A catarse do Carnaval dispensa a violência

por Sulamita Esteliam
Bonde da Cidadania em ação – Olinda 2012 – Foto:Adria de Flickr
Batuqueiras de maracatu na abertura do Carnaval do Recife 2012 , no Marco Zero - Foto: Recifeweb/Flçickr
Batuqueiras de maracatu na abertura do Carnaval do Recife 2012 , no Marco Zero – Foto: Recifeweb/Flçickr

Natálya, uma leitora que suponho adolescente, deixa um pedido de socorro nos comentários na postagem Sobre Carnaval, violência e morte de nossos jovens, artigo que escrevi há dois anos. “O que fazer para acabar com a violência no Carnaval?”, questiona e espera resposta que a ajude num trabalho para a escola.

Taí uma pergunta difícil de responder. Mas tentei, e disse que postaria algo aqui. Aliás, faz dias, dada a incidência do tema no motor de pesquisa no blogue, e acontecimentos paralelos, venho pensando a respeito – para poder escrever.

A propósito, ainda ontem à noite, passei horas revisitando o Mapa da Violência 2012, afim de produzir artigo sobre a violência contra nossos jovens. Mas são dados de pesada digestão, que recebem o sugestivo título A Cor dos Homicídios no Brasil. Faz o balanço de quase uma década – de 2002 a 2010 – e aponta para o crescimento assustador da violência homicida, exatamente, contra negros: matam-se 2,3 negros para cada branco no país. Tão ou mais grave: morrem, por homicídio, duas vezes e meia mais jovens negros do que brancos – particularmente na faixa entre 12 e 21 anos. Verdadeira pandemia.

Pior, a tendência seletiva é crescente e alarmante, e expõe o foco da política de segurança, o que coloca em cheque a mítica de igualdade racial no Brasil.  O estudo é parceria do Cebela – Centro Brasileiro de Estudos Latino-Americanos com a Flacso – Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais  e a Seppir – Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial da Presidência da República, divulgado em fins de  novembro do ano passado – aqui.

Não há, nas versões anuais do Mapa da Violência, o detalhamento sobre o Carnaval como possível indutor de violência; em quaisquer dos recortes que apresenta – criança e adolescente, jovens, mulher – nos 19 relatórios divulgados, desde 1998. Aqui, outro artigo que publiquei na Agência Carta Maior, em julho de 2010, quando este blogue ainda era intenção.

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Feito o parêntesis – assim que conseguir, voltarei ao assunto com mais propriedade – retomemos ao objeto desta postagem, Carnaval e violência.

Até pelo gosto amargo do aperitivo servido na entrada, primeiro, é imperioso perguntar se a violência durante a folia é maior do que em outros períodos do ano. Ou, no mínimo, do que em outras épocas de festas que resultam em grande aglomeração de pessoas, de diferentes índoles, lugares e culturas, e que podem induzir a excessos de toda natureza; a começar pelo consumo exagerado de álcool, por exemplo.

Além do que, não nos esqueçamos que sempre haverá gente disposta a aproveitar-se das circunstâncias. Afinal quem brinca carnaval é da raça humana, com todas nossas qualidades e nossos defeitos.

O descaso, sim, produz danos irreparáveis. Negligência, ganância, irresponsabilidade – privada e pública – levam a tragédias como a que vitimou centenas de jovens em Santa Maria, no Rio Grande do Sul, no último 27 de janeiro, um local fechado: 234 mortes em menos de uma hora e outras quatro por sequelas, ao longo da semana. Seguem internadas 81 vítimas, 23 respirando por aparelhos.  Todos jovens na faixa de 18 a 29 anos. A maioria estudante universitários.

Galo da Madrugada 2012 - Foto: Ivanildo Francisco/Recifeweb/Flickr
Galo da Madrugada 2012 – Foto: Ivanildo Francisco/Recifeweb/Flickr
Troça Carnavalesca Mista Ofídica Erótica Minha Cobra - Olinda 2012 - Foto: Luiz Fabiano/PrefOlinda/Fickr
Troça Carnavalesca Mista Ofídica Erótica Minha Cobra – Olinda 2012 – Foto: Luiz Fabiano/PrefOlinda/Fickr

Se você pesquisar na rede, vai verificar indicativos interessantes que corroboram o pensamento desta escriba sobre a não-vilania, específica, do Carnaval em matéria de violência. Em Pernambuco, por exemplo, a folia tem características bem próprias, de povo na rua, no estado inteiro – só o Galo da Madrugada arrasta dois milhões de pessoas pelas ruas do Recife, no sábado de Zé Pereira; em Olinda, 2,1 milhões subiram e desceram ladeira em quatro dias de folia no sítio histórico, ano passado.

Em contrapartida, o número de ocorrências classificadas como violentas durante o período de Momo vem se reduzindo ano a ano. Pelo menos é o que mostram os balanços apresentados pelas prefeituras, sobretudo do Recife e de Olinda, onde o volume da festa é maior. A queda no número de homicídios durante o Carnaval 2012 em todo Pernambuco, por exemplo, foi de 36% desde 2006, quando a Secretaria de Defesa Social iniciou a série histórica: 92 mortes naquele ano contra 69 em 2012; no Recife a redução foi maior, de 19 para 12, ou 38,6% comparados a 2011. Nos 22 polos oficiais de folia no estado, entretanto, houve dois registros.

Uma vida é uma vida, está claro.

O caráter democrático e popular da festa, que carrega o sentido do pertencimento, porém, contribui para que a brincadeira seja maior do que a violência – ainda que proporcionalmente. A própria valorização da raiz multicultural, do apreço pela renovação das tradições, geração após geração, cuida que assim seja.

No entanto, a cultura e a autoestima são ancestrais. O que melhorou, é importante registrar, é o cuidado: o poder público, nos planos estadual e municipal – as autoridades – têm buscado cumprir seu papel de aumentar a vigilância para coibir excessos e melhorar a segurança, dos brincantes e da população, ao longo do período momesco.

Há mais polícia na rua, melhor treinada para lidar com foliões, com multidões na ótica dos direitos humanos e da cidadania. Há câmeras de segurança ao longo dos focos da brincadeira. Há centrais e grupos volantes de atendimento, informação e acolhimento – de saúde, vítimas de violência, mulheres e crianças – em locais estratégicos dos circuitos carnavalescos. Há transporte coletivo específico e mais ágil, interligando os polos. Há campanhas educativas que estimulam a alegria, a tradição e a cultura da paz.

Não prestam favor algum. É direito de cidadania, também para isso pagamos impostos.

E que cada um de nós  cumpra sua parte na contradança. É a lei da co-responsabilidade e do bom senso. Recorro ao texto de 2011, sem pretensão que não a de contribuir para a felicidade geral da nação carnavalesca. Escrevi:

A catarse coletiva é boa terapia. Entretanto, é preciso cuidado para não estragar a festa e os bons efeitos que ela provoca em cada um de nós, foliões e foliãs inveterados, e no todo que nos cerca.

Quarta-feira de Cinzas comporta ressacas, mas é melhor que não caiba tristezas que impeçam a vida de seguir seu rumo.

Postagem revista e atualizada à 1:58, hora do Recife.


2 comentários sobre “A catarse do Carnaval dispensa a violência

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