Recuperar a energia das ruas e a sintonia com as bases

Em São Paulo, a coleta de assinaturas se deu na Praça Ramos - Foto: evento PT/FB
Em São Paulo, a coleta de assinaturas se deu na Praça Ramos – Foto: evento PT/FB

 

por Sulamita Esteliam

O PT escolheu o dia do seu aniversário de 35 anos de fundação, neste 10 de fevereiro, para iniciar a coleta nacional de assinaturas pela reforma política. A mobilização ficou a cargo de cada diretório, e visa obter 1,5 milhão de adesões até junho. Para mudar, tem que assinar, é o lema.

Boa iniciativa. Mas o encaminhamento me parece um tanto amorfo. Um mutirão que deveria ocupar praças e ruas país afora, indistintamente, não pode depender da vontade cívica de alguns dispostos.

Onde a energia indispensável para promover a da “repactuação do PT com a sociedade”, conforme prega seu fundador?

Luiz Inácio Lula da Silva, no discurso da celebração em Beagá, dia 06, buscou no manifesto de fundação do partido o espírito que precisa ser recuperado: retomar a sintonia com as bases, com as ruas.

O presidente de honra, não hesitou em botar o dedo na ferida:

“O PT nasceu para mudar, para ser diferente (…) O verdadeiro problema é que se tornou um partido igual aos outros. Deixou de ser um partido das bases para se tornar um partido de gabinetes.”

Aos 35 anos, o PT fez dois presidentes da República – o primeiro operário e a primeira mulher a serem eleitos para o posto. Inicia a quarta gestão na Presidência. Fez dezenas de governadores, centenas de prefeitos, além de vereadores deputados, senadores, vereadores. Mudou a face e a autoestima do país e a vida de milhares de pessoas.

É para poucos.

Mas algo se perdeu no meio do caminho, e é preciso humildade e força, além da decisão política – que parece haver – para recuperar.

A reforma é uma das principais reivindicações que emergiram do clamor das ruas em 2013. E deve ser feita a partir da convocação de um plebiscito por Constituinte Exclusiva. A deixar por conta exclusivamente do Congresso, e deste congresso que aí está, a gente pode deduzir no que vai dar.

Na Câmara dos Deputados, aliás, está instalada a comissão que vai discutir a reforma, que lhe é conveniente, para manter tudo como está. E quem a preside é ninguém menos que um deputado do DEMo.

Mas, falávamos de aniversário do PT.

Recuperemos um pouco da paixão e da poesia. São parte da história.

A presidenta da República, Dilma Roussef, o ex-presidente Lula, e o presidente do PT, Ruy Falcão: "humildade para mudar e seguir mudando" - Ricardo Stuckert/Instituto Lula
A presidenta da República, Dilma Roussef, o ex-presidente Lula, e o presidente do PT, Ruy Falcão: “humildade para mudar e seguir mudando” – Ricardo Stuckert/Instituto Lula

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Busquemos a inspiração de Pedro Tierra*:

OS FILHOS DA PAIXÃO
Nascemos num campo de futebol.
Haverá berço melhor para dar à luz uma estrela?
Aprendemos que os donos do país só nos ouviam
quando cessava o rumor da última máquina…
quando cantava o arame cortado da última cerca.
Carregamos no peito, cada um, batalhas incontáveis.
Somos a perigosa memória das lutas.
Projetamos a perigosa imagem do sonho.
Nada causa mais horror à ordem
do que homens e mulheres que sonham.
Nós sonhamos. E organizamos o sonho.
Nascemos negros, nordestinos, nisseis, índios,
mulheres, mulatas, meninas de todas as cores,
filhos, netos de italianos, alemães, árabes, judeus,
portugueses, espanhóis, poloneses, tantos…
Nascemos assim, desiguais, como todos os sonhos humanos.
Fomos batizados na pia, na água dos rios, nos terreiros.
Fomos, ao nascer, condenados a amar a diferença.
A amar os diferentes.
Viemos da margem.
Somos a anti-sinfonia
que estorna da estreita pauta da melodia.
Não cabemos dentro da moldura…
Somos dilacerados como todos os filhos da paixão.
Briguentos. Desaforados. Unidos. Livres:
como meninos de rua.
Quando o inimigo não fustiga
inventamos nossas próprias guerras.
Desenvolvemos um talento prodigioso para elas.
Com nossas mãos, sonhos, desavenças compomos um rosto de peão,
uma voz rouca de peão,
o desassombro dos peões para oferecer ao país,
para disputar o país.
Por sua boca dissemos na fábrica, nas praças, nos estádios
que este país não tem mais donos.
Em 84 viramos multidão, inundamos as ruas,
somamos nosso grito ao grito de todos,
depois gritamos sozinhos
e choramos a derrota sob nossas bandeiras.
88. Como aprender a governar,
a desenhar em cada passo, em cada gesto,
a cada dia a vida nova que nossa boca anunciou?
89. Encarnamos a tempestade.
Assombrados pela vertigem dos ventos que desatamos.
Venceu a solidez da mentira, do preconceito.
Três anos depois, pintamos a cara como tantos
e fomos pra rua com nossos filhos
inventar o arco-íris e a indignação.
Desta vez a fortaleza ruiu diante dos nossos olhos.
E só havia ratos depois dos muros.
A fortaleza agora está vazia
ou povoada de fantasmas.
O caminho que conduz a ela passa por muitos lugares.
Caravanas: pelas estradas empoeiradas,
pela esperança empoeirada do povo,
pelos mandacarus e juazeiros,
pelos seringais, pelas águas da Amazônia,
pelos parreirais e pelos pampas, pelos cerrados e pelos babaçuais,
mas sobretudo pela invencível alegria
que o rosto castigado da gente demonstra à sua passagem.
A revolução que acalentamos na juventude faltou.
A vida não. A vida não falta.
E não há nada mais revolucionário que a vida.
Fixa suas próprias regras.
Marca a hora e se põe de nós, incontornável.
Os filhos da margem têm os olhos postos sobre nós.
Eles sabem, nós sabemos que a vida não nos concederá outra oportunidade.
Hoje, temos uma cara. Uma voz. Bandeiras.
Temos sonhos organizados.
Queremos um país onde não se matem crianças
que escaparam do frio, da fome, da cola de sapateiro.
Onde os filhos da margem tenham direito à terra,
ao trabalho, ao pão, ao canto, à dança,
às histórias que povoam nossa imaginação,
às raízes da nossa alegria.
Aprendemos que a construção do Brasil
não será obra apenas de nossas mãos.
Nosso retrato futuro resultará
da desencontrada multiplicação
dos sonhos que desatamos.

Pedro Tierra
1994

* Pedro Tierra nasceu Hamilton Pereira, em Porto Nacional (TO). Capturei o poema em Carta Maior, que o publicou em 2010. Foi lido quando artistas e intelectuais se reuniram no Teatro Casagrande, no Rio de Janeiro, em apoio à candidatura de Dilma presidenta.


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s