Naná é luz, foi encantar estrelas…

Naná durante ensaio na Rua da Moeda para o Carnaval 2016 - Foto: João Rogério Filho
Naná durante ensaio na Rua da Moeda para o Carnaval 2016 – Foto: João Rogério Filho
por Sulamita Esteliam

Naná se foi. Viva Naná Vasconcelos!

A melhor definição do estado de ânimo do artista, foi dada por ele mesmo, a pouco mais de uma semana de sua passagem. “Se eu tiver que ir eu vou. Se eu tiver que ficar, eu fico.” Está em matéria do JC Online, que postei logo cedo no Facebook, quando soube do encantamento do percussionista, o maior do mundo, de quem sou devota.

É herança dos ancestrais, da cultura e religiosidade, aprender a lidar com a finitude. Não é fatalismo, é certeza de que, neste plano, a gente não fica para semente – tem prazo de validade, como costuma dizer minha irmã, Lili. Tudo à nossa revelia. Assim, melhor cuidar de deixar sua marca para a enternidade. Naná era nagô, e também budista.

Não me esqueço a primeira vez que o vi. Deu-se há coisa de sete anos. Era fim da manhã, e eu aguardava o sinal fechar, para os carros, para atravessar a rua, na Domingos Ferreira com Padre Carapuceiro, em Boa Viagem. Do outro lado da avenida avistei um homem negro, baixinho e atarracado, que parecia procurar algum local determinado, ou quiçá apenas observasse o proliferar de arranha-céus.

Vestia bermuda branca, camisa esporte amarela, de botões e mangas curtas, e sandálias. Custei a crer, mas era ele. Gritei e acenei, feito tiete que se preze:  “Ei, Naná!” Ele olhou para a direção da voz, sorriu, acenou de volta e seguiu seu caminho. Pura simpatia, e simplicidade galopante. Pude confirmar tais qualidades quando, homenageado do Carnaval do Recife, o entrevistei para a Revista dos Bancários, há três anos.

“Essa história de que santo de casa não faz milagre… faz sim. E estou vivo, né? Isso é o melhor de tudo (rs). É diferente… “, comentou, então, feliz da vida com a homenagem.

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Hoje, ainda estava no desjejum, quando minha amiga-imã Eneida me ligou de Beagá. Ela me deu a notícia, que não surpreendeu. Quando fora dormir, já madrugada avante, sabia que o estado de Naná havia piorado bastante. Conversamos muito sobre ele durante a breve estada de Eneida do no Recife, dias antes do Carnaval, e ela se lembrou da história quando viu o noticiário na TV.

Estávamos no Antigo, segunda metade de janeiro, e na Rua da Moeda o ensaio de maracatus para a abertura da folia, normalmente comandados por Naná, toda sexta, já havia acabado. Contei do câncer de pulmão do instrumentista, descoberto em setembro passado, que o levara ao hospital para submeter-se a radioterapia e depois quimioterapia. São tratamentos debilitantes, embora possam salvar vidas.

Naná em casa, com Sara Tavares, convidada para o Carnaval 2016, batuqueiros e as meninas do Coral Nagô - Foto: Prefeitura do Recife
Naná em casa, com Sara Tavares, convidada para o Carnaval 2016, batuqueiros e as meninas do Coral Nagô – Foto: Prefeitura do Recife
Com Sara Tavares na abertura do Carnaval 2016 no palco do Marco Zero do Recife
Com Sara Tavares na abertura do Carnaval 2016 no palco do Marco Zero do Recife

Temia que Naná não conseguisse comandar a  festa este ano, como fazia há 15 fevereiros. Havia mesmo rumores de que talvez não fizesse parte da folia, que estaria magoado pelo não-convite. Diz-que-me-diz, a partir da ausência do músico na coletiva que divulga a programação oficial do Carnaval.

Naná comandou todos os ensaios e mais a solenidade de abertura, que este ano incluiu caboclinhos. Incomodava ao percussionista a tradição cultural, assim como os maracatus, há 15 anos, estar relegada ao esquecimento. Voltou ao palco entre os convidados do Maestro Forró, um dos homenageados do Carnaval, na mesma noite, e dois dias depois estaria no palco alternativo do Cais da Alfândega.

Energia e resistência impressionantes para alguém da sua idade, em particular em seu estado de saúde.

Mas Naná Vasconcelos era um trabalhador incansável. E foi no PercPan, festival de percussão em Salvador-BA,  do qual já foi diretor musical, o último espetáculo de que pode participar. Dois dias antes de precisar ser internado novamente. Tocou sentado.

Não foi esse, entretanto, o derradeiro trabalho. Mesmo no hospital, compôs para um último disco, inacabado, no mote do tratamento que lhe foi dado pela imprensa argentina no último show no exterior, em 2015. Obra do jornal La Nación, que cravou o título: El budista afro de la percunsión/O afrobudista da percussão.

Mantras e cantos budistas compõem o álbum, com participação de Egberto Gismonti e Gil Jardim, que foram até o hospital compor os arranjos e colher ideias, relata Patrícia à Agência Brasil:  “Em todos os momentos Naná suspirou vida. Estava dando um suplemento para ele. Ele usou o pote e a cama para batucar o jeito que queria o arranjo percussivo”, conta.

O premiado instrumentista rodava o mundo, mas ancorava-se no Recife: “Na verdade, nunca saí daqui, só morei fora… (rs)”, disse-me ele na entrevista em 2013, e repetia a cada oportunidade, como um mantra.

Autodidata, aprendeu música batucando em latas e penicos em casa, ainda criança. Toca desde os 12 anos. Começou na noite, nos cabarés do Recife e, para isso, precisou de autorização do Juizado de Menores. Uma época em que “criança era criança”. Ganhou oito Gramys. Sete vezes eleito Melhor Instrumentista do Mundo pela revista Dowbeat.

Encantou-se às 7:39 horas desta quarta-feira, 10, no hospital do seu convênio médico na Ilha do Leite. Tinha 71 anos. Deixa duas filhas: Jasmin Azul, 21 anos – que mora em Nova York e talvez não consiga chegar a tempo para o sepultamento – e Luz Morena, 16 anos.

Morreu cercado pela família, num quarto adaptado com recursos de terapia intensiva, conta sua mulher, Patrícia Vasconcelos -também sua produtora, e com quem teve a filha caçula.Viveram 17 anos juntos, completados em 05 de março, dia em que seu estado clínico piorou e foi para a UTI. Dia 08, pediu para voltar para o quarto, queria seguir entre os seus, em paz.

O corpo de Naná Vasconcelos está sendo velado na Assembleia Legislativa de Pernambuco, aberto à visitação pública. O funeral acontece às 10:00 horas desta quinta, 10, no Cemitério de Santo Amaro, também no Recife.

A energia boa de Naná paira sobre nós, e os tambores nunca se calaram, canta Milton Nascimento, parceiro de muitas magias, Brasil e mundo afora…

Vai o homem, fica a obra.

 

 

 “Costumo dizer que eu sou um Brasil que o Brasil não conhece. Tirei o berimbau da capoeira e o coloquei no palco, junto com Villa-Lobos e Hendrix. Vamos do popular ao erudito. É muito mais gratificante trabalhar com crianças e jovens, me faz sentir útil. A música traz cidadania, disciplina, educação. É linguagem universal. É o bater do coração. O corpo como instrumento é uma fonte inesgotável de descobertas.”

Naná Vasconcelos, que nasceu Juvenal de Holanda Vasconcelos

(Recife-PE 02.08.1944 – 09.03.2016 Recife-PE)

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Postagem revista e atualizada em 10.03.2016, às 18:17 horas: correção de erros de digitação, ortografia, gramática e outras impropriedades em diversos parágrafos; o conteúdo permanece inalterado, entretanto. Agradeço a compreensão.


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