Mexeu no ninho, barata voa…

barata-voa_opor Sulamita Esteliam

Na postagem da segunda, Euzinha me referi a definição do ex-ministro Sepúlveda Pertence, há cerca de 30 anos, sobre a natureza da participação política no Brasil, essencialmente corporativa e sua percepção, um pouco mais adiante, de que os poderes do Ministério Público redundavam em “um monstro”.

Pois hoje o colega Fernando Brito, sempre atento, chama a atenção no Tijolaço para entrevista que o sociólogo Luiz Werneck Viana concede ao Estadão. Trata, basicamente, do corporativismo jurídico-policial que desgoverna o Brasil. Junta o contraponto do jornalista Nilson Lage, com um mergulho na História, que vale à pena ler com atenção.

Curioso é que só agora, quando os vazamentos das delações da Odebrecht – a corporação corruptora que impera no Brasil – não deixa pedra sobre pedra nos ninhos das cobras que surrupiaram o poder no país, o Estado de exceção incomoda.

Enquanto foram só petistas a serem delatados, encarcerados sem julgamento, enxovalhados pela mídia via vazamento seletivos do Ministério Público, Polícia Federal, STF e que tais, ninguém se preocupou com a República para além de Curitiba.

As críticas, até então, eram “coisas de petralhas”.

E olha que ainda falta o Lula, tornado réu sem provas e sem delação das testemunhas

Mexeu no ninho, barata voa. O combate à corrupção está em xeque. Não há um projeto de país, mas um projeto de poder, sem rumo e sem direção. A charge do genial Aroeira é perfeita alegoria.

Aliás, A Tal Mineira vem escrevendo sobre isso por aqui e não é de hoje.

Há uma inteligência organizando a balbúrdia judicial, diz sociólogo

por Fernando Brito – no Tijolaço
werneck
O sociólogo Luiz Werneck Viana não é, positivamente, um “petralha”. Ao contrário, foi um dos que se regojizaram-se com o impeachment de Dilma Rousseff; chegando a dizer, em artigo no  Estadão, que o ciclo petista era “uma página virada na nossa vida republicana”.

Dito isso, a entrevista de Werneck Viana, hoje, no jornalão paulista, traduz – reconheço que sem procuração – o que vai pelo pensamento do alto tucanato, e é o substrato com que ele autojustifica sua adesão ao governo Michel Temer.

Dela, transcrevo um trecho e, a seguir, reproduzo alguns comentários do professor Nilson Lage, feitos muito antes e guardados aqui à espera que e tornasse pública esta torcida interpretação que Vianna explicita, ao dizer que as corporações judiciais praticam um “tenentismo de toga”, embora com a lúcida exclusão de que eles querem o poder, mas não têm programa para o país.

Os vazamentos de delações de executivos da Odebrecht caíram como uma bomba na classe política. O que podemos esperar da crise, que parece não ter fim?

Essas coisas não estão acontecendo naturalmente. Não são processos espontâneos. A esta altura, a meu ver, não há dúvida de que há uma inteligência organizando essa balbúrdia. Essa balbúrdia é provocada e manipulada com perícia. 

Mas quem faz isso? O Ministério Público? O Judiciário? 

Essas corporações tomaram conta do País. 

Estão se sobrepondo ao sistema político?

Sim, claramente. E também ganhando mais poder. Na defesa dos interesses públicos, reforçam suas conquistas corporativas. Então não se pode mexer na questão do teto salarial.

Podemos concluir que a crise se prolongará, já que isso interessaria a essas corporações?

O fato é que se criou, nesses últimos anos, uma cultura corporativa muito poderosa. Se você fizer um recenseamento dessas corporações, dos seus encontros anuais, são milhares de profissionais que anualmente se reúnem em algum canto, em geral paradisíaco, para definir a sua agenda, do ponto de vista corporativo. (…)

Mas as posições defendidas por esses setores têm sustentação na sociedade, não?

Esse andamento não foi previsto. Foi sendo percebido ao longo do processo. Uma coisa sabiam: que a conquista da mídia era estratégica. Se você pegar os textos que embasam as ações da Lava Jato, lá nos escritos do juiz Sérgio Moro, vai ver a percepção que eles tinham a respeito da mídia como dimensão estratégica. As ruas foram o inesperado, mas que aos poucos foi-se descobrindo como outra dimensão a ser trabalhada. Então, montou-se uma rede, que hoje já não atua mais espontaneamente. Esse processo é, a essa altura, governado. Imprime-se a ele uma certa direção. Agora, para quê, para onde, acredito que eles não sabem. 

O papel dessas corporações teria de ser revisto?

Só quem pode enfrentar essas corporações é o poder político organizado. Quando elas são atacadas, se defendem dizendo que na verdade quem está sendo atingindo é o interesse público. Conseguiram armar esse sistema que as tem protegido de crítica. A questão (da limitação) dos altos salários, por exemplo. Dizem que essas não são medidas corretivas, mas sim que penalizam o poder judicial. Quando eles se protegem da opinião pública mobilizando na outra mão a Lava Jato, ficam inatacáveis.

O governo Temer sobrevive até 2018? Chegaremos às eleições?

Torço para que isso ocorra. Porque a destruição desse governo agora nos joga nas trevas. Destitui-lo para quê? Para fazer eleição direta? Mas como? Fazer eleição direta neste caos? Quem vai ganhar isso?

Vivemos uma espécie de “Revolução dos bacharéis”?

Não, não, não. Tem uma metáfora melhor, a dos tenentes.

Dias atrás, quando alguns começaram a fazer esta comparação, recebi do Professor Nílson Lage um texto, muito claro, onde se mostra que, apesar da forma voluntarista com que se apresentam, os bacharéis são o inverso daquele movimentos, que marca a irrupção do Brasil moderno, o do século 20 que nos começou três décadas atrasado.

Num ponto, porém, creio que todos concordamos: o que ocorre não é espontâneo, tem quem lhes puxe os cordéis.

 

Não são tenentes, são bacharéis

Nilson Lage

Leio articulistas de esquerda fazendo comparações entre o atual movimento de bacharéis – juízes e procuradores – com o tenentismo de há um século.

O paralelo é atraente, mas enganoso.

A começar pelo fato de que nada mais antibacharelesco que aquele movimento.

O tenentismo, evoluindo nos quartéis em oposição ao civilismo e suas distorções oligárquicas, foi um movimento complexo, do qual se originaram as vertentes do comunismo de Prestes, do trabalhismo de Vargas e do autoritarismo que, após a breve fase de namoro com o fascismo, se fundiria com a modernização conservadora instigada pelos Estados Unidos no pós-guerra.

Aliás, Filinto Muller e Juarez Távora foram terminar na falecida Arena.

Objetivamente, o tenentismo era contra o estado de coisas da República Velha, mas propunha soluções alternativas e não pretendia, ao ser lançado, a tomada do poder pela corporação militar.

Hoje, juízes, procuradores e policiais nada têm a propor senão a destruição do que está feito, com total descritério.

Sua luta não tem grandeza, porque motivada por poder e dinheiro. Aliás, ao contrário da dos tenentes, sequer correm riscos, porque indemissíveis e com poder de polícia.

O tenentismo foi, na sua origem, movimento nacional que expressou, do ponto de vista militar, o sentimento difuso da inteligência brasileira da época, que pretendia promover o crescimento econômico, a integração nacional e a redução das desigualdades.

Nada parecido com a campanha dos bacharéis, evidentemente inspirada e instrumentada por potência estrangeira, ignorante da economia e alheia aos problemas sociais.


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