O preço do silêncio e da confissão

por Sulamita Esteliam

Sim, andei focada no umbigo a semana que passou. Razões amplamente justificadas e já referidas aqui. Entretanto, não me furtei a acompanhar os acontecimentos – pela blogosfera e redes sociais, naturalmente.

Mas, menino, abriram a Caixa de Pandora, e saiu caruncho para todo lado; sobrou até para bico de tucano velho e para a ex-toda-poderosa Plim-Plim, ora veja só!

É o que Euzinha sempre digo, nada como o tempo…

Não, não tenho pena da Míriam Dutra. Ela fez suas escolhas.

Mas tem a minha solidariedade, como mulher e como colega. Ela não é a única, nem será a última a cair na esparrela – também dentre jornalistas, de veículos diversos, e igualmente na seara global. Algumas histórias são públicas, outras são veladas, poucas têm finais felizes.

Pouco se me dá quem dorme com quem. Mas a importância das confissões de Míriam não está no privado, nem para o caráter de seu ex-amante, de notório saber, a despeito da hipocrisia, do cinismo, e do encobertamento reinante.

O que importa é o lastro que seu depoimento fornece para a conexão com a coisa pública, inclusive no que toca à emissora concessionária que lhe pagava o salário. Sim, FHC, o vestal, fez mais no exercício da Presidência da República do que vender o Brasil; ele prevaricou, para além do limite da responsabilidade.

E o país, ainda hoje, paga o preço. Míriam parece ter clareza disso.

 

Ent_ Mirian Dutra_Brazil comZ -100

Jamais tivemos intimidade, mas fui contemporânea dela em Brasília, na cobertura do Ministério da Fazenda, antes de FHC se tornar ministro – o que se deu em maio de 1994. Esta velha escriba ainda era produtora externa da extinta TV Manchete, quando ela retornou da licença maternidade, início de 1992, se não me falha a memória. Logo depois eu também iria para a reportagem, e nos cruzamos várias vezes também no Congresso Nacional.

Míriam, então, fazia a cobertura noturna para o Jornal da Globo. Era discreta e de pouca conversa. Mas contou quando decidiu que iria para Portugal. Estava cansada de tudo aquilo. O “tudo”, a gente imaginava o que fosse. FHC acabara nomeado por Itamar para o Ministério das Relações Exteriores, não havia mais espaço para ela na cobertura do governo.

Hoje é uma mulher madura, que por mais atormentada que esteja, sabe que foi cúmplice de uma situação que a colocou no cativeiro. Tem consciência do impacto e das consequências de sua decisão de abrir o bico depois de 30 anos de aguerrido, e calculado, silêncio.

Jornalista experiente, conhece de perto os meandros da notícia, e dos escândalos. É como meada, enquanto houver fio para puxar…

E haja fio.

O risco de falar, pois, foi calculado, desde a escolha do veículo. Na mídia brasileira, venal, ela sabe, a chance do engavetamento seria grande. Buscou um meio alternativo, sucesso entre brasileiros no exterior, por via impressa e digital: a Revista Brazil com Z, editada na Espanha, país onde vive, desde 1998, “exilada”, segundo define. É capa da edição 100, comemorativa.

Contava despertar, por tabela, o apetite do PIG, que conhece tão de perto. E claro, com a inevitável e tsunâmica repercussão na blogosfera, redes sociais incluídas. Até porque, a história de seu relacionamento com FHC, que teria resultado em um filho, até os gramados da Esplanada dos Ministérios o sabia.  A confirmação é a notícia.

A pergunta que não quer calar é, por que agora?

Na entrevista que concedeu à Brazil Com Z, ela diz que é porque foi demitida da TV Globo. Claro que, nas condições em que vivia, recebendo salário para ficar na geladeira – isso é assédio moral em última instância -, a dispensa foi a carta de alforria, para ela. Para a Globo foi atestado de burrice, já está na história, enredada até a medula.

À Folha SP, ou Falha, que noticiou o furo da revista, e depois correu atrás para aprofundar, disse que não quer morrer “e isso ficar na tumba”. Ao DCM, que iniciou com ela uma série de reportagens sobre “o negócio” da reeleição de FHC, manteve a explicação e agregou outra: desfazer “as mentiras” que circularam sobre ela, o incômodo de passar história como “rameira”, conforme era tratada nas especulações.

homembomEm contrapartida, FHC é o bonzinho…

Não, não me perfilo com quem aponta o dedo para acusá-la de oportunismo, arrivismo,vingança ou coisa que o valha. É puro machismo, que atribui à mulher a culpa exclusiva pelas safadezas dos homens.

Por outro lado, a convivência próxima ao poder, como acontece com jornalistas, traz riscos evidentes. Um deles é você se achar parte do poder. Aí, torna-se prepotente, e acaba pena de aluguel. O outro é deixar-se levar pelo coração. Creio que foi o que aconteceu com Míriam. Só depois, ela acabou conivente com as ilegalidades que sustentaram seu silêncio, e a criação de seus filhos.

Na origem do problema, todavia, não foi a jornalista que se apaixonou pelo político, um senador da República, assumindo vaga de suplência, Fernando Henrique Cardoso. Foi a jovem mulher que se encantou com um janota 30 anos mais velho, casado e metido a sedutor. Gosto não se discute.

Em nome do amor, sujeitou-se a ser “a outra”, anos a fio. Assim como a falecida Ruth, a esposa, certamente engolia suas dores para fazer-se de cega para as aventuras do marido. Amor? Conveniências – sociais, familiares,  patrimoniais, políticas?

Em nome do amor, Míriam sujeitou-se a dois abortos. Até se convencer de que o sujeito era um poço de vaidades, um ególatra, um crápula. Tentou pular fora, e só conseguiu depois de uma nova gravidez, a terceira – que ele também se recusou a assumir, mas ela decidiu ter.

Apesar dos exames de DNA negativos, ela sustenta que o filho é de FHC. Afirma, ainda, que ele jamais assumiu a paternidade, como ele afirma e pinta a mídia venal. Ainda que tenha financiado os estudos do rapaz, comprado um apartamento e um carro para ele.

Em nome dos filhos – ela tem uma moça do primeiro casamento -, ou em nome próprio, segurou o tranco. Mentiu, se autoexilou, aceitou a penitência do silêncio e mais o desterro, da pátria e da profissão.

Imagino o quanto de coragem ela teve que buscar nas brenhas do seu interior para botar a boca no trombone.

Então, ligou para a colega Fernanda Sampaio, da revista Brazil com Z e anunciou: “Estou pronta”.

 

 

 

 

 

 

 

 

 


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s