Reflexões sobre eleições e ‘a foto da semana’

por Sulamita Esteliam

Recebi, por correio eletrônico, a foto que ilustra esta postagem, com o título “Para refletir: a foto da semana”. Veio da parte de um primo-irmão, que sabe que, quando se trata de política, sou do tipo que aceita provocação. Sempre frequentamos lados opostos do espectro político-ideológico – aliás, ele é daqueles que creem no fim da ideologia. Somos fraternos, entretanto.

A mensagem veio repassada, e acumulada de comentários de diferentes mensageiros; todas na direção de que o ministro Joaquim Barbosa, relator da Ação 470 em julgamento no STF, seria a derradeira esperança de moralização deste país. Não faltou, sequer, quem o queira “primeiro presidente negro do Brasil”.

Trocamos mensagens a propósito, e avisei ao meu primo-irmão que estas e aquela me inspiraram uma postagem no blogue, o que faço agora. Começo pelo fim, mas percorro todas as trilhas. É da minha natureza.

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Fala sério! É o PT que não soube fazer oposição!? E qual a competência oposicionista de demotucanos e aliados, quando precisam da mídia inconformada ou PIG para definir suas agendas e táticas? Quem não tem culhão para golpear às claras, o faz na penumbra.

Não, não diria que é “injustiça com o PT”, o julgamento do chamado “mensalão”. Diria que é desigualdade de tratamento e oportunismo eleitoreiro, também do STF, que resolveu seguir a cartilha do PIG, a oposição de fato, e mostrar serviço.

Não teve a mesma presteza em ocasiões anteriores, pois que a prática de caixa 2 – pois de caixa 2 de trata – é antiga e vezeira no Brasil, e não só por políticos; e, na política, seguramente, esteve em uso agora, nestas eleições municipais, e estará nas próximas, pois que a legislação eleitoral, caduca, favorece e estimula o mau costume – e o Congresso, que elegemos, não toma providências porque não interessa cortar na própria carne.

Por outro lado, é inegável que se trata de oportunidade de ouro para tentar defenestrar “essa canalha” petista, que ousou chegar ao poder, e uma vez no poder, governar para o andar de baixo, para a senzala – também. Ousou recuperar a autoestima da nação, ao mesmo tempo em que se fez referência internacional, porque tem driblado as dificuldades mundiais – não sem custos, diga-se, mas sem tirar os sapatos para entrar em qualquer país estrangeiro.

Foi assim com Lula, o torneiro mecânico-retirante-nordestino, o eterno “sapo barbudo”. E é assim com Dilma que, embora classe média, sempre esteve do lado de cá, e é uma mineira da melhor estirpe – não cospe no prato que comeu.

Claro que a decisão de combinar julgamento com eleição não seria a mesma se fosse com qualquer um partidário das elites, da Casa-Grande. A história está aí para não nos iludirmos. Tanto, que o valerioduto de origem, o mineiro de Azeredo e que tais, não teve o mesmo tratamento nem pelo PIG (Partido da Imprensa Golpista) – que posa de isento, mas faz política partidária de seus interesses, sim senhor – nem pelo STF.

Da mesma forma, ninguém, do lado de lá, fala da compra de votos, esta sim, comprovada, que garantiu a reeleição do Farol da Alexandria-FHC, em 1998. Reeleição, aliás, que quebrou o país e redundou na Privataria Tucana, denunciada em livro do jornalista mineiro Amaury Júnior, fenômeno editorial ímpar. A despeito do silêncio retumbante da mesma mídia que defenestra, carregando nas tintas, os mal feitos do PT.

Mas, sinceramente, acho que, se é para abrir a “caixa de Pandora”, melhor começar com alguém. Pois que seja com o PT: pisou na bola, tem que pagar.

Não que o chamado “mensalão” seja fato: avilta a inteligência imaginar que o governo precisasse pagar aliados para votar com ele – e nisso o STF faz vistas grossas, porque é do interesse político que assim seja. Faz vistas grossas, também, quando o assunto é “prova”, e quando se trata de foro – a maioria dos réus teria que ser julgada, primeiro, pelas instâncias inferiores; é o que diz a nossa Constituição e o nosso Código de Processo Penal.  E aí, o STF, que é guardião da Carta Magna, se torna tribunal de exceção.

O calendário do julgamento e seu fatiamento, de modo a calhar a condenação do “núcleo político” com a antevéspera das eleições, é manobra escandalosamente política, eleitoreira.

Trata-se, portanto, de precedente grave, de quebra das regras democráticas. Mas quem julga o STF?

O fato de o acusador-julgador ser um negro de origem pobre, também dificulta, de certa forma, os questionamentos. Quem vai acusá-lo de ser absolutista, sem receber a pecha da discriminação num país racista, apesar da severidade das leis?

Ora, as leis…

Na mitologia grega, Pandora, mulher de Zeus, abriu a caixa, que na verdade era um jarro que continha os males do mundo, e despejou todo o seu conteúdo, menos um – que era, exatamente, a esperança.

Então, em analogia, menos mal se a quebra de paradigma pelo STF, no caso da ação 470, passar a regra válida, também, para os processos, convenientemente, engavetados pelo procurador-Geral da República,Roberto Gurgel, e pelo próprio Joaquim-Batman. Como nos casos demotucanos – mensalão mineiro, lista de Furnas, privataria tucana, Carlinhos Cachoeira, etc., etc., etc. Se, doravante e ainda, a impunidade não alcançar aqueles próximos e outros a serem pegos com a boca na botija, terá valido.

À parte o moralismo hipócrita e as conveniências de ocasião, seremos um país melhor se deixarmos de considerar normal que políticos, empresários e apaniguados metam as mãos na “bolsa da viúva”, como diz o Gaspari. Ou que se permita que se apoderem da máquina estatal pela prática do suborno e da caixinha, e deixa ficar por isso mesmo. Pois que corruptos são todos que tentam se locupletar com a coisa pública: não há corrompidos sem corruptores. E a lei tem que valer para todos.

Joaquim-Batman terá oportunidade de prová-lo na presidência do Supremo, que assumirá em breve com a aposentadoria de Ayres Britto. Por enquanto, a julgar pelo entusiasmo de quem vive à espera de um messias…

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PS: Queira ou não, a combinação julgamento e trapalhadas políticas fez estragos na seara petista. No mínimo, dificultou a caminhada de candidaturas do partido, ainda que em centros como São Paulo e Belo Horizonte, por exemplo, os adversários tenham cantado vitória antes da hora. Nas duas metrópoles do Sudeste, deve haver segundo turno.

Em São Paulo, o eterno candidato Zé Bolinha de Papel Serra, tudo indica, fica fora da decisão: a disputa deve se dar entre Celso Russomano (PRB) e Fernando Haddad (PT). Em Beagá, onde tucanos apostaram todas as fichas na reeleição do prefeito, forçando o rompimento da aliança com o PT, o jogo também deve ir para o segundo tempo. Patrus Ananias está no encalço de Márcio Lacerda (PSB).

No Recife, a se crer nas pesquisas, a disputa também terá prorrogação, para desconcerto do governador Eduardo Campos. O fôlego do seu candidato, Geraldo Júlio (PSB), até a convenção um ilustre desconhecido do povo, não permite liquidar a fatura no primeiro tempo.

As últimas pesquisas indicam, entretanto, que o embate está complicado para Humberto Costa (PT), em terceiro lugar, sete pontos atrás do azarão Daniel Coelho – que trocou o PV pelo PSDB, mas que se apresenta com a mística de candidato verde, e jovem; trabalhado no marketing.

Todavia, pesquisas são intenções, e urnas são urnas. Só depois de abertas elas dizem como as mensagens da campanha foram decodificadas pelo povo. Desligados os monitores do guia eleitoral – horário no rádio e TV, que de gratuito não tem nada, porque os veículos são concessões públicas, mantidas portanto pelo contribuinte-eleitor – agora, vale o corpo a corpo das ruas.

O PT tem tradição de arrancada na reta final. A força da militância pode fazer a diferença. Aqui no Recife fez, em 2000, por exemplo, quando João Paulo Lima e Silva, agora vice de Humberto, levou a eleição para o segundo turno, contrariando todas as pesquisas; tornou-se prefeito, se reelegeu e fez o sucessor. Mas então, não havia guerra com o espelho.

Às urnas, pois. Bom voto para todos nós.

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Revisto e atualizado em 06.10.2012, às 11:00.


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