Sai a ‘cura gay’ e entra o plebiscito

A Globo

por Sulamita Esteliam

Ora direis, ouvir estrelas/certo perdestes o senso/e eu vos direi, no entanto:/enquanto houver espaço, corpo e tempo, e algum modo de dizer não, eu canto.

Cito, de memória, versos de uma canção dos anos 70, do impagável Belchior, inspirados em poema de Olavo Bilac [Ora (direis) ouvir estrelas! Certo/Perdestes o senso!/E eu vos direi, no entanto (…)]

A Divina Comédia Humana é o título da canção, aviso aos navegantes com menos de 30 anos. Parece-me bem apropriado ao momento e ao contexto. Pelo menos no que toca ao noticiário que acompanho ao longo do dia – pela Internet e redes sociais (pois, repito, vejo TV raramente, e estou continuamente em boicote à Globo, símbolo de tudo-que-está-aí-e-que-não-presta – já que nesta quarta tem o #ocupeTVGlobo, no Rio) .

Estamos, todos, um tanto esquizóides, ou serei eu a entender tudo errado?

Dilma enviou, esta tarde, ao Congresso a proposta de convocação de consulta popular para a reforma política em forma de plebiscito, claramente defendido na mensagem – clique para ler a íntegra.

Eis, resumidamente, os pontos principais sugeridos para serem levados à escuta do povo:

  • Financiamento público ou misto das campanhas eleitorais
  • Sistema eleitoral proporcional, como é hoje, voto distrital ouro ou misto; o voto majoritário para a eleição de parlamentares, o voto em lista  fechada ou flexível, ou, então, o voto em dois turnos como propõem entidades da sociedade civil
  • Continuidade ou não da suplência para eleição de senadores
  • Manutenção ou não das coligações partidárias para eleger deputados e vereadores
  • O fim ou não do voto secreto no parlamento

Atende, assim, ao cerne do grito das ruas, que agregou ao movimento pelo passe livre e melhoras no transporte público, a rejeição a “tudo-que-está-aí” e mais alguma coisa, mas principalmente aos políticos, aos partidos e ao jeito de fazer política.

Fê-lo depois de ouvir os movimentos sociais e políticos de todas as nuances – aqueles que se dispuseram a, por que a direita raivosa se recusou a conversar com a primeira mandatária do país. O Psol foi, representado por seu único senador, Randolfe Rodrigues (AP).

A propósito, vale cada linha do que escreve Saulo Leblon em seu Blog das Frases/Carta Maior, que, aliás, também se lembrou de Bilac/Belchior: “Ora, direis, ouvir as ruas, replicam demotucanos em sua esférica coerência!”.

Enquanto isso, em Pernambuco, a bancada oposicionista, PPS incluso, no Legislativo pernambucano – Alepe e Câmara dos Vereadores – extrapola na chalaça: divulga nota na qual acusa a presidenta de Dilma de tentar manietar o povo, através do plebiscito – aqui.

Chovem crítica por todos os lados, também na mídia, velha e alternativa. E chovem no molhado, ademais, que me perdoem  caros  e caras colegas.

É claro que se depender do Congresso e das oposições no geral, velha mídia incluída, o plebiscito não vai a lugar algum. É óbvio que o governo Dilma é cercado por conservadores de todos os lados, todos chegados a leniência e conchavos.  Concordo que uma medida de tal importância, e no atual andar da carruagem, mereceria nova convocação de rede nacional. 

É evidente que a comunicação do governo é abúlica, tanto que ela precisa socorrer-se com assessores extra-pauta.

Mas querem o quê, que Dilma feche o Congresso e se declare soberana absoluta para promover as mudanças que a rua clama, a toque de pena, caixa e clarim?

Ora, queiram ou não, a presidenta tem que fazê-lo via Congresso Nacional, a quem cabe a responsabilidade constitucional, no caso, da convocação.  Se o Parlamento não é nenhuma pérola, muito antes pelo contrário, é exatamente por isso que precisamos da reforma política.

Se o Congresso se recusar a ouvir a voz das urnas, a gente berra.

Deu certo com o famigerado projeto da “cura gay”, engavetado hoje até a próxima legislatura, pelo menos. Com ou sem ameaça do deputado-pastor Feliciano – aqui e aqui.

No mais, saravá!

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