O que vem depois da prisão de Cunha

adeus-cunha1407-e1468585678487
Foto: Jornalistas Livres
por Sulamita Esteliam

Chamar de “arbitrária” a prisão de Eduardo Cunha, diante do que, sabida e comprovadamente ele fez, talvez seja um pouco demais para nossa humanidade.  Mas é o que sustentam juristas preocupados com a fragilidade do nosso combalido Estado de direito a por em risco os direitos de todos os brasileiros e brasileiras.

A legalidade a testar nossos limites.

Pois está preso, por corrupção, o ex-todo poderoso presidente da Câmara dos Deputados. O detonador do processo de impeachment que cassou a primeira mulher presidenta da República, uma mulher honesta.

Cassado por seus pares, por falta de decoro, cumpriu seu papel, perdeu a imunidade e tornou-se descartável.

E registre-se, com toda a cordialidade da PF na detenção – confira a sequência de cliques de Orlando Brito no sítio Os Divergentes. E sem holofotes, nem entradas ao vivo da Globo ou qualquer veículo do PIG.

Depois, querem fazer valer a tese da imparcialidade e da não-seletividade – do sistema de Justiça e de comunicação.

A alegação do MPF e do juiz para a preventiva é de que, mesmo sem mandato, Cunha continua a influenciar os destinos da Nação. Ou que poderia fugir para a Itália, país de onde também é cidadão, com todo o dinheiro de que dispõe.

Tudo isso não seria o suficiente para justificar sua prisão cautelar?

cunha01De tudo que li  – e passei a tarde nesta tarefa -, a matéria mais completa está no sítio do Luis Nassif, de onde retirei os trechos destacados do requerimento de prisão dirigido pelo MPF a Moro.

Transcrevo a abertura da reportagem assinada por Patrícia Faermann no Jornal GGN :

“A decisão do juiz da 13ª Vara Federal de Curitiba de prender o ex-deputado federal Eduardo Cunha teve como argumentação o pedido apresentado pelo Ministério Público Federal (MPF). Nele, os procuradores da República recuperam o histórico de Cunha em diversas atuações suspeitas desde o caso Banestado, no início dos anos 2000, para justificar a força política atual do parlamentar e voltar a sustentar a conclusão já feita pela Procuradoria-Geral da República, em março de 2015 [leia anexo], de que Eduardo Cunha era um dos cabeças do esquema de corrupção na Petrobras dentro do PMDB.”

Ou seja: o MPF valeu-se da tese de Rodrigo Janot, procurador-geral da República, em 2015, para requerer a prisão de Eduardo Cunha. E o Moro concedeu o que o ministro Teori Zavascki não achou justificável, há coisa de ano e meio.

cunha02

Por que só agora a prisão? O que há de novo no front? Nada. E é aí que mora o perigo, argumentam alguns juristas.

Um juiz de primeira instância, provincial, arvora-se justiceiro, e assim tem sido nos últimos dois anos. Concentra poderes acima da Suprema Corte, poderes inimagináveis em qualquer república ou sistema jurídico dignos do nome.

Ontem foram ministros dos governos do PT e empresários de construtoras poderosas. Hoje é Cunha, amanhã pode ser você, eu, qualquer pessoa, escreve o advogado Pedro Serrano em sua coluna na Carta Capital.

“Prisões não devem ser feitas de forma “pedagógica”, guiadas pelo clamor social, mas sim na forma da lei. Não haver seletividade é fundamental, mas somente quando se acerta.

Errar para os dois lados continua sendo erro e, antes de representar isenção, representa que o Direito está sendo suprimido sistematicamente. ”

Coerência na dicotomia, não fujamos delas. Como se manifestou no Facebook o deputado Jean Wyllys, do Psol-RJ:

“Eu quero Cunha preso, mas não irei aplaudir demais o estado penal arbitrário e sem limites, porque ele é um inimigo maior, mais perigoso e mais poderoso que o próprio Eduardo Cunha.”

“Que Cunha seja investigado, julgado e condenado – e ele merece, porque é um corrupto -, mas que isso seja feito respeitando seus direitos constitucionais, como deve ser em todos os casos. E que o povo brasileiro não seja tratado como otário. Essa jogada me lembra o que, no xadrez, é chamado de “sacrifício da rainha”, onde o jogador sacrifica a própria rainha para dar o xeque-mate no adversário. Qual é a prisão arbitrária que vem depois?”

Ora, “já vai tarde”, escrevi quando soube da notícia, por volta da uma e meia da tarde. Acessei um vídeo postado pelo deputado Lindbergh Farias (PT-RJ), com fala também do senador Humberto Costa (PT-PE), diretamente do Congresso.

Foi o primeiro impulso, que, de fato, escamoteava o temor sobre como será o amanhã. O maridão, quando lhe dei a notícia, não titubeou e foi logo dizendo: “o Lula que se cuide”. Briguei com ele, “boca de praga”, sabendo que tinha razão.

A lógica da República de Curitiba, de manipular para atender a seus objetivos, leva a crer que a prisão de Cunha serve ao propósito de refutar as acusações de parcialidade e seletividade, cada vez mais intensas e frequentes.

Seria o suficiente para recuperar a credibilidade da Lava Jato? Há quem duvide.

E, é preciso que se diga, não apenas de petistas e de boa parte do mundo jurídico nativo, mas também de personalidades jurídicas e da imprensa internacionais.

Cunha é o troféu que pode consolidar a obsessão do justiceiro Sérgio Moro: encarcerar Lula, o grande prêmio.

Tal ação estabeleceria uma comparação perversa, e absolutamente inapropriada, bem ao gosto do que se quer forjar na opinião pública. Também postei de pronto nas redes sociais.

No entanto, contra Cunha há fartas provas. Contra Lula, não nem é preciso provar, sobram convicções.

Um pequeno exemplo: além da prisão preventiva do ex-deputado, Sérgio Moro determinou o bloqueio de cerca de 220 milhões de reais em contas e bens de Cunha e da família.

Ao determinar o bloqueio, Moro encontrou oito carros, dentre eles um Porsche Cayenne em nome de Claúdia Cruz, mulher de Cunha; e um jipe Tiguan, registrado por Danielle Cunha, filha do ex-deputado. Os demais veículos estão em nome de empresas ligadas ao ex-deputado, como a Jesus Serviços de Promoção e Propaganda e C3 Produções Artísticas.

Luxo e ostentação de pura riqueza, construída de longa data no usufruto da coisa pública.

E querem pegar o Lula por conta de um triplex  no Guarujá, que comprovadamente não é dele; e pelo uso de um sítio de terceiro, onde dona Marisa mantém uma canoa de alumínio, e os netos três pedalinhos. Sim, e do pagamento de palestra na África, registrada em vídeo, mas que o MPF e o Moro dizem que ele não fez.

Melhor, querem nos fazer acreditar que esta é a causa. Só que a gente sabe muito bem qual é a verdadeira razão. Estão aí os resultados da pesquisa Vox Populli-CUT, divulgada na terça, 18, que não nos deixa mentir.

Apesar de todo bombardeio, Lula é o preferido para as eleições presidenciais de 2018, e em ascensão. Enquanto é crescente a rejeição a Temer e seu desgoverno.

De repente, tomaram-se de súbita pressa.

E não se descarte nova operação boca de urna para lacrar os efeitos do terremoto no primeiro turno das municipais.

Não é preciso ser especialista para deduzi-lo.

Mas transcrevo a opinião do cientista político Benedito Tadeu César, diretor do InPro – Instituto de Pesquisas e Projetos Sociais, à revista Fórum:

“Tem algumas cidades ande o PT disputa eleições com alguma chance, isso pode, sem dúvidas, aprofundar a crise do partido. E está tudo imprevisível, tudo tão surreal que, pensando bem, a minha avaliação é de que é uma bobagem prender o Lula, porque isso provocará uma reação popular, um acirramento de ânimos que obviamente não irá reverter nada, senão agravar mais o clima de tensão e de enfrentamento do país.”

É o caso de saber se não é exatamente isso que se faz, apostar no caos.

externa
Imagem capturada no Tijolaço

 

Confira o que a blogosfera alternativa entendeu a prisão de Cunha:

Vi o Mundo, a partir da Folha:

Vermelho:

Tijolaço/Fernando Brito, pela ordem:

The Intercept Brasil/Andrew Fishmann:

Sul 21, via Agência Brasil:

Revista Fórum:

Rede Brasil Atual:

O Cafezinho, pela ordem:

Os Divergentes/Andrei Meireles:

Jornal GGN:

Jornalistas Livres:

Diário do Centro do Mundo:

Correio do Brasil:

Carta Capital:

Brasil 247/Tereza Cruvinel:

Blog do Rovai/Renato Rovai:

Balaio do Kotscho/Ricardo Kotscho:

 

**************

Postagem revista e atualizada em 20.10.2016, às 13:13 h, hora do Recife: correção de erro de digitação: 220 milhões, não bilhões.

 

 

 


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s