A gente acha que só acontece com os outros…

Com o coração na boca…

por Sulamita Esteliam

coraçãoO celular toca, e minha amiga atende após alguma hesitação: “Desconhecido” lhe indica a tela. Pode ser o primo aposentado da Polícia Federal, que não perde o hábito e o cuidado de se resguardar, pensa. Não fazia ideia do que a esperava nos minutos seguintes…

– Aalô!

– Mãe, eu fui assaltada, mãe… estou-aqui-com-duas-armas-apontadas-pra-minha-cabeça, mãe. Pelo-amor-de-Deus-me-ajuda…

– Quem está falando…?

– Sou eu, mãe, fui-assaltada-por-dois-homens-que…

– Regina…!? Calma, filha, onde você está, como aconteceu? Fizeram alguma coisa com você? Levaram seu carro?

– Não, mãe… tô-no-carro-com-dois-homens-apontando-a-arma-pra-minha-cabeça…eles querem-dinheiro-e-eu-não-tenho-mãe…vão-me-matar…me-ajuda-pelo-amor-de-Deus…

A voz, rouca e entrecortada por soluços, e as palavras ditas sem fôlego, eram típicas da filha em desespero. Como um relâmpago, veio à mente o dia em que Regina ligara aos prantos, dirigindo de volta do trabalho. Era início da noite e chovia a cântaros: “Mãe, fui demitida, mãe, o-que-que-eu-faço-agora, mãe, pelo-amor-de-Deus …!?”

– Dona Márcia, tudo bem? – retoma uma voz masculina, enquanto a mãe olha aflita para o colega de trabalho que lhe pergunta em tom inaudível “o que está acontecendo….?” Teria ouvido seu nome, ou seria o inconsciente buscando a confirmação de que um fruto de seu ventre poderia desaparecer em mãos de bandidos? Luta contra o nó na garganta, a tremedeira e a dor no estômago. Busca a lucidez.

– Como posso estar bem, se vocês estão com minha filha sob a mira de uma arma!?

– Não se preocupe, dona, que não vamos fazer nenhum mal pra ela não… É só a senhora fazer tudo que a gente mandar…

– Não é ironia, dizer que nada de mal vai acontecer com ela? E essa violência o que é?  Onde vocês estão com minha filha?

– A gente está em local público, mas não vamos dizer onde estamos para a senhora chamar a polícia. Escuta com muita atenção, dona: a gente pegou ela errado, a gente queria sequestrar um empresário e confundimos o carro… Não queremos o carro, nem vamos fazer mal pra sua filha, também sou pai de família…

– Ah, é? Ela também é mãe de família. Tente se colocar no lugar dela…

– Olha aqui dona, a senhora tem que nos ajudar com as despesas que tivemos para fazer o sequestro. Pagamos caro para alugar uma casa e um carro, e nos ferramos ao pegar uma dura… (o sotaque é carioca, pensa minha amiga) A senhora está me ouvindo dona?

– Sim, estou lhe ouvindo: vocês fazem a merda, e eu tenho que ajudar a limpar, senão vocês matam a minha filha, não é isso?

– A senhora é muito atrevida, dona… A Regina disse que a senhora pode ajudar, que a gente pode confiar na senhora, que não vai chamar a polícia e vai fazer tudo que a gente quer… Podemos confiar na senhora?

– Tenho alternativa? Claro que não vou chamar a polícia… O que vocês querem?

– Dez mil reais. Queremos dez mil reais…

– Ficou doido? Sou uma trabalhadora, onde vou arrumar dez mil reais?

O colega de trabalho, que também é dublê de policial civil, fala, sem emitir som, para ela perguntar onde será feita a entrega. Pede o número do telefone de Regina, para ele ligar. Márcia não sabe de cor, está atarantada, mas tenta se manter atenta aos seus dois interlocutores… Escreve o telefone de casa e o nome do marido para o colega pedir o número da filha.

Do outro lado da linha, o bandido dá sinais de impaciência, e é audível o choro da filha misturados aos xingamentos do comparsa de seu interlocutor, ao fundo.

– A senhora quer sua filha viva ou não?

– Minha filha não tem preço, mas eu não disponho desse dinheiro.

– A senhora tem dois mil reais?

– Não, não disponho de dois mil reais?

– Quanto a senhora tem?

– Mil reais, é tudo o que eu tenho…

– Qual o banco que a senhora tem conta? (Sim, o sotaque é carioca…)

– Na Caixa…

– Então a senhora vai procurar uma lotérica para fazer o saque e o depósito. E não pode desligar o telefone. Se a senhora desligar ou a ligação cair, a gente vai achar que a senhora está avisando a polícia, e aí a gente mata a sua filha, a senhora entendeu?

– Mais claro impossível. Mas quem me garante que depois de feito o depósito vocês vão liberar minha filha sem machucá-la? Me dê o número da conta para eu depositar…

– Infelizmente, a senhora vai ter que confiar na gente.

– Não é bom isso? Dê o número da conta…

– Passo o número quando a senhora chegar na lotérica. A senhora mantém o telefone ligado, e quando a atendente confirmar o depósito, a gente libera a Regina. Tem uma lotérica aí perto de sua casa?

– Estou no trabalho, e a lotérica mais próxima está a uns cinco quarteirões daqui. Nessa distância, a ligação pode cair, sim… E vou ter que avisar que preciso sair…

– A senhora arranja uma desculpa, não diga o que está acontecendo, entendeu? E não se esqueça de levar papel e caneta para anotar o número da conta. Já saiu?

– Estou saindo, mas primeiro me deixa falar com a minha filha de novo…

No percurso até a casa lotérica mais próxima, a ligação caiu cinco vezes, o bandido a acusa de estar tentando monitorar a ligação, o que a faz rir e perguntar se ele acha que ela é hacker. Por segurança, resolve passar num caixa 24 horas para sacar o dinheiro, antes de chegar à lotérica. Constata que se esquecera de que já fizera um saque no dia e começa a se apavorar. O colega, que a acompanha, tenta tranquilizá-la. Sem saída, Márcia avisa ao bandido, que o sistema do banco nega o valor combinado:

– Só posso sacar oitocentos reais…

– Aí dona, fica difícil… Já reduzi de 10 mil para 2 mil, depois para mil, e agora a senhora só quer entregar 800 reais …?

– O que eu posso fazer, é o sistema do banco…

– A senhora já chegou à lotérica?

Na lotérica as filas desaguam na calçada. Márcia pega a de prioridade, menor, e avisa ao bandido que há 10 pessoas à sua frente. Volta a pedir o número da conta. Ele ordena que ela pare de comentar e passa os dados, sem nome. Ela questiona a operação: 023 é poupança pessoa jurídica, no banco do governo. O meliante contesta, mas resolve trocar a conta: é de uma mulher, Franciele ou algo assim…

A operação se mantém 023 (mais tarde se esclarecia, que se trata da Conta Fácil da Caixa, que só é aberta nas lotéricas, e é reservada a quem não faz depósitos acima de 2 mil reais; o que mostra que o banco social do governo, também, segrega a clientela, além de ter certa queda à complicações).

Enquanto aguarda na fila para fazer o depósito, Márcia continua a dialogar com o bandido, entre várias quedas do sinal telefônico, o que deixa a ambos nervosos. Nesse ínterim, o colega de trabalho consegue falar com o marido da amiga, pede o número de Regina, liga e passa o telefone para Márcia:

– Fale com Regina, e me passe o cabra… – mas a ligação com o bandido havia caído, novamente.

–  Graças a Deus, filha! Que susto eu passei, tudo bem com você?

– Estou ótima, mamis. Isso é golpe velho, como a senhora foi cair nessa?

O celular de Márcia volta a tocar. Ela o toma do colega, faz questão de atender. Está furiosa:

– Minha filha está no trabalho e está bem, babaca. Vai se fuder!

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Postagem revista e atualizada às 12:07, hora do Recife.


7 comentários sobre “A gente acha que só acontece com os outros…

  1. Oi Sula,
    Esse golpe já aconteceu comigo. Eu estava fazendo as unhas e meu celular não parava de tocar. Demorei para atender. Quando eu atendi era a Rachel, minha filha, em pânico, perguntando onde eu estava. Ela tentava me ligar enquanto a minha filha Thaís segurava os golpistas no telefone fixo.
    Recentemente, uma colega de trabalho recebeu um telefonema de golpe. Ela tria ganho uma casa e deveria fazer certos procedimentos. Gravamos a conversa dela com o golpista e fizemos uma reportagem para a TV Assembleia.
    Realmente, a gente acha que só acontece com os outros, nunca conosco.

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