No reino da insensatez, violência é combustível

por Sulamita Esteliam
Cenas de barbárie entre as torcidas do Vasco e do Atlético-PR -Foto capturada no Blog do Juca Kfouri
Cenas de barbárie entre as torcidas do Vasco e do Atlético-PR -Foto capturada no Blog do Juca Kfouri

Fim de semana e segunda-feira quentes, literal e metaforicamente. De fato, é verão no Recife, mas disso não reclamo. Sou filha do calor e das festas, e no dezembro que inauguro nova idade, e a tal da boa (bem na antevéspera do fim, registre-se), mereço um estação como se deve.

O que incomoda é a insensatez. Não falo apenas da escatologia da violência, da estupidez que confirma a animalidade a se sobrepor ao homem, como a que assistimos na partida Atlético do Paraná x Vasco, em Joinville, sábado último. O castigo vem a cavalo.

Queria só entender o porquê de, ao invés de lamentar a besta-fera solta – a matar o espírito esportivo que estimula -, as vidas quebradas em pontapés, socos e porretes, os comentaristas se fixem no mantra, desconfio que com patrocínio: “… e este é o país que é sede da Copa do Mundo 2014!”.

Como se outros países-sedes de Copa do Mundo não tivessem assistido, nunca d’antes, em suas partidas futebolísticas, espetáculos execráveis de violência explícita; a Inglaterra, por exemplo, para ficar no reino das coisas representadas…

Ora, francamente! Vai manipular assim na casa da mãe-Joana…!

Por que não falam das vidas quebradas pelas exigências para contentar o padrão-Fifa de promover competições? Pegue qualquer capital-sede e confira o que acontece com quem está no caminho das arenas reluzentes e da tal mobilidade urbana – necessária, mas a que preço?

E onde está o nosso jornalismo, mais amarelo do que verde?

Muito bem, este é o país do futebol, da seleção pentacampeã mundial, e é hipocrisia criticar o esforço para receber o Mundial de Futebol. Concordo plenamente. Ainda que os recursos pudessem ser melhor aplicados – em saúde e educação, por exemplo, não podemos negar a alegria de uma partida de futebol.

Mas, cadê o Zé Povinho? Está onde sempre esteve, diriam os menos avisados. Pois não é mais assim: hoje tem pão, mas já não tem circo. Quem pode pagar o preço do ingressos das arenas reluzentes?

O Zé Povinho foi expulso dos estádios, e deve contentar-se com o telão dos arredores, se quiser sentir o clima mais de perto. Do contrário, tem ao seu dispor a imagem da TV comprada na expansão do crédito, em 10 vezes sem juros aparentes. E tá ruim!?

Se antes vendia o almoço para comprar o jantar, agora nem negociando as três refeições – que boa parte já consegue fazer -, durante um mês, consegue atravessar os portões de um desses templos-padrão. E se entrar, vai ter que matar a sede com água de torneira, se tiver né. Soube que uma garrafa de água mineral custa a bagatela de R$ 6.

E não falo apenas de jogos em competição internacional, do naipe da Copa do Mundo ou da finada Copa das Confederações. Refiro-me a ver seu time jogar pelo campeonato local, mesmo.

O Independência, por exemplo, caldeirão onde o meu Galo é cozinheiro; no máximo, pode vir a ser usado como campo de treinamento de uma seleção que venha a jogar em Beagá. Passou por severa reforma, ficou bonito que só. Há dois anos está no rol de primeiro nível. Mas, a R$ 30 o preço mínimo do ingresso, o geraldino mal pode chegar perto.

Se no Horto é assim, que dirá nas arenas da Copa.

Talvez, seja justamente isso que deixa essa gente feliz…


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