O Senado consuma o golpe: depõe a primeira mulher presidenta do Brasil

Dilma Vanna Roussef, primeira mulher presidenta do Brasil é deposta por golpe parlamentar em 31 de agosto de 2016 - Foto: Roberto Stuckert Filho/PR
Dilma Vanna Roussef, primeira mulher presidenta do Brasil é deposta por golpe parlamentar em 31 de agosto de 2016 – Foto: Roberto Stuckert Filho/PR
por Sulamita Esteliam

O golpe contra a Democracia está consumado. É parlamentar, mas é golpe.

A maior prova de que o Senado Federal consumou um golpe parlamentar ao caçar o mandato da presidenta Dilma Rousseff, nesta quarta-feira, 21 de agosto de 2016, é que não teve coragem de retirar-lhe os direitos políticos.

Significa que Dilma pode, se quiser, candidatar-se novamente em 2018 ou qualquer outra época. Já o usurpador-traíra, seu ex-vice, agora sucessor, é ficha suja, e não pode. Teoricamente, por que quem dá um golpe, pode dar outro.

Uma mulher de reputação ilibada, inocente, a primeira ocupar a Presidência da República no Brasil, reeleita com 54,5 milhões de votos, foi deposta por um bando de parlamentares atolados até o pescoço em falcatruas de toda natureza.

E ainda reclamam de serem chamados de “canalhas”. Como fez o senador Lindbergh Farias (PT-RJ), a repetir o colega Roberto Requião em falas anteriores. O bordão é de Tancredo Neves, avô do tucano Aécio, o derrotado nas urnas que é parte da urdidura do golpe.

Tancredo, um democrata, a despeito da pele felpuda, o fez no discurso de protesto contra a consolidação do golpe civil-militar de 1964; quando o Congresso declarou vaga a Presidência da República ainda com João Goulart em território nacional.

“Canalhas, canalhas, canalhas!”, repetira o deputado, que fora primeiro ministro de Jango, na breve experiência parlamentarista do Brasil, em 1961.

Nesta tarde, o neto não gostou da comparação, e usou a palavra para lembrar a tradição democrática do avô – com quem, diga-se, aprendeu nada. Mesmo peixe ensaboado que era, Tancredo Neves foi poupado de constatar em vida a vileza do caráter do neto amado.

Para quem não conhece os bastidores da História da breve redemocratização do Brasil, recomendo a leitura do livro-reportagem O Complô que Elegeu Tancredo, de autoria de alguns jornalistas de peso na época, dentre eles o pernambucano Ricardo Noblat. Quem te viu e quem te vê…

Voltemos à consumação do golpe. Eles e elas, os 61 senadores e senadoras que votaram pelo impedimento, sabem que Dilma Vana Rousseff não cometeu crime de responsabilidade.

A sede de poder é que move a fraude, e mais uma vez digo que vão quebrar o pote. Passam à História como covardes e golpistas. E a História é inexorável, não perdoa os covardes.

Fato é que o Brasil não se livra da vocação golpista de suas elites. De um golpe nasceu a República. De golpe em golpe se fez nossa jovem Democracia, que é novamente posta fora de cena. Já ia escrevendo de combate, mas a luta continua.

É claro que Dilma vai recorrer da decisão. É claro que os protestos seguem nas ruas. Hoje mesmo; as ruas de seis capitais fervem no momento em que escrevo. Se vai despertar a maioria silenciosa e surtir efeito, é outra história.

Enquanto isso, o usurpador Michel Temer, que era vice da presidenta eleita, assume o poder em definitivo – ou não. A posse se deu na tarde desse dia, o primeiro do Brasil rumo às trevas do precipício social e político.

Temer assume e viaja em seguida para Pequim, onde se dá encontro do G-20. Rodrigo Maia (DM-RO), presidente da Câmara, assume a função até que ele volte.

O Brasil não merece. Mas é assim que a banda toca.

laerte

Foram 135 dias de calvário para Dilma Vana Rousseff, apenas para ficar no período de tramitação do pedido de impeachment – da Câmara até o Senado Federal.

Dilma não suicidou, não bandeou nem renunciou. Mesmo deposta, segue na resistência. Não haverá trégua para os golpistas: “Voltaremos!” É sua promessa no discurso de despedida, cuja íntegra está na próxima postagem.

Desta vez, não se precisou dos militares. Dispensaram as armas. Urdiram e consolidaram a trama, revestindo-a de aparente legalidade. Contou com o auxílio afoito da mídia, e de parte do sistema de Justiça.

Homens de terno preto, cinza, azul marinho, brancos, maduros e velhos, com bochechas reluzentes de botox. E mulheres de cabelos armados e visual ruidosamente apropriado para a ocasião. Patriotas de fachada. Moralistas de ocasião. Hipócritas em sua maioria.

Pobre Brasil, reduzido mais uma vez a uma republiqueta de bananas.

Pobre de sua gente trabalhadora, que tem seus direitos à beira do abismo. Pobre da gente humilde que mal saiu do estado de indigência.

Pobre daqueles, iludidos, que apoiam e até comemoram a violação. Se você não é parte do poder está fora dele.

Bendita classe média midiotizada. Mais dia, menos dia, o chicote vai sobrar também para o seu lombo. Mas você não aprende.

A bancada do PT, a maior dentre a minoria de esquerda na Casa Legislativa chamada Câmara Maior, abriu a fase de hoje da sessão de julgamento, com um pedido de destaque sobre a redação do termo sobre o qual os senadores deveriam votar.

Em síntese, a Lei 1079/1950, a mesma sobre a qual se definiu o rito do impeachment, desde o início do processo, em seu artigo 66, preconiza duas votações para a fase final do julgamento: a primeira sobre a perda do mandato, em havendo crime de responsabilidade; a segunda sobre a perda dos direitos políticos. Em ambos os casos, é preciso maioria de 2/3.

O presidente Ricardo Lewandowisk acatou, após alguma discussão com os argumentos pró e contra dos dois lados. E o fez com base também no regimento interno da casa. A situação aliada ao desgoverno, até então provisório, chiou, rangeu os dentes. Mas foi pega no contrapé.

A ironia é que a possibilidade de destaques numa mesma sessão, após esgotados o período de discussão, é emenda recente às normas da casa. Apresentada por ninguém menos que Ronaldo Caiado, o escravocrata, e aperfeiçoada pelo senador Jorge Vianna (PT-AC).

Nas duas votações, disseram não ao impeachment e à perda de direitos políticos apenas 20 senadores e senadoras: PT, PCdoB, PTB e Rede, mais as ovelhas desgarradas: duas do PMDB, duas do PSB, uma do PP e outra do PSD. O mesmo batalhão leal do princípio ao fim:

  1. Angela Portela – PT-RR
  2. Armando Monteiro – PTB-PE
  3. Elmano Férrer – PTB-PI
  4. Fátima Bezerra – PT-RN
  5. Gleisi Hoffmann – PT-PR
  6. Humberto Costa – PT-PE
  7. João Capiberibe – PSB-AP
  8. Jorge Viana – PT-AC
  9. José Pimentel – PT-CE
  10. Kátia Abreu – PMDB-TO
  11. Lídice da Mata – PSB-BA
  12. Lindbergh Farias – PT-RJ
  13. Otto Alencar – PSD-BA
  14. Paulo Paim – PT-RS
  15. Paulo Rocha – PT-PA
  16. Randolfe Rodrigues – Rede-AP
  17. Regina Sousa – PT-PI
  18. Roberto Requião – PMDB-PR
  19. Roberto Muniz – PP-BA
  20. Vanessa Grazziotin – PCdoB-AM

Na segunda votação, o resultado foi de 42 x 36 votos e mais três abstenções. Três ex-ministros do governo Dilma, do PMDB, um do PSB, e mais o presidente do Senado, Renan Calheiros, os ditos indecisos, dentre eles os três que na véspera confirmaram voto “não”, e recuaram:  Acir Gurgacz, Hélio José e Telmário Mota.

Votaram pelo o impeachment 61 senadores e senadoras, incluindo o presidente do Senado, Renan Calheiros, sete a mais do que o necessário. Prova de que o “compromisso” dos 31 “convencidos” por Roberto Requião (PMDB) teve o mesmo destino da lista dos 180 deputados na fase de admissibilidade no plenário da Câmara.

O balcão de negócios foi mais eficaz.

Dentre os 36 que votaram contra a perda de mandatos, 16 estão na lista abaixo, assinados em verde. Os três que se abstiveram estão em laranja.

  1. Acir Gurgacz – PDT-RO
    Aécio Neves – PSDB-MG
    Aloysio Nunes – PSDB-SP
    Alvaro Dias – PV-PR
    Ana Amélia – PP-RS
    Antonio Anastasia – PSDB-MG
  2. Antonio Carlos Valadares – PSB-SE
    Ataídes Oliveira – PSDB-TO
    Benedito de Lira – PP-AL
    Cássio Cunha Lima – PSDB-PB
  3. Cidinho Santos – PR-MT
    Ciro Nogueira – PP-PI
  4. Cristovam Buarque – PPS-DF
    Dalirio Beber – PSDB-SC
    Dário Berger – PMDB-SC
    Davi Alcolumbre – DEM-AP
  5. Edison Lobão – PMDB-MA
    Eduardo Amorim – PSC-SE
    Eduardo Braga – PMDB-AM
    Eduardo Lopes – PRB-RJ
    Eunício Oliveira – PMDB-CE
    Fernando Bezerra Coelho – PSB-PE
    Fernando Collor de Mello – PTC-AL
    Flexa Ribeiro – PSDB-PA
    Garibaldi Alves Filho – PMDB-RN
    Gladson Cameli – PP-AC
  6. Hélio José – PMDB-DF
    Ivo Cassol – PP-RO
  7. Jader Barbalho – PMDB-PA
  8. João Alberto Souza – PMDB-MA
    José Agripino – DEM-RN
    José Aníbal – PSDB-SP
    José Maranhão – PMDB-PB
    José Medeiros – PSD-MT
    Lasier Martins – PDT-RS
    Lúcia Vânia – PSB-GO
    Magno Malta – PR-ES
    Maria do Carmo Alves – DEM-SE
    Marta Suplicy – PMDB-SP
  9. Omar Aziz – PSD-AM
    Paulo Bauer – PSDB-SC
    Pedro Chaves – PSC-MS
  10. Raimundo Lira – PMDB-PB
    Reguffe – Sem Partido-DF
  11. Renan Calheiros – PMDB-AL
    Ricardo Ferraço – PSDB-ES
  12. Roberto Rocha – PSB-MA
    Romário – PSB-RJ
    Romero Jucá – PMDB-RR
    Ronaldo Caiado – DEM-GO
  13. Rose de Freitas – PMDB-ES
    Sérgio Petecão – PSD-AC
    Simone Tebet – PMDB-MS
    Tasso Jereissati – PSDB-CE
  14. Telmário Mota – PDT-RR
    Valdir Raupp – PMDB-RO
  15. Vicentinho Alves – PR-TO
    Waldemir Moka – PMDB-MS
  16. Wellington Fagundes – PR-MT
    Wilder Morais – PP-GO
    Zezé Perrella – PTB-MG

A presidenta deposta volta para Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, onde mantém residência, e onde estão sua filha e netos. Merece alguns dias de descanso, antes de retornar ao campo de batalha.

Boa sorte, Dilma, querida. Seguimos na luta.

 

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Postagem revista e atualizada dia 01.09.2016, às 17:39 horas: correção de erros de digitação e de gramática em diferentes parágrafos; substituição de palavras repetidas ou inadequadas ao sentido da frase, também em diferentes parágrafos.


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