Batam panelas, mas não joguem a democracia no lixo

A presidenta Dilma Roussef sanciona a Lei que torna o assassinato de mulheres crime hediondo - Foto: Ricardo Stuckert Filho/PR
A presidenta Dilma Roussef sanciona a Lei que torna o assassinato de mulheres crime hediondo – Foto: Ricardo Stuckert Filho/PR

 

por Sulamita Esteliam

A Lei do Feminicídio, que torna crime hediondo o assassinato de mulheres, recebeu sanção da presidenta da República, Dilma Roussef, nesta segunda. Conforme antecipou no pronunciamento em cadeia nacional, na noite do domingo, Dia Internacional da Mulher. A fala presidencial, e sua repercussão, no início da semana de trabalho, é assunto obrigatório, portanto.

Dilma se dirigiu às mulheres para falar à Nação brasileira, explicar as medidas amargas do ajuste fiscal, “necessárias” diante da crise internacional que se agrava. Garantiu que os direitos dos trabalhadores e as políticas sociais serão preservadas, e que a conta do equilíbrio será dividida com outras camadas da sociedade brasileira.

Enfim, prestou contas, explicou a posição do governo, reconheceu que o momento exige “algum sacrifício de todos”, e pediu união e paciência às famílias brasileiras. Falou das medidas de combate à corrupção e anunciou a sanção da Lei do Feminicídio nesta segunda – mais aqui no bloque.

Assistimos, concentrados, aqui em casa. Euzinha, meu companheiro, nossa caçula e alguns amigos dela, que passaram o dia aqui em casa.

A meu ver, a presidenta foi didática, pediu e passou confiança, com serenidade. E argumentou que o diabo não é tão feito como pinta a oposição e a mídia venal. E registrou a intolerância que conduz as críticas exacerbadas ao seu governo: “Não são justas”.

Demorou. A presidenta tem que falar sempre, e mais, e diretamente à população.

Que a “elite branca” e a classe média manietada (definição do ex-governador paulista, Cláudio Lembo/DEM) paulistana, carioca e belo-horizontina batam panelas (aqui em Boa Viagem não se ouviu nada além do barulho da chuva torrencial que caiu sobre o Recife, pelo terceiro dia consecutivo).

O que não pode é jogar no lixo a democracia – #impitmaMeuZovário!

Aliás, a presidenta Dilma falou sobre o direito de manifestação, em coletiva de imprensa na tarde de hoje:

A sociedade brasileira não aceitará rupturas e acho que nós amadurecemos o suficiente para isso. Eu acredito que qualquer manifestação vai ter a característica que tiver seus convocadores. Mas ela, em si, não representa a legitimidade de pedidos que rompam a democracia”, afirmou, rechaçando o “terceiro turno” eleitoral.

Compartilho o vídeo da fala presidencial; para ficar o registro – e dar a oportunidade para quem não viu – seja porque não pôde, ou não quis, ou bateu panelas, poder fazê-lo:

 

 

De tudo que li pela blogosfera sobre o pronunciamento, fico com a lucidez interpretativa de Luciano Martins Costa, no Observatório de Imprensa.

Trata-se de seu comentário para o programa radiofônico do OI. Transcrevo a abertura e o fecho do texto. Clique no título abaixo para ler a íntegra:

A imprensa bate panelas

por Luciano Martins Costa

 

“Os jornais de segunda-feira (9/3) fornecem um material precioso para a análise do processo que vimos observando, cuja principal característica é uma ruptura entre o chamado ecossistema midiático e o mundo real. O noticiário e os penduricalhos de opiniões que tentam lhe dar sustentação têm como fato gerador o pronunciamento da presidente da República em rede nacional da TV, mas o que sai nos jornais com maior destaque é a reação de protesto que partiu das janelas de apartamentos nos bairros onde se encastelam as classes de renda média e alta das grandes cidades.

(…)

O leitor que não reflete sobre aquilo que lê, compra pelo que lhe é oferecido tanto a ideia de que a “população brasileira” está contida nas regiões onde se concentra o bem-estar, quanto a tese de que a economia nacional foi para o abismo.

O ruído das panelas e os palavrões na boca dos privilegiados são a língua culta da ignorância, mas não se pode condenar liminarmente quem não teve a oportunidade de se educar para a cidadania. A midiotice é moléstia que afeta principalmente a consciência social do paciente. Mas a circunstância não facilita apreciações sobre essa questão, mesmo porque nossa produção intelectual em torno de política e sociologia empobreceu drasticamente desde que a universidade resolveu higienizar o marxismo dos fundamentos do conflito de classes.

Aqui tratamos das responsabilidades da imprensa, e o episódio serve bem para ilustrar o que tem sido objeto de nossas observações: a mídia tradicional tange seu gado – o rebanho dos midiotas – na direção da irracionalidade.

O ato de bater panelas vazias sempre foi uma expressão daqueles a quem faltava alimento. Os abastados abestados se apropriam desse símbolo sem mesmo saber o que significa. Em torno dos edifícios onde os direitos são medidos pelo valor do metro quadrado, a maioria silenciosa não bate panelas.”

****************

Postagem revista e atualizada em 10.03.2015, à 00:16 hora: inclusão da fala presidencial em coletiva de imprensa, na segunda-feira, 09 – parágrafos 9º e 10º,


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