É assim que se faz, Dilma!

por Sulamita Esteliam

Já escrevi algumas vezes que gosto do estilo pavio curto Dilma de ser. Paciência tem limite. Assim, comemorei a decisão da presidenta da República de dar um chega pra lá no colega Obama, e cancelar a viagem de outubro aos Estados Unidos: ainda que com a luva de pelica do “adiamento”. Firmeza e diplomacia não são incompatíveis – aqui no blogue.

Por isso, ainda que passadas 24 horas, registro-o, dentro do espírito da semana no blogue. Boa notícia não tem idade.  E passo a bola a quem entende do assunto política externa – com pedigree, como deve ser.

O cientista Antônio Lassance analisa o episódio para Carta Maior – com classe e propriedade. Transcrevo parte substanciosa, mas tem muito mais.

O primeiro ‘guenta’ de Dilma

O chanceler Luiz Alberto Figueiredo e a presidenta Dilma Roussef: solução salomônica - Foto: AgBr/Carta Maior
O chanceler Luiz Alberto Figueiredo e a presidenta Dilma Roussef: solução salomônica – Foto: AgBr/Carta Maior

 

O episódio do “adiamento” da visita de Estado a Washington marcou um lampejo de uma política externa um pouco mais ativa, altiva e incisiva na relação com os Estados Unidos. E deu aos brasileiros pelo menos o gostinho de um tipo de postura da qual a maioria já estava com saudades.
Por Antonio Lassance*

 

Política externa volta a falar grosso, momentaneamente

O “cérebro” das relações exteriores de um país também tem dois lados. Um deles se chama política externa. O outro, diplomacia. A política externa é o campo dos presidentes. A diplomacia, dos chanceleres. Estão intimamente conectados, mas são distintos. Cada qual é responsável por um tipo de movimento.

(…)

À beira de um ataque de nervos
Que os Estados Unidos têm fortes interesses econômicos em manter portas abertas com o Brasil, e que a recíproca também é verdadeira é rodear o óbvio. O mais importante não é isso, mas o fato de que o Brasil vinha sendo submetido a uma situação vexatória, que mexia com os brios da presidenta e da própria diplomacia.

As revelações de Glenn Greenwald, com base em informações repassadas pelo soldado digital Edward Snowden, se por um lado causaram constrangimento ao Brasil, para os Estados Unidos levantaram o temor de um retorno da política externa mais agressiva, a exemplo da praticada pela presidência Lula. Sejam as razões pré-eleitorais ou temperamentais, pouco importa; o risco continua sendo o mesmo.

Dilma já havia perdido sua paciência, primeiro, com a sequência de revelações feitas por Greenwald. O que irritou ainda mais a presidenta foi ter que saber delas pelo programa do Fantástico. O segundo lance que testou o pavio da presidenta, que todos sabem ser curto, foi a conversa com Obama durante a reunião do G-20, em S. Petersburgo, no início do mês. Na verdade, foi mais uma desconversa. Finalmente, a gota d’água foi a reunião da semana passada entre o ministro das Relações Exteriores, Luiz Alberto Figueiredo, e a conselheira de Segurança Nacional da Casa Branca, Suzan Rice, também considerada frustrante – até o telefonema de Obama de segunda (16/9).

(…)

Por que o Brasil tem hoje mais condições de falar grosso?
O Brasil galgou um patamar diferenciado no cenário internacional na última década, a partir da nova política externa inaugurada pelo presidente Lula e seu chanceler, Celso Amorim. Tem, hoje, uma influência que nunca teve antes. A eleição de um diplomata brasileiro para o comando da Organização Mundial do Comércio (OMC) foi o exemplo mais recentemente. O peso do Brasil no G-20 também é relevante.

Alguns “especialistas” que ladram seu complexo de vira-latas fingem que não perceberam essa diferença. Alguns apressadamente disseram, quando surgiu a primeira revelação de espionagem, que o Brasil não tinha nada de importante para ser bisbilhotado. Foram desmoralizados na semana seguinte pelas revelações da espionagem contra a Petrobras.

(…)

A diplomacia brasileira deu um nó em pingo d’água
Nunca antes na história dos EUA um país convidado para uma visita de Estado tinha feito pouco caso do convite. A manchete do Washington Post diz que Dilma “esnobou” Obama. Claro, os Estados Unidos também têm seus cachorros, mas eles preferem mostrar os dentes do que abanar o rabo.

A decisão de Dilma de não ir em outubro já estava tomada, desde a sexta-feira. A única dúvida era o momento e a forma do anúncio ser feito. Aí entra em cena a figura do ministro Luiz Alberto Figueiredo.

(…)

A solução acabou se mostrando salomônica, precedida da ameaça de cortar a criança ao meio. Ao final, nem cancelamento, nem confirmação, adiamento. Dilma, na prática, cancelou a viagem que estava marcada para o 23 de outubro. Saiu bem na foto, no Brasil e em todos os jornais do mundo. Obama ganhou tempo. Terá algum sossego sobre um tema que o preocupa. A última vez em que um presidente invadiu o espaço alheio para bisbilhotar e foi acusado de abuso de poder foi nos anos 1970, no escândalo de Watergate, que levou à renúncia do presidente Richard Nixon.

O telefonema de Obama selou o acordo. A nota oficial da presidência brasileira dá uma no cravo, outra na ferradura. Diz que não houve a “apuração do ocorrido”. Por isso, “não estão dadas as condições para a realização da visita na data anteriormente acordada”. Ao mesmo tempo, “confia em que, uma vez resolvida a questão de maneira adequada, a visita de Estado ocorra no mais breve prazo possível”. Dilma já pode até pensar em ir em dezembro para ouvir algo um pouco menos nebuloso, dando os meses que Obama pediu.

A nota da Casa Branca concorda com o adiamento, assume o compromisso de rever suas diretrizes de inteligência e beira a um pedido de desculpas. Obama diz que “lamenta” as preocupações geradas pelas revelações.

Com o episódio, a diplomacia brasileira voltou a mostrar que sabe fazer a diferença. Para Dilma, deu um presente. Permitiu que ela invertesse o jogo. Cabe agora a Obama o ônus de marcar nova data, sob novas condições. E deu aos brasileiros pelo menos o gostinho de um tipo de postura da qual a maioria já estava com saudades.

*Doutor em Ciência Política pela Universidade de Brasília.

Clique para ler a íntegra do artigo.

 


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