Um poema de Pedro Tierra para Gushiken

por Sulamita Esteliam

Não há poesia na morte. Há a grandeza da vida, de quem soube honrá-la. Há a esperança de que tudo tenha um propósito. Há a força do exemplo. Há o encantamento da generosidade, a energia da palavra e do gesto na hora certa.

Foto capturada na Agência Carta Maior
Foto capturada na Agência Carta Maior

Luiz Gushiken, presente!

Recolhi no FB da amiga jornalista, Reiko Miura, o poema abaixo:

 

Samurai

Pedro Tierra

Um poema em homenagem a Gushiken…

A palavra e a espada.
Há uma espada na sala do Samurai.
Pousada sobre o silêncio da madeira.
E uma aguda noção de honra.

A palavra disparada em descargas curtas
traía o vulcão sob a neve.
Ensaiava um exercício barroco
incapaz de traduzir
– por escasso –
a multidão de sonhos
que manteve este homem
de pé diante da dor e sereno diante da morte.

Deposito sobre a terra do teu peito devastado
este ramo de ipê coroado de branco
para cantar com as cerejeiras ancestrais
a eternidade fugaz de tua vida
agora entregue ao silêncio acolhedor
do meu verso e do meu coração.

Aqui repousa, dentro do meu peito,
libertado da dor e do cansaço,
o que não se deteve diante da infâmia.
A ‘surda força dos vermes’*
tão estridente neste país,
não alterou a serenidade
ou a vocação da semente
que deixou de pulsar.

Aqui repousa a espada de sonhos
do companheiro Luiz Gushiken:
metal colhido pela réstia de luz
que se evade pela janela
de nossa indignação…

___

*Verso de Cecília Meireles no ‘Romanceiro da Inconfidência’.

 


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