o coração.

Naná Vasconcelos tocou com os grandes, daqui e de lá: Milton Nascimento, Caetano Veloso, Marisa Monte, Edilza; Pat Matheney, B.B.King, Don Cherry, Colin Walcott, Jean-Luc Ponty e Talking Heads, dentre outros. Trouxe glórias e loas na bagagem de retorno ao torrão natal: oito Grammys – o último em 2011, Melhor Álbum de Raízes Brasileiras-Regional Nativa, com Sinfonia e Batuques, pela Azul Music, 2010; sete vezes eleito Melhor Instrumentista do Mundo pela revista Dowbeat.

Nada se compara, entretanto, com o reconhecimento na própria terra, e em vida. Ainda que seja mais do que justa e natural a homenagem para quem, há 12 anos, encara o desafio de harmonizar 500 batuqueiros de 10 nações diferentes de maracatus no Carnaval do Recife. Juvenal de Holanda Vasconcelos, não esconde a felicidade em dividir a honraria com o fotógrafo pernambucano, Alcir Lacerda, que já não está entre nós. Jamelão, inesquecível puxador de samba da Mangueira, diria “feito pinto no lixo”. Naná diz: “É diferente… estou vivo, né?”, e deixa o riso correr solto.

E foi com este espírito de alegria e solicitude, em meio à sua atribulada agenda, que Naná Vasconcelos aceitou conversar, por telefone, com a REVISTA DOS BANCÁRIOS. A entrevista se deu no Recife, às vésperas do início dos ensaios locais com os maracatus para a abertura da Folia 2013, iniciada no Ibura, dia 15 de fevereiro, com a nação Leão de Carpina. Esbanjou simpatia, outra marca indelével.

REVISTA DOS BANCÁRIOS – Como se sente o homenageado do Carnaval do Recife?
NANÁ VASCONCELOS – É diferente de todas as homenagens e prêmios que já recebi, tanto no exterior, como o Grammy, como em outros estados. Essa história de que santo de casa não faz milagre… faz sim. E estou vivo, né? Isso é o melhor de tudo (rs). É diferente… Ser homenageado em casa é maravilhoso, e estou muito emocionado e grato.

REVISTA DOS BANCÁRIOS – É interessante que um artista com agenda intensa, tanto no exterior como país afora, consegue conciliar para ficar disponível todo Carnaval, e já se vão 12 anos… Como é que isso se dá?
NANÁ VASCONCELOS – É um desafio ao qual me dispus desde o início. Você sabe que é impossível botar a Portela para tocar junto com a Mangueira, a rivalidade costuma falar mais alto. Com os maracatus era a mesma coisa. Na verdade, a história começou em Salvador, quando fazia a direção musical do festival PercPan. Aí, começou a choradeira por aqui: “Um pernambucano tocando na Bahia e não toca aqui em Pernambuco, essas coisas de bairrismo…” (rs) Então, lá pelo ano 2000, me convidaram. Mas foi assim: “Tu topas?” E eu disse: reúnam os mestres do Maracatu, se eles toparem, eu topo”. E eles toparam.

REVISTA DOS BANCÁRIOS – E aí virou compromisso …?
NANÁ VASCONCELOS – Então. Acontece que o maracatu estava desaparecendo, fechado em si mesmo, em grupos locais. E as nações têm um trabalho social importante. Aí eu subi o morro, e comigo foi a imprensa e as pessoas daqui, os turistas… Hoje as sedes dos maracatus são pontos de cultura, criança toca, mulheres – que antes não entravam – tocam. Tem mulher até maestrina de maracatu. As nações têm grupos para se apresentar em teatro. Grupos de estrangeiros vêm tocar maracatu. Há um grupo da Holanda que vem, todos os anos, tocar maracatu no Carnaval. Não estão na programação oficial, mas ajudam a fazer a festa. O mais importante é que o maracatu está vivo.

REVISTA DOS BANCÁRIOS – Seu propósito foi realizado, então?
NANÁ VASCONCELOS – A música resgata, educa, emancipa, traz cidadania. Botei eles para tocar com orquestra sinfônica. Grupos de maracatus já se apresentam no estrangeiro: mestre Afonso, do Leão Coroado, já tocou em Dubai; Chacon, do Porto Rico também tocou no exterior, dentre outros. Trouxe cantores de renome nacional – Marisa Monte, Caetano, Edilza, tantos outros. Tudo isso eleva a autoestima e traz respeito interno. Fizemos a junção com outros instrumentos, que não necessariamente é da tradição maracatu…

REVISTA DOS BANCÁRIOS – Não houve resistência à quebra de tradições?
NANÁ VASCONCELOS – Sempre há, e é claro que vem nas minhas costas… “E isso é maracatu, ééé…!?” (rs). No fim, acaba dando tudo certo. Eles se uniram para a festa, em nome da cultura, viram que eu posso e quero ajudar. Mas ainda existe rivalidade, em determinadas situações, o pau pode quebrar… (rs).

REVISTA DOS BANCÁRIOS – Você pretende continuar o trabalho, agora que mudou a gestão?
NANÁ VASCONCELOS – Enquanto for possível estarei presente. Eles é quem sabem, né? E há outros fatores, por exemplo: deixei de chamar cantores por dificuldades com a logística. Uma coisa é uma orquestra, uma voz e um palco; outra coisa é tudo isso, mais 400 batuqueiros lá embaixo e eu no meio… A céu aberto, a qualidade do som fica prejudicada.

REVISTA DOS BANCÁRIOS – Como é que vai ser este ano? Além da abertura da festa você vai circular mais?
NANÁ VASCONCELOS – Este ano vai dar para matar a saudade da folia. Nos anos anteriores, eu fazia a abertura e ia direto para a praia, e por lá ficava o restante do Carnaval. Agora, sou o homenageado, né? Vou ter que estar presente em diferentes lugares, participar de toda a festa. Vou visitar todos os polos. Criei um grupo de percussão, o Batucafro, com muitas mulheres; tem dois pares de gêmeas, que tocam e cantam; estou cercado de mulheres (rs). Vamos tocar nos polos. Não se fazem mais músicas de carnaval, então vamos resgatar algumas marchinhas, sucessos antigos, de Carmem Miranda, por exemplo, fazer uma mistura… Vai ser muito bom. Para a abertura, teremos convidados, também. Como é o Ano de Portugal no Brasil, a gente vai trazer alguns artistas portugueses e mais o Milton Nascimento para cantar com a gente…

REVISTA DOS BANCÁRIOS – Vem a Marisa? Ela é ótima. Até canta em português com sotaque brasileiro. Ela e o Bituca fizeram uma dupla divina no show de abertura do Ano de Portugal no Brasil, em Belo Horizonte, em setembro do ano passado… Foi lindo.
NANÁ VASCONCELOS – Estamos tentando, vendo se é possível conciliar agendas. Seria ótimo, porque ela já tem uma afinidade muito boa com a gente e com o Milton.

REVISTA DOS BANCÁRIOS – Para fechar, uma curiosidade, que cremos ser de muita gente, Naná: como a música entrou em sua vida, como foi o começo?
NANÁ VASCONCELOS – Foi nos Batutas de São José, na Concórdia. Eu tinha 12 anos e, naquele tempo, criança era criança. Tocava com autorização do Juizado de Menores. Quando terminava a apresentação, ia para a zona, no Recife Antigo, esperar a lotação para o Sítio Novo, onde morava. Ficava observando o movimento do Recife que não existe mais… O porto, os marinheiros, as mulheres e os cabarés. Na maioria das vezes me deixavam subir, e eu ficava por ali, ouvindo e vendo as orquestras tocarem. E assim foi. Depois continuei a tocar, nas orquestras dos bairros, até meu meu pai falecer – e ele se foi muito cedo. Então disse: não quero mais ficar neste lugar, e ganhei mundo… Na verdade, nunca sai daqui, só morei fora … (rs)

REVISTA DOS BANCÁRIOS – Você conquistou o mundo, ganhou prêmios e é referenciado internacionalmente. E no Brasil, alguma frustração – de, por exemplo, nunca ter feito uma apresentação aqui, com orquestra e o berimbau que você, digamos, reiventou e que o consagrou lá fora? Eu, pelo menos, nunca assisti…
NANÁ VASCONCELOS – O canal Brasil fez uma longa entrevista comigo, alternada com vários clips, e lá aparece… inclusive o DVD Língua Mãe. A gente reuniu 120 crianças, da Europa, África e Brasil; três povos de língua portuguesa num espetáculo comemorativo dos 50 anos de Brasília (abril/2010). Tem também o Calungá – O Mar que Une é o Mar que Separa, espetáculo que referencia nossos ancestrais africanos, trazidos como escravos, que fizemos com 38 crianças do Projeto Guri, em São Paulo. O programa (Segue o Som/TV Brasil-EBC) foi ao ar dia 13 e vão reprisar no sábado (19 de janeiro).

REVISTA DOS BANCÁRIOS – Sim, os projetos sociais, além da versatilidade e inventividade, também são uma marca sua…
NANÁ VASCONCELOS – Costumo dizer que eu sou um Brasil que o Brasil não conhece. Tirei o berimbau da capoeira e o coloquei no palco, junto com Villa-Lobos e Hendrix. Vamos do popular ao erudito. É muito mais gratificante trabalhar com crianças e jovens, me faz sentir útil. A música traz cidadania, disciplina, educação. É linguagem universal. É o bater do coração. O corpo como instrumento é uma fonte inesgotável de descobertas.

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Postagem revista e atualizada, dia 04.03.2012, às 21:16.


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