Capozzoli e ‘a brutalidade em gestação’

por Sulamita Esteliam
Ulisses Capozzoli - Foto: Ifsc/USP
Ulisses Capozzoli – Foto: Ifsc/USP

Reflexão indispensável na penúltima semana do ano, que nem começou e insiste em não terminar.

Leia com atenção o texto que compartilho mais abaixo. É da pena de Ulisses Capozzoli, jornalista e cientista político pela USP, escritor e presidente da Associação Brasileira de Jornalismo Científico.

É o resumo da ópera do golpe em curso no Brasil e dos ectoplasmas emanados em consequência: o ódio, a truculência, a barbárie, o fascismo, o cinismo, a hipocrisia, o desalento e a indiferença – ou a síndrome de avestruz.

A sugestão é do amigo jornalista César Ferraz, com quem tive a honra de trabalhar alguns anos na rame-rame da cobertura e edição política, na capital mineira, via “zap-zap”.

Transcrevo, com autorização do autor:

A brutalidade em gestação

por Ulisses Capozzoli – no Facebook

Numa leitura que começou ontem à noite, não fui além de 50 das 575 páginas de “De volta do inferno – Europa 1914/1949”, do inglês Ian Kershaw, principal historiador do nazismo.

Pode não parecer, à primeira vista, mas é uma obra que ajuda a compreender o que ocorre no Brasil a esta altura do século 21.

Não que se seja possível transplantar ocorrências que se deram ao longo da primeira metade do século passado na Europa, período de que Kershaw se ocupa, no primeiro de dois volumes de análise do século 20, no Velho Mundo.

É a fermentação política, a frustração econômica, o ódio social destilado em porções generosas, o colapso das forças políticas de esquerda e esperanças vagas e inconsistentes de que as coisas todas pudessem ser de outra forma que sugerem esse paralelo.

Por aqui, a situação é ainda mais difícil, na ausência de estruturas sólidas no amparo a opções capazes de evitar a manifestação da barbárie, que já se mostra no cotidiano.

As pessoas vão levando a vida, as instituições adotam o mesmo procedimento, para conforto e regalia dos seus encastelados.
Parece que, se não pensarmos no desastre, teremos como evitar que ele se manifeste.

Mas a verdade é o contrário disso. E a narrativa de Kershaw uma clara evidência.

Na Europa, na primeira metade do século passado, fascismo e nazismo, cada um a seu estilo, levaram aniquilação, ruína e sofrimento abissal a milhões de pessoas.

O que começou, em 28 de junho de 1914, com o assassinato do herdeiro do trono austríaco, o arquiduque Franz Ferdinand e de sua mulher, a duquesa Sofia de Hohenberg, para estabelecer um ponto de partida, terminou com duas bombas atômicas, sobre Hiroshima e Nagasaki, em 6 e 9 de agosto de 1945.

Corpos humanos se reduziram a algo como um negativo fotográfico, no solo calcinado pelo calor nuclear que se abateu sobre as duas cidades.

O Japão pagou o último tributo, do caminho mais curto capaz de exterminar a humanidade.

No Brasil, o golpe desferido contra um governo ungido pelas urnas começou em Belo Horizonte. Em meio ao tilintar de taças de champanhe para comemorar uma vitória tida como certa num vistoso ninho tucano.

Aécio Neves, cujo trunfo maior é ser neto de Tancredo, não aceitou o que foi interpretado como “insulto” das urnas a uma oligarquia arcaica & ciosa de seus pretensos & antigos privilégios.

As apurações terminaram com os votos do Nordeste.

O que bastou para uma exótica xenofobia interna.

Nordestinos, considerados então algo como subcidadãos.

Fogo de palha, alimentado por lufadas indignadas de vento. Mas o suficiente para indicar a presença de um profundo e antigo ódio remanescente da escravidão, a ordem que formalmente reinou ao longo de 359 anos nesta que já foi a Terra de Vera Cruz.

Em seguida, outro tucano abriu o bico e rufou suas asas de voo curto.

Aluízio Nunes, em São Paulo, lançou a cruzada para “fazer Dilma sangrar”, metáfora sugestiva, e “tornar seu governo impossível. ”

Com isso materializaram o processo golpista com acusações que começaram com inconsistente manipulação de urnas. Passaram pelos Correios e percorreram um longo trajeto.

Até que, com a cumplicidade de um congresso imundo, e complacência de uma corte que apenas encena atos de justiça, derrubaram a escolha democrática das urnas.

Veio, então, um simulacro de governo, personificado na figura de uma criatura de perfil duplo: misto de mordomo & vampiro, acenando com as portas do paraíso.

Como também aconteceu na Europa, em diferentes circunstâncias. Quando muitos fecharam os olhos e taparam os ouvidos, para imaginar que o Éden estava a uma curta caminhada.

Não estava. Nunca esteve. Nem estará.

O que emerge de uma mutilação da ordem como um golpe político é um ferimento profundo.

De longa e difícil cicatrização.

É o que aí está, sem qualquer evidência de fim ao longo de 2017.

Ou mesmo de 2018.

Um julgador arbitrário, que observa com um único olho, personagem típica de épocas de crise e inconsistência da reflexão, faz o que bem entende.

É a expressão de uma pretensa ordem. A ordem da barbárie.

Com isso dá exemplos que se multiplicam.

Pessoas acusadas & encarceradas sumariamente.

Como se fossem perigosos bandidos.

Incomunicáveis pela truculência que sobe como as águas de um dique.

Os casos se multiplicam. Mas ainda não são capazes de perturbar a consciência coletiva.

Algo como aconteceu na Europa, com argumentos que podem ter parecido lógicos.

Em especial aos discursos de um homem de bigodes bem aparados.

O Brasil segue, a trancos e barrancos.

Com discursos petulantes, cantilenas desencontradas & mofadas & provincianas de sua corte maior de justiça.

Caminhamos para o matadouro. Como gado que se recusa a aceitar que acabará abatido.


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