Primeiro Neto ‘trupica’ no Vale e cai no Nordeste

por Sulamita Esteliam
Aécio e o pig - Bessinha
Charge capturada no Conversa Afiada

O avô materno do Primeiro Neto, Tancredo Neves, costumava dizer que “Minas é a síntese do Brasil”. Isso em 1982, quando foi eleito governador, já com pretensões de ser ungido mago da transição do poder militar para o civil.

Trinta e dois anos depois, pode-se dizer que Minas continua espelho deste país. Um espelho embaçado e trincado, é verdade, mas espelho.

Um estado-país num país-continente, se formos comparar com a Europa, por exemplo. Um estado com sete fronteiras e muita diversidade – cultural, social, econômica. Como o Brasil.

Mas um estado que se mantém agrário, a despeito do processo de industrialização a partir dos anos 50, e nos 70, sobretudo. Um estado que, por conta de 12 anos de “choque de gestão”, há 10 anos cresce abaixo da média nacional.

Menos, portanto, do que os estados do Nordeste, sobretudo Pernambuco, Ceará e Bahia. Inegável que, pela primeira vez na história deste país, um governo federal toma a região como prioridade, alocando obras de infraestrutura, como portos, aeroportos, estaleiro, refinaria de petróleo.

Aditivos ao PIB, à geração de emprego e renda, ao poder de consumo, à educação, à autoestima. É a expansão do número de universidades. É o ProUni, o Pronatec, o Ciência sem Fronteiras, importantes no país inteiro, mas que aqui faz toda a diferença …

Não é só Bolsa Família, programa de transferência de renda, com 55% dos investimentos na região.  Mas é também a valorização do salário mínimo onde a grande maioria dos trabalhadores recebem pelo piso. Duas políticas de enorme importância para a dinamização das economias locais, sobretudo nos municípios mais carentes.

Representam, nas palavras de Tânia Bacelar, professora da UFPE, cientista social e doutora em economia pública, “uma verdadeira injeção de renda na veia” nordestina. Vale conferir uma entrevista que Bacelar concedeu à Tribuna do Norte, em setembro de 2013, e que encontrei no sítio da Unisinos, universidade gaúcha.

Óbvio, ainda há muito o que caminhar. É preciso aprofundar as políticas estruturais que avancem na industrialização e acelerem a redução das desigualdades regionais, que que ainda são grandes.

caderno NE - TN 1984Em 1984, ainda governador de Minas, Tancredo Neves lançou um caderno chamado Um Reexame da Questão Nordestina, editado pela Fundação João Pinheiro.  Na equipe técnica que elaborou o diagnóstico sócio-econômico da região, coordenado pelo economista Teodoro Lamounier, a professora pernambucana, que também integrou a antiga Sudene – Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste, foi uma das consultoras.

Guardo este caderno em meus alfarrábios; recebi-o durante a 288ª Reunião Ordinária do Conselho Deliberativo da Sudene, em Montes Claros, que cobri pelo Diário do Comércio, em 1984.

Trata-se de um diagnóstico sócio-econômico, que vem acompanhado de sugestões para um planejamento regional que integrasse o Nordeste ao desenvolvimento nacional. Políticas públicas que deixassem de considerar o nordestino “cidadão de segunda classe”.

Já era Tancredo em campanha para o Colégio Eleitoral, que o elegeria presidente da República em janeiro do ano seguinte. Se ele transformaria em projetos o que o estudo sinalizava, e os colocaria em prática, a gente nunca pôde conferir.

Fato é que a distância entre o Nordeste de 1984 e o de 2014 é abissal. Ainda que a integração regional/nacional tenha se iniciado, e tão somente, no governo Lula.

Todavia, não deixa de ser curioso o processo de mimetismo do avô – que certamente se revira no túmulo a cada performance do Primeiro Neto. Assim, este anuncia um programa especial para “desenvolvimento” da região, O Novo Nordeste. Exatamente na Bahia.

Vou pular a parte que se refere à tal da “Poupança Jovem“.

É pateticamente eleitoreiro. Além de demonstrar a falta de conhecimento do Brasil real.

Não por acaso é aqui, no Nordeste, onde o candidato tucano tem quase nenhuma inserção.

Mas não deixa de ser irônico, ainda mais, quando se constata o arremedo do mal-sucedido Travessia, programa lançado em 2008 pelo governo mineiro. A pretensão anunciada era gerar emprego e renda  nos vales do Jequitinhonha e Mucuri e no Norte de Minas -, de perfil semelhante ao Nordeste do país.

Sabe-se que não só não transferiu renda, como deixou, sim, um rastro de obras inacabadas: muitas sem nada a ver com o propósito. Quem o atesta é o insuspeito – em si tratando de obra tucana – Estadão, em reportagens recentes: aqui e aqui.

O aeroporto de Montezuma à noite, em foto de Luiz Carlos Azenha/Vi o Mundo
O aeroporto de Montezuma à noite, em foto de Luiz Carlos Azenha/Vi o Mundo

Também não passou de pretensão o plano de transformar Montezuma, no Norte mineiro, em “balneário de água quente”.  A atividade turística, de acordo com a assessoria do candidato para O Globo, seria  “o principal eixo estratégico para seu desenvolvimento”.

Desculpa esfarrapada para explicar a construção de um aeroporto em proveito do patrimônio familiar – dele e das irmãs. Na pobre cidadezinha de 8 mil habitantes, sem maternidade, está a fazenda que o pai, Aécio Cunha, apropriou-se em usucapião de terra devoluta, pública, portanto. Grilagem de terra é o nome correto.

Os dados disponíveis do último IDHM – Índice de Desenvolvimento Humano, segmentado por municípios/regiões, por exemplo, também estão aí para provar. Muito pouco ou quase nada foi feito pelo Nordeste e Norte de Minas em 12 anos de “choque de gestão”.

Confira os 10 melhores e os 10 piores: Comparativo IDHM-MG.

Na contramão, O Nordeste e o Norte do país registram o maior crescimento.

Minas, apesar de ter “alto desenvolvimento”, tem o menor índice do Sudeste e fica em 9º lugar nacional. Quando questionado a respeito, na bancada do Jornal Nacional, dia 11 deste mês, saiu-se com essa:

“… Minas tem no nosso território, encrustado no nosso território, o Vale do Jequitinhonha, o Norte Mineiro, o Mucuri, que é uma região que historicamente tem o IDH menor do que a média do Nordeste…”.

Eis o vídeo do trecho da entrevista, para relembrar:

 

 

Seriam os vales Jequitinhonha, Mucuri e o Norte do estado meros estorvos, apêndices incômodos da gigante Minas Gerais?

Ora, se tem a chave para avançar no desenvolvimento do Nordeste brasileiro, por que o Primeiro Neto não conseguiu, minimamente, atender as carências do Norte e Nordeste de Minas?

Os vales do Jequitinhonha e do Mucuri, o Norte de Minas – assim como o Nordeste -, são territórios férteis em riquezas do subsolo, de biodiversidade, de talentos, de possibilidades. É uma gente criativa, de fibra, acostumada a fazer do limão a limonada.

Porque o governo tucano não planejou para desenvolver as potencialidades da região?

Foram oito anos de governo, e mais quase quatro de seu sucessor. E apesar da ajuda dos programas sociais do governo federal, que demandam interesse e empenho dos entes federados – estados e municípios – para se concretizarem.

Então, não me venha com prosopopeias. O povo não é bobo.

 

 

 

 

 


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