Vox Populi constata: o povo não é midiota

I Confecom_blog eduguimpor Sulamita Esteliam

Imparcialidade, ou isenção, no Jornalismo, mesmo o digno do nome, é mito. É história da carochinha que nos contam na escola – nós que cursamos uma faculdade de Comunicação neste segmento – sem o menor contato com a realidade.

Sei que professores de Jornalismo que, eventualmente, me leem podem discordar, frontalmente. Com a mesma intensidade do olhar surpreso que me devolvem alunos que vez por outra me ouvem.

Pois digo, repito, e não me cansarei de fazê-lo, que a parcialidade começa na definição da pauta. Quando se escolhe cobrir este ou aquele assunto, já se está sendo parcial. E assim vai com a seleção das fontes, a escolha do viés, a edição, o destaque, etc, etc…

Um exemplo crasso: a Globo transmite ao vivo uma manifestação coxinha com 100 gatos pingados, e ignora um protesto contra o golpe com milhares no Anhagabaú. Por quê? Porque ela é parte do golpe, e não há a menor pretensão em ser sutil.

Outro exemplo: a Folha dá manchete sobre a delação que envolve um petista qualquer, mas remete ao pé de página a notinha sobre a denúncia de recebimento de propina pelo Aécio Neves ou Temer.

Quer mais um? Agrego um PS, depois do que li há pouco no Jornal GGN, do Luis Nassif: a Força Tarefa da Lava Jato vazou delação do que seria “o envolvimento” do Lula numa operação da construtora Andrade Gutierrez na Venezuela. Foi publicada pelo Estadão, dia 29 de junho.

O título fala em detalhamento de propina. A matéria segue esse curso mostrando “detalhes” de que Lula teria ajudado a burlar concorrência internacional da qual parcipavam a construtora brasileira e outra italiana.

Só e tão somente no final se descobre que as licitações no país vizinho funcionam por indicação de governos. O então presidente da República agiu como governo para indicar a Andrade Gutierrez, assim como o governo da Itália indicou a empresa daquele país.

Então, a delação, antes de acusar, inocenta Lula. Mas só fica sabendo que lê a matéria inteira.

Aconteceu, virou notícia? Depende de vir ao caso…

Pois é. O que se pretende como isenção é, no máximo, a  verdade dos fatos – o que, quem, onde, como e por quê – e o equílibrio no relato, ouvindo-se as partes envolvidas.

Correção é regra básica, e não é o que se vê por aqui… E a TV , as emissoras de rádio, os portais, os jornais e a revista dos Marinhos não estão sozinhos.

Assim, não inventei a roda. Basta se dar ao trabalho de acompanhar, minimamente, a imprensa nativa que alguns ainda insistem em chamar de “grande”. Em quaisquer segmentos.

Se verificarmos bem de perto, advérbio ou adjetivo, é duvidoso, qualquer que seja sua posição ou função: pré- ou pós-substantivo, quantitativa ou qualitativa.

Nem “grande mídia” nem imprensa “grande”. Imprensa conservadora, convencional, comercial. Mídia venal, que atua segundo seus próprios interesses, nem sempre confessáveis.

É claro que a imprensa, a mídia pode ter lado, sempre teve. Mas há que ter transparência. A blogosfera progressista, os blogues “sujos”, como este A Tal Mineira, ainda que anão, têm lado, e o explicitam.

A imprensa dita “grande” vende gato por lebre, e acha que se locupleta.

Pesquisa recente do mineiro Vox Populli mostra que não é bem assim. A credibilidade anda de ponta-cabeça.

O povo não é bobo.

A respeito, transcrevo artigo do sociólogo Marcos Coimbra, presidente do instituto e colunista da Carta Capital, dentre outros veículos impressos no País:

 

A imagem da mídia

Nunca as empresas de comunicação foram tão mal avaliadas no quesito imparcialidade, revela pesquisa CUT/Vox Populi
A pesquisa Permite identificar como a população compara a Presidência de Dilma Rousseff com o que foi feito por Michel Temer até agora - Fotos: Roberto Stuckert Fo/PR e Lula Marques/AGPT
A pesquisa Permite identificar como a população compara a Presidência de Dilma Rousseff com o que foi feito por Michel Temer até agora – Fotos: Roberto Stuckert Fo/PR e Lula Marques/AGPT

A mais recente pesquisa CUT/Vox Populi mostra que entre os mortos e feridos pela crise política a dita grande mídia é uma das vítimas. Nos últimos 50 anos, sua imagem de isenção e imparcialidade nunca esteve tão em baixa.

Realizada entre os dias 7 e 9 de junho, a pesquisa caracterizou atitudes e sentimentos da opinião pública um mês após a posse de Michel Temer. Permite, portanto, identificar como a população compara a Presidência de Dilma Rousseff com a situação atual.

A respeito da mídia, havia duas perguntas. A primeira solicitava uma avaliação do modo como emissoras de televisão, jornais e revistas discutiram o governo Dilma: se foi “com imparcialidade, apenas relatando fatos”, se a trataram de forma “crítica demais” ou “favorável demais”. A segunda, quanto ao governo Temer, era igual.  

Em relação a nenhum dos dois, a proporção daqueles que dizem que a mídia foi ou tem sido “imparcial” é majoritária. Apenas 43% acham que Dilma Rousseff foi retratada com neutralidade, enquanto 49% afirmam que Temer é assim apresentado.   

Desde quando se fazem pesquisas sobre a imagem dos meios de comunicação, nunca vimos números tão ruins: mal chega à metade a parcela da população que a considera equânime a propósito do último ou do atual governo.

A pesquisa não revela somente seu mau desempenho nos atributos “isenção” e “apartidarismo”. O problema é maior.

A respeito do governo Dilma, 44% dos entrevistados consideram que os veículos de comunicação foram críticos “demais”, enquanto apenas 14% têm a mesma percepção do comportamento da mídia em relação ao governo de Michel Temer. Inversamente, 25% dos entrevistados afirmaram que os meios são favoráveis “demais” ao peemedebista, proporção que cai para 6% quando se trata da petista. 

Isso nada tem a ver com as características “objetivas” do noticiário. Não custa lembrar que o levantamento foi realizado quando o foco havia saído dos percalços do governo Dilma e se concentrava nas crises do interino. Ainda assim, os entrevistados mostraram-se capazes de identificar o “lado” da mídia: “Crítica demais” à petista e “favorável demais” ao pemedebista. 

Não é, portanto, a quantidade de notícias negativas contra Temer (que era abundante) ou Dilma (que era menor nos dias de realização da pesquisa) a definir o “lado” enxergado pelos entrevistados. A identificação vem da percepção de um “excesso”, a favor ou contra, traduzido no advérbio de intensidade.

O sentimento de que emissoras de televisão, jornais e revistas têm um viés negativo sistemático é especialmente intenso em alguns segmentos da sociedade, como se constata nas variações regionais e socioeconômicas das respostas relativas a Dilma. No Nordeste, apenas 37% dos entrevistados afirmam que a mídia foi justa com ela, enquanto 57% a consideram “crítica demais”. Entre as mulheres, as proporções são de 39% e 46%, com clara vantagem da percepção de facciosidade, quase exatamente os mesmos números registrados entre os jovens (39% e 45%) e os cidadãos com menor escolaridade (39% e 46%).

Só existe um segmento da população que parece acreditar na imparcialidade dos meios de comunicação em relação a Dilma: os antipetistas. Entre os 27% que rejeitam o PT, 63% têm essa opinião. Isso também significa que, até entre esse grupo, 22% não consideram os veículos isentos. 

Constatar ser esta a imagem da autointitulada “grande imprensa” é relevante no momento em que o governo interino anuncia a intenção de suspender os investimentos nos veículos desvinculados dos oligopólios de comunicação e acena com o fechamento da EBC, única inciativa pública de expressão no setor.  

O argumento de serem mídias “políticas”, enquanto os oligopólios seriam “neutros”, é pueril. A população não acredita nessa versão. É minoritária a parcela daqueles que consideram “apartidários” os meios de comunicação. Em alguns segmentos, é amplamente majoritária a percepção da cobertura enviesada.   

Esse dado importa pouco, porém. O governo interino apenas paga uma das muitas contas que precisa acertar com quem o viabilizou. Mesmo com a imagem arranhada, a mídia tradicional quer ser única. 

****************

Postagem atualizada às 18:23 horas: inclusão de PS no corpo do texto de abertura, parágrafos sexto ao nono.

Um comentário

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s