Naná Vasconcelos e os maracatus de Oyá, pura energia

por Sulamita Esteliam
Naná Vasconcelos no primeiro ensaio na Rua da Moeda/Recife Antigo, em 18 de janeiro - Foto: Cláudio Tomaz/Divulgação PCR
Naná Vasconcelos no primeiro ensaio na Rua da Moeda/Recife Antigo, em 18 de janeiro – Fotos: Cláudio Tomaz/Divulgação PCR

Na sexta que passou, eu e meu companheiro fomos assistir a um ensaio de Naná Vasconcelos com três das 10 nações de maracatus que junto com ele, o Coral Nagô, Milton Nascimento e a cantora de fado portuguesa, Carminho, abrem o Carnaval do Recife, na sexta, 08. Vai ser de arrepiar. Oficialmente, já que as prévias sacodem os quatro cantos da cidade faz tempo e o mesmo se dá por todo Pernambuco. Em Olinda, claro, já nos primeiros dias de janeiro.

Foi o quarto e último ensaio pontual, na Rua da Moeda, no Recife Antigo. Quer dizer, antes dos dois ensaios-gerais que acontecem esta semana, na terça e na quarta (e não quinta, como na postagem original), no Marco Zero, com 500 batuqueiros que fazem a apoteótica abertura; e depois de 10 acertos de tambores, um em cada sede, nas comunidades – aqui, no blogue. Naná faz isso há 12 anos, a diferença é que em 2013 é o grande homenageado, vivo, do Carnaval Multicultural. O outro, in memorian, é o fotógrafo Alcir Lacerda.

Entrevistei Naná, no início do mês passado, para a Revista dos Bancários, de fevereiro, que está na forma. É a simplicidade e a simpatia em pessoa. Por razões óbvias, só posso reproduzir a entrevista no blogue quando a edição estiver na rua – melhor, nos bancos – e no sítio do Sindicato da categoria bancária; que voltou a pagar o meu salário, reintegrada que fui aos quadros, em fins do ano passado, por via judicial.

No palco, antes da função começar, o percursionista de renome internacional, dono de oito Grammys, é quase invisível. Nesta noite, veste camiseta azul escuro, calça caqui (devo as fotos, pois o celular descarregou). No primeiro (fotos capturadas), vestiu amarelo e grafite. Sem pompas, somente circunstâncias. Carrega a leveza da majestade. Paramentos só na festa oficial.

Observa a entrada do primeiro maracatu, do segundo e do terceiro, cada qual com sua batida, sua tradição ancestral:  Encanto da Alegria e Estrela Brilhante, do Alto José do Pinho, Zona Norte do Recife; um de cada lado do palco. Aurora Africana, da vizinha Jaboatão, fica no meio. Com as mãos, sinaliza para uma nação abrir espaço para a outra, espera e escuta o aquecimento de cada qual. Todos maracatus de Oyá/Iansã. Eparrê!

Crianças, muitas crianças, nas três nações: meninos e meninas. Adolescentes e jovens, adultos – homens e cada vez mais mulheres. Todos os tons de peles, cabelos multicores, todos afro que seja de coração e energia, juntos, nos três maracatus. Renovação e tradição. Carnaval é cultura, e também é cidadania. É de arrepiar.

Entra o Coral Nagô, só de vozes femininas, negras. Naná pega as baquetas, após anúncio entusiasmado do locutor – não é pra menos. Segura-as com a mão direita, dá dois passos à frente e comenta:

– Hoje, a chapa tá quente!

Todos riem e aplaudem. Alfaias e repiques saúdam o mestre. Ele ergue as baquetas e se dirige aos mestres e batuqueiros das três nações de maracatu, que ocupam a rua na extensão do palco: “Vamos tocar como se fosse a última vez.  Vamos tocar o melhor possível. Vamos prestar atenção”.

A conversa com as nações do primeiro ensaio pontual: Nação Porto Rico, Leão de Carpina e Estrela Dalva
A conversa com as nações do primeiro ensaio pontual: Nação Porto Rico, Leão de Carpina e Estrela Dalva

Seu tambor está no centro do palco. Naná toca o tambor, três vezes. Chama o Coral Nagô com a direita, e com a esquerda faz sinal para os repiques. Aponta as duas baquetas juntas para as alfaias entrarem em ação. A mão faz a marcação do ritmo da evolução:

Que barulho é esse, ioiô?

É batuque de preto nagô…

Com um sinal seco, Naná interrompe a batucada.

– Ensaio é bom pra isso. Quem faz as convenções são as alfaias. Os ritmos ficam na base. Isso aqui quase vira um frevo. Quando eu disse, vamos tocar como se fosse a última vez, eu quis dizer: vamos tocar como se fôssemos uma única nação.

(Aí, entendi porque ele diz, na entrevista, sobre o desafio de harmonizar batuqueiros de diferentes nações: “Às vezes o pau quebra…”).

E tudo recomeça, e segue, com direito a frevo-maracatuzado ou maracatu-frevado, em paródia de cantoria infantil em homenagem ao Patrimônio Imaterial da Humanidade:

Se essa rua, se essa rua fosse minha/eu mandava, eu mandava ladrilhar/com pedrinhas, com pedrinhas de brilhantes/para a Vassourinhas passar…

E assim foi, por mais uma hora. A mais curta hora dos meus dias intermináveis nos últimos tempos.

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Clique para ver a programação completa do Carnaval de Olinda e Recife, inclusive Galo da Madrugada e Polo RecBeat 2013. Aqui as prévias do Recife.

Postagem revista e atualizada dia 06.02.2013, às 13:18, hora do Recife.


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