O Brasil não conhece sua presidenta, mas deve orgulhar-se de Dilma

Dilma no Senado_opor Sulamita Esteliam

Que o mundo inteiro esteja impressionado com a força e a altivez de Dilma Vana Rousseff ao enfrentar seus algozes no Senado Federal não é surpresa. Mas as reações de espanto, ainda que positivamente, de brasileiros e brasileiras ante a fibra da mulher que há cinco anos e meio assumiu o comando do País, me leva a constatar que o Brasil não conhece, ou não conhecia, sua presidenta da República.

Ou, talvez, as pessoas tenham se deixado levar pelo estereótipo forjado pela narrativa adversária e da mídia venal, sempre de má vontade para com Dilma, para dizer o mínimo – desde a campanha para a primeira eleição.

O repertório de classificação é extenso e muitas vezes contraditório: gerente, sargentona, exigente, mal-humorada, mandona, centralizadora, trapalhona, lenta, impaciente, teimosa, desprovida de retórica, sem apetite para a política … E por aí vai.

Desqualificações pessoais, físicas e morais. Calúnia e difamação, injúria, violência moral e psicológica. Isso, para não falar dos impropérios impublicáveis.

É…, nossa gente alegre, irreverente e acolhedora, pudica e religiosas muitas delas, sabe ser cruel e intolerante com as diferenças, todas.

A carga de preconceito, de machismo e misoginia, e, não raro, ódio, que perpassa atitudes e omissões no que se refere à presidenta é indissimulável, e não pode ser esquecida. E Dilma não esqueceu nada nem ninguém.

Já no discurso, desfiou tudinho, olho no olho de seus julgadores, boa parte deles envolvidos em malfeitos de toda sorte, incomodados com o epíteto de golpistas.

“Estou dizendo senador, que não cometi crime de responsabilidade. Os atos de que me acusam estão respaldados em lei. E se a Constituição prevê o impeachment, exige também que ele seja fundamentado num crime de responsabilidade. Por isso, se os senhores me condenarem à perda do mandato, sem crime de responsabilidade, estarão praticando um golpe. Um golpe parlamentar.”

Tentaram quebrá-la na emenda, desde sempre. Não foi diferente no Senado, nesta segunda, 29.

A reverência protocolar tão cara aos tribunais, e praxe em ambientes cerimoniais, soa farsesca. O verniz de civilidade e formalismo não é capaz de encobrir a hipocrisia, o deboche, a desfaçatez embutida ou explícita, o crime de lesa-pátria perpetrado pela farsa do julgamento.

Dilma aguentou firme 14 horas de inquisição, descontadas duas horas para almoço e jantar.  Até agradeceu “a orientação” do presidente Lewandowski para “evitar referir-se às ações do atual governo”. A presidenta usou a porta do lado para o dizer o necessário a cada resposta. Valeu-se da ironia para enfrentar os disparates.

Respondeu e tornou a responder as mesmas questões, dez, vinte, trinta vezes. Exercício de tolerância elevado à enésima potência. Foram 49 inscritos, mais a dupla de acusação.

A impressão que se tinha, e cheguei a comentar no Twitter, é de que suas excelências trouxeram os discursos na algibeira e deles fizeram uso, ipsis literis, alheios ao que era dito pela presidenta em sua própria defesa.

Minha avó diria, entra num ouvido e sai pelo outro.

Alguns chegam a ser risíveis em sua falta de senso, parecem desconhecer o que estão fazendo ali. Misturam julgamento com plataforma e campanha eleitoral. Querem promessas, benesses, trocas, afagos, atenção.

Dilma reconheceu que deveria ter dialogado mais, desculpou-se.

Em determinado momento de uma fala desconexa, o senador de Roraima, conhecido como “Petecão”, pede à presidenta que conte como fez “o pacto com o Diabo” para se reeleger. Como eles, Dilma fez de conta que não ouviu.

Outro, do Distrito Federal, foi e voltou em suas convicções da “existência de crime de responsabilidade” no processo em curso. Tudo no breve tempo de cinco minutos, que às vezes parecem intermináveis.

Alguém, creio que o senador Tião Viana, do Acre, colega de partido da presidenta, verbalizou nas redes sociais o que se passa pela cabeça de muita gente: “Quais as chances que a presidenta Dilma tem num tribunal como esse?”

Claro que Dilma está ciente do jogo de cartas marcadas. Em todas as ocasiões ao longo do dia, como nos últimos meses, desde a abertura do processo de impeachment pela Câmara fez questão de demonstrá-lo.

Repassou ponto por ponto do discurso inicial. Explicitou, esmiuçou, repisou, mostrou gráficos, apontou o dedo e até fez pilhéria com a pequenez de seus inquisidores. Desmontou um a um, uma a uma. Com todo o respeito. Recebeu os aplausos da resistência solidária.

Ao final, e a um triz de perder a voz, era visível o cansaço, repetiu que é inocente do que lhe acusam, disse que confia em que lhe façam justiça e protejam a Democracia. Do contrário, “é golpe, é golpe sim”.

Se a presidenta da República, a legítima, conseguiu mudar o voto de parte de seus julgadores, é o que veremos nesta quarta, 31 de agosto de 2016, quando se encerra o processo.

No teatro do impeachment, que é golpe, acusação e defesa e 66 dos 81 senadores voltaram à tribuna nesta terça. À hora que subo esta postagem, já é noite virada, e ainda se revesam na tecedura da réplica às respostas da presidenta Dilma na segunda.

As normas do rito estabelecido vedam naquela etapa da sessão. Assim, estão à vontade para malhar a presidenta sem ter que olhar no olho de Dilma Roussef. É um espetáculo degradante.

Uma coisa é certa, qualquer que seja o resultado, a História não perdoa os covardes.

Fecho com o comentário do colega Bob Fernandes, na TV Gazeta:

 

 

 

 


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