A vida é trabalho, pão e circo #vaitercopa

por Sulamita Esteliam

Copa14

Há algumas semanas tive um embate acalorado com um motorista de táxi, no Recife, sobre Copa do Mundo. Procurei desmontar, um a um, os argumentos que têm alimentado o complexo de vira-latas tupiniquim, tão bem caracterizado pelo pernambucano-carioca, Nelson Rodrigues, cronista do futebol e dos costumes nativos.

O mesmo aconteceu com motorista do ônibus executivo que faz a linha Av Paulista/Aeroporto de Guarulhos, semana passada. Repetia o lero-lero para um turista australiano, que se adiantou à seleção do seu país, e embarcaria num vôo para conhecer a beleza de Natal, no Rio Grande do Norte. De lá, seguiria para Salvador, onde pretendia assistir ao amistoso de seu time com a Croácia, dia 12.

Não era a primeira visita do australiano ao país, e ele fala um português bastante razoável. Entendeu bem o que dizia o motorista, fez uma ou outra pergunta, e mostrou-se atento às contraposições que Euzinha explicitava.

À certa altura do diálogo, o motorista falou:

– Pelo que eu vejo, a senhora é petista…

Respondi de bate-pronto:

– Sou cidadã brasileira acima de tudo, e não gosto de ouvir ninguém falar mal do meu país, ainda mais para visitantes.

Não mencionei o complexo de vira-latas, para não ser mal interpretada.

Depois de tudo, o silêncio. Idêntico ao que ocorrera no táxi, em Recife.

A mesma conversa fiada, repetida meses a fio pela mídia porta-voz de interesses inconfessos, ou nem tanto: gastos com a copa versus investimentos em educação, saúde e que tais, ou o vexame de obras incompletas, etc e tal…

Pouco importa que não haja verba orçamentária aplicada nos estádios, mas tão somente em obras de infraestrutura. Há sim, dinheiro público nas arenas, fruto do financiamento do BNDES aos governos estaduais e/ou municipais, e a alguns times em alguns casos. Mas de empréstimos se trata, que terão que ser pagos; não há fundo perdido.

Há atrasos, sim, em obras de mobilidade urbana e melhorias de aeroportos, e o governo admite. O Tancredo Neves, em Confins, mesmo, não estará pronto para o Mundial. Entretanto, a Copa vai e as obras, terminadas, ficam.

Copa, para além do futebol é um bom negócio. Sem contar a Fifa, que o digam as companhias aéreas, os hotéis, os restaurantes, as construtoras, e a própria mídia, que fatura alto.

Recomendo, a propósito, a leitura do artigo A Guerra contra a Copa, do jornalista Paulo Moreira Leite, diretor de Redação e colunista da IstoÉ. Topei com ele no Twitter, em postagem feita pelo Blog do Miro, que também reproduz texto do Blog da Cidadania sobre pesquisa DataFolha acerca da Copa no Brasil.

A imprensa sabe disso. As lideranças das manifestações sabem disso. A presidenta Dilma Roussef já repetiu a história, à exaustão. Mas a verdade, aqui, não tem a menor importância.

Importa a versão, que repetida intermitentemente, termina fazendo ventrílocos, em todas as classes sociais. Vide Ronaldo Neves, fenômeno “envergonhado” de inconsistência e oportunismo. De repente, ele acha que adentrou à casa-grande.

Não vou negar que tenho críticas à Copa. Uma delas é a barreira social criada pelo padrão Fifa. O Zé Povinho está barrado no baile do Mundial e também no acesso cotidiano aos estádios-vitrines; o preço dos ingressos são proibitivos para a maioria, mesmo nos jogos dos times locais. Isso no “país do futebol” é uma tragédia.

É certo, também, que o legado da Copa não é apenas a infraestrutura, a dita mobilidade urbana e aeroportos mais confortáveis. Há o custo social de expulsar as pessoas de seus locais de moradia.

Abusos foram cometidos em nome da Copa, merecem protestos e precisam ser corrigidos. E isso não é retórica, é a vida e a história de cada um em jogo.

Moradores de um bairro em Manaus investiram na decoração para a Copa no Brasil - Foto: Pictwitter de @Silas Lima/RT@Stanley Burburinho
Moradores de um bairro em Manaus investiram na decoração para a Copa no Brasil – Foto: Pictwitter de @Silas Lima/RT@Stanley Burburinho

Todavia, outra coisa é a festa do futebol, e já escrevi algo aqui no blogue: ninguém em sã consciência, pode ser contra a alegria da bola rolando em campo. E as cidades já se vestem de verde e amarelo.

Queiram ou não queiram os juízes, #vaitercopa, sim. E, tomara, o Brasil conquiste o hexa em casa. Afinal, a vida é trabalho, pão e circo.

Aliás, Leonardo Sakamoto escreve bela crônica sobre um garoto de 14 anos, vítima de trabalho escravo no Pará, que sonhava em ser jogador de futebol. Está em seu blogue. Reproduzo o trecho final, pertinente com o que foi dito acima:

“(…)

Jogos são usados para distrair, alienar e conduzir a plebe há muito tempo. O pessoal que sangrava no Coliseu, em Roma, que o diga. Mesmo ao longo de nossa história, o futebol foi utilizado com fins políticos. Não faltam livros, teses e documentários para quem quiser se informar sobre a ditadura militar e a Copa de 1970, na qual ganhamos o direito de derreter a Jules Rimet.

Por isso, o futebol é uma idiotice? Não, o futebol é fantástico, é sensacional, é indescritível.  Imbecil é quem o usa politicamente. Futebol é uma das melhores coisas já inventadas. A gente pode passar a vida inteira tentando entendê-lo e, ainda assim, se surpreende.

Como na história de um escravo de 14 anos que ainda encontrava tempo para sonhar com futebol.

Espero que o Brasil ganhe a Copa.

Mas espero ainda mais que a bola tenha ajudado a rolar Jonas para fora daquela quase-existência. Pelo menos, nos sonhos.”


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