Os tubarões e o lugar de cada um…

Paria de Boa Viagem, sentido Pina - Fotos: SE
Paria de Boa Viagem, sentido Pina – Fotos: SE

 

por Sulamita Esteliam

Sempre me perguntei por que os guarda-vidas da Praia de Boa Viagem não usavam seu “poder de polícia” para barrar banhistas incautos; aqueles que desafiam as correntes traiçoeiras e atiçam a ira dos tubarões que circulam no canal escondido no mar, a 50 metros da linha dos arrecifes. Afinal, pensava Euzinha, guarda-vidas são bombeiros, que por sua vez pertencem à corporação da Polícia Militar. Estava mal informada.

A julgar por decreto-lei editado nos estertores de julho pelo governo do estado. Só agora os guarda-vidas podem ir além da advertência, e buscar auxílio dos colegas PMs para conduzir os desobedientes à delegacia. É recomendação do Ministério Público, como mais uma medida preventiva aos ataques de tubarões. Melhor do que fechar a praia. Se assim é, demorou.

Há placas de aviso nos quase oito quilômetros de orla em Boa Viagem, que é onde frequento assiduamente. Todo turista se diverte ao vê-las e faz questão de posar para uma foto que certamente vai parar nas redes sociais. Há placas proibitivas da prática de surf ou body boarding, e placas educativas com uma lista de atitudes a evitar.

Algumas das recomendações: evitar o banho de mar além da linha dos arrecifes, com maré cheia, à noite, sob chuva e quando as águas estão turvas; não entrar na água com algum tipo de ferida e com joias de metal – mais aqui.

Diga-se, é um tremendo mau gosto dar-se ao desfrute de virar “comida” de tubarão. Além do fato de transformar-se em estraga-prazeres de quem está ali para relaxar da semana intensa de trabalho, ou de um ano inteiro de rame-rame. Não é lembrança das mais agradáveis retornar das férias com uma história trágica para contar.

Portanto, só vai quem quer. E agora não vai mais, sob pena de ser convidado de honra no xilindró.

Nessa época do ano chove no Recife, e, a exemplo do ano passado, quando se deu o último ataque, os céus têm sido especialmente pródigos em mandar água. O mar tem estado, constantemente, turvo, e os ventos fortes tornam as correntezas ainda mais traiçoeiras. É preciso respeitar a autoridade de cada ambiente e circunstância. E não esquecer a quem pertence o habitat.

O canal ao longo de toda a orla – vem desde a vizinha Paulista e chega ao Porto de Suape – é que facilita a aproximação dos tubarões. Desalojados que foram de seu berçário natural, lá no Cabo de Santo Agostinho, justo com a construção do porto. Sem falar dos empreendimentos imobiliários que se multiplicam, exponencialmente, à margem, aterro de mangues, poluição e todo o tipo de degradação ambiental. Tudo sob o olhar e atos coniventes dos poderes públicos.

Não que ataques de tubarão sejam tão frequentes. Desde 1992, ocorreram 59 casos, 23 dos quais na Praia de Boa Viagem. Dados do Cemit, o comitê estadual que monitora o trottoir dos vorazes cetáceos – que aliás, odeiam carne humana, o que a meu ver é traço de requinte.

Agora, falta a Prefeitura do Recife tomar atitude com relação a outros perigos que rondam os banhistas na areia: os bicicleteiros – e às vezes até motoqueiros – sem noção. Especialmente no Pina, há sempre um engraçadinho querendo se amostrar. Já vi homem de cabelos grisalhos circulando de motocicleta, com sua “ninfa” à garupa, em pleno domingo, que é quando a praia está mais cheia e repleta de crianças, e bolas, e mães e pais distraídos…

Certa vez, dois sujeitos, nitidamente, sob efeito de doses etílicas a mais, disputavam quem se equilibrava sobre uma bicicleta na areia, e com maré alta. Primeiro um, depois outro, cada um mais idiota do que o colega. Falei com eles sobre o risco, não deram a mínima. Caminhei até o guarda-vidas e perguntei se eles não podiam tomar atitude. Ouvi que a alçada deles se limita à água.

A quem cabe? À Dircon, que fiscaliza os barraqueiros e ambulantes? À Guarda Municipal?

O guarda-vidas deixou seu olhar de paisagem perdido na minha cara. Recolhi-me contrariada. E ainda tive que aguentar a galhofa do meu companheiro: “É nisso que dá querer ser fiscal da praia…”

Ora, é o meu, o nosso quintal. Temos que cuidar bem dele.

Há risco, ainda, à segurança física de quem usa o calçadão para caminhar ou correr. Os ciclistas não se contentam com a ciclovia e ocupam a calçada, que deveria ser lugar de pedestre. Pais e mães, vovôs e vovós também, sem desconfiômetro algum, acham natural acompanhar seus pimpolhos fora da faixa destinada a bicicletas, iniciando-as, em terra idade, na arte da des-gentileza comunitária.

E não há quem diga: “Ei, aqui não é lugar…”

Aliás, caminhar ou correr no calçadão tem se tornado um exercício de, no mínimo, tolerância. Há uma faixa bem demarcada para caminhantes e corredores/as. A calçada é larga o suficiente para flanar sem compromisso. Mas uns e outros não se contentam com os respectivos espaços. A graça está em ser desagradável.

E há os senhores aposentados, que se dedicam ao jogo de dominó no entorno de seus quiosques preferidos. Nada mais justo para quem trabalhou a vida inteira poder dedicar suas manhãs à convivência lúdica com os amigos. Então, começam sob a barraca e ao longo da manhã perseguem a sombra onde quer que ela vá. Pouco se dão se empatam o caminho dos passantes. E quem quiser que se queixe ao papa.

Ah, essa tal civilidade! Assim como não há dinheiro que compre, cada vez mais me apercebo que não é o avançar do tempo que a torna cara…

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Paria de Boa Viagem, sentido Piedade

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