Um dia luminoso e o direito ao ócio

'O mar, quando chega na praia, é bonito, é bonito...!' - Dorival Caymmi
‘O mar, quando chega na praia, é bonito, é bonito…!’ – Dorival Caymmi
por Sulamita Esteliam

Em plena terça, saí para a caminhada matinal carregando a sacola para as compras semana. Afinal, estamos na semana pré-Carnaval, e ninguém merece encarar supermercado em meio à folia. Bastaram dez minutos de alongamento no pátio do edifício onde moro para eu mudar de ideia.

O dia estava luminoso, o mar explodia em tons de verde, e a maré estava enchendo, mas ainda mal cobria os arrecifes. Simplesmente irresistível. Moitei a sacola sob a bancada de cimento do terraço do prédio; não se perderia até o meu retorno.

Pendurei minha capanguinha com a canga e os caraminguás para a água de coco, e fui para areia, feliz da vida. Caminhei na direção norte, rumo ao Pina, decidida a, chegando lá, fazer uma parada técnica, antes de retornar.

Adoro pegar praia na barraca da Gê (nilda) e do Pingo. Fica em meio às quadras de tênis, cerca de três quilômetros do meu ponto de partida.  Afora a cerveja gelada e o peixe crocante, o casal é eficiente, tem boa conversa e não economiza na dosagem de carinho. “Suuuu… quanto tempo, você nunca mais apareceu…!”

Quem não gosta de paparico?

Segui bem junto ao encontro do mar com a areia, desviando, eventualmente, de crianças saltitantes e adultos distraídos. O beijo das ondas nas pernas é uma delícia.

Foco não era bem o que o meu dia prenunciava. E daí?

O mar me seduziu a quinhentos metros do meu destino. Era como se me chamasse: “vem, anda logo, vem…”

Dei-me o direito, sem culpa.

Minha criança interior estava de bem comigo, e é inspiradora. Fiquei por ali um bom tempo: eu comigo e o melhor de mim, a água morna, a areia macia, o acariciante vai-e-vem das ondas, a vontade de me tornar líquida.

No percurso de volta, já estava disposta a tirar o resto do dia de folga. Ando mesmo precisando de férias. As compras poderiam esperar, o almoço se improvisaria, os telefonemas não eram urgentes, e o  blogue eu atualizaria mais tarde. Todos sobreviveríamos.

Há tempo para tudo.

Também há tempo para viver, aqui e agora. Amanhã pode não ser mais…

Já perto de casa, estaquei na barraca de outro casal amigo, Silvana e Alex. Lá também sou muito bem-recebida, e lá se vão quase 17 anos. É nosso pouso inaugural na Praia de Boa Viagem. Agora que moramos bem perto, de novo, voltamos a ser assíduos.

Liguei para meu companheiro. Peguei-o de saída: ia ao meu encontro no supermercado, onde imaginou que eu estaria. Convidei-o a me acompanhar na difícil tarefa de não fazer nada. Conhecedor da mulher que tem, Júlio mal acreditou. Mas foi lá me dar uma forcinha.

Ri quando perguntou se eu tinha “pirado”. E só aí lembrei-me do comentário do amigo Sobral, com quem topara mais cedo, ao cruzar a avenida: “Quem sabe o que é bom, não tem pressa…”

 


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