Terça é dia de povo na rua… sob as bençãos de Obaluaê

por Sulamita Esteliam

Vou começar com o vídeo de reportagem internacional, da TV Al Jazeera, a partir do Youtube. Não se preocupe, está legendado.

Agora vamos à agenda de mobilizações desta parte do planeta sob o governo golpista.

Os trabalhadores e trabalhadoras do Brasil, reunidos em seus sindicatos, centrais sindicais e/ou organizações dos movimentos sociais da cidade e do campo estão nas ruas País afora nesta terça-feira, 16 de agosto.

Nas capitais, há várias atividades ao longo do dia, com a manifestação maior se concentrando em frente às sedes das federações patronais, como a Fiesp em São Paulo.

Em Beagá, segue-se a tradição, Praça Afonso Arinos, a partir das 16 horas. No Rio, no Boulevard Olímpico da Praça Mauá, às 10:00 horas. Em Salvador, em frente à Federação das Indústrias da Bahia, às 9:00 horas.

No Recife, não haverá passeata, e sim um ato público, que reúne as centrais sindicais e as frentes Povo Sem Medo e Brasil Popular, às 17:00 horas, na Pracinha do Diário ou Praça da Independência.

A agenda de atividades, entretanto, é extensa e abrange todo o dia, focada na defesa dos direitos.

Começa com assembleia dos petroquímicos às seis da manhã, em Suape/Ipojuca-Cabo. Passa por ato público dos trabalhadores na agricultura, no Parque de Exposições do Cordeiro, onde fica a Secretaria de Estado da Agricultura, também pela manhã. Prossegue com aula pública do líder dos sem-teto e da Frente Povo Sem Medo, Guilherme Boulos, na UFPE, no início da tarde.

Depois do ato central, no fim da tarde, também com a presença de Guilherme Boulos, ainda tem atividade. Desta vez, promovida pelos bancários, em defesa dos bancos públicos, com palestra do sociólogo Emir Sader, às 19:00 horas, no auditório do sindicato da categoria, na Boa Vista.

Haja fôlego.

Talvez fosse mais producente concentrar nas atividades massivas, de rua, que podem atrair o povo em geral, para além da militância – além de render mídia, a venal, nem que seja para apontar problemas.

Certo, é Dia Nacional de luta: em defesa do emprego e pela garantia dos direitos trabalhistas e previdenciários. Reúne, onde é possível, todas as centrais sindicais. Em São Paulo, engaja as oito centrais. Aqui em Pernambuco, além da CUT, estão a Conlutas, a CTB, a Força Sindical e a UGT.

Nenhuma palavra sobre o golpe.

No Mineirão, sexta-feira, 12 de agosto de 2016. Em campo, as seleções femininas do Brasil e da Austrália. Foto capturada no sítio da CUT-MG
No Mineirão, sexta-feira, 12 de agosto de 2016. Em campo, as seleções femininas do Brasil e da Austrália. Foto capturada no sítio da CUT-MG

Alguém desavisado imagina: como assim, se o golpe parlamentar-jurídico-midiático, travestido de impeachment, é a fonte principal da ameaça que avança sobre as conquistas da classe trabalhadora e da gente humilde deste País, finalmente alcançada pelas políticas sociais!?

Por via das dúvidas, por telefone, fiz a pergunta ao presidente da CUT Pernambuco, Carlos Veras.

“É o que nos unifica. Há centrais que apoiam o impeachment, e estamos na construção de uma greve-geral e precisamos juntar forças. Mas é para toda a sociedade participar, todos os que são contra o golpe.”

Pronto. É assim que a banda toca.

A divulgação é manca, nacionalmente. Mesmo contando com as equipes de cada sindicato, com as redes sociais e com os blogues que estão na batalha contra o golpe e pela Democracia.

Veras admite que falta perna, não obstante. Uma coisa é organizar uma grande manifestação por mês. Outra é trabalhar uma agenda múltipla, com atividades semanais, ou até mesmo diárias. E sem contar com a divulgação massiva, ou seja, das mídias convencionais.

“A grande mídia trabalha o tempo todo pela criminalização dos movimentos e na desconstrução dos direitos da esquerda. Na verdade. remamos contra a maré.”

Sim, há uma certa descrença; há quem considere o impeachment, travestido de golpe, fato consumado. A lavagem cerebral midiática alcança indiscriminadamente.

Pergunto sobre por que não usar a força cultural de Pernambuco nas manifestações para atrair o povo não-engajado. Aonde estão os artistas pernambucanos?

“Infelizmente, faltam recursos para pagar, e não temos podido contar com eles, como no Rio se conta com um Chico Buarque e outros…”

Será que em Minas, em São Paulo e Salvador, os artistas têm cobrado cachês para participar dos atos? Devo confessar que não sei, mas acredito que não.

Nesses locais, ainda que menores, em relação às grandes manifestações de março, abril, maio e junho, as mobilizações têm, comparativamente, mais participativas; embora não o suficiente.

Será que vamos, mesmo, nos quedar perplexos e paralisados, como em 1989? O blogueiro Arnóbio Rocha, que também é escritor, pergunta em postagem reflexiva: 1989, É Para Sempre? O cabra é bom, e tem feito reflexões importantes; confira.

Enquanto isso, o desgoverno provisório tratora direitos e conquistas feito peste bubônica – aquela denominada “peste negra”, que dizimou a Europa nos séculos XIII e XIV, e seguiu fazendo estragos por muito tempo.

Assemelham-se os atos do desgoverno temeroso, com a cumplicidade das instituições que deveriam defender a democracia e o império da lei. A começar pelo nosso direito ao voto, e pelos direitos constitucionais da presidenta da República, legitimamente eleita.

Certamente não foi pelo aniversário de nascimento do comandante cubano Fidel Castro, 90 anos neste 2016, que a data 16 de agosto foi escolhida para a manifestação em defesa dos direitos e conquistas.

Mas ponho-me a imaginar: se Sierra Maestra dependesse do empenho das nossas esquerdas e dos sindicatos o que seria de la Revolución na História da América Latina e do Caribe…?

Também não creio que  escolha da data tenha motivação mística ou religiosa. Nossos bravos e bravas comandantes não se apegam a tais meandros.

Embora, pelo andar da carroça, desembestada rumo ao abismo, talvez até fosse recomendável apelar pela intervenção das forças do Universo.

O 16 de agosto é Dia de São Roque, no calendário religioso católico, e de Obaluaê ou Omulu, nestas plagas, no sincretismo com a Umbanda e o Candomblé. Foi nesta data que o Roque morreu, numa prisão no interior da França, onde foi parar confundido com um espião.

Era a época da primeira “peste negra” e o andarilho que havia se tornado, após despojar-se de seus bens e distribui-los pela pobreza, dedicou-se a cuidar das vítimas da pandemia.

Santo ou Orixá, reza a crença que a entidade cuida dos males do corpo: protege os inválidos – e também os cirurgiões; defende contra a peste e as epidemias de modo geral. É senhor da morte, e portanto da vida.

O Brasil está doente, necessita de cura.

Precisamos da Misericórdia Divina, e São Roque bem que pode dar uma mãozinha.

Atotô, Obaluê! Atotoó, Omulu! Atotô, Baba!

Hay que manterner viva la esperanza!

Contra o escárnio e a descrença, atitude.

 

 

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Postagem revista atualizada dia 16.08.2016, às 7:28: correção no parágrafo 16: cargo do dirigente da CUT; acréscimo do parágrafo 22 e nos parágrafos 27 e 29; correção de erros de digitação e pontuação em diferentes parágrafos.

 

 


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