Sob ataque permanente, os indígenas brasileiros resistem

Índios Kalapalo, Mato Grosso, ao pôr do sol. A foto é parte do livro ‘Índios Brasileiros’, de Ricardo Stuckert, em fase de produção
por Sulamita Esteliam

O jornal Correio Braziliense dá lição de Jornalismo ao publicar um caderno especial sobre a questão indígena no Brasil, neste 19 de abril, dedicado ao índio. E acerta em cheio no mote: “517 anos de resistência”.  Loas a quem de direito.

Expõe, sem mesuras, “as dificuldades dos povos originários em conseguirem direitos básicos, como terra, saúde e dignidade.

Vítimas da miséria e da violência extremas, morrem feito formigas, na defesa de seus territórios tradicionais. Morrem de morte matada – por armas de fogo, de doenças da pobreza, das más condições de vida e salubridade. Isso, quando não se suicidam.

Pior, “a cada 100 índios brasileiros mortos, quarenta são crianças de até 4 anos”, informa o texto de abertura da reportagem.

Dados do Cimi – Conselho Indigenista Missionário, citados pela reportagem, revelam-se estarrecedores: 891 índios brasileiros foram assassinados nos últimos oito anos, 138 deles só em 2015. A maior concentração de assassinatos é no Mato Grosso do Sul, 36%.

Não meras estatísticas, números frios que chocam. São vidas dizimadas, fisicamente e/ou pela eliminação de direitos.

Prova da vulnerabilidade e invisibilidade, que é ainda mais perversa com as mulheres indígenas, principais vítimas do tráfico humano, da violência sexual e doméstica, e do trabalho escravo. Como salienta Daiara Tukano, pesquisadora de Direitos Humanos da UNB, liderança jovem ouvida em uma das matérias do especial.

Infográfico capturado via coletivo @Midia Ninja

A negação da identidade indígena, para ela, é uma “violência estrutural”, que é parte da cultura colonial, e explica o alto índice de suicídio entre os índios.

É fato que, desde o invasor, os povos indígenas resistem a um verdadeiro genocídio, violência física, cultural e moral. Violações de direitos exacerbadas em tempos de golpe político permanente como o que vivemos há um ano.

Os governos liderados pelo PT não escapam à crítica por não terem dado a prioridade devida à política indigenista. Sobretudo no que se refere à demarcação de terras que pertencem aos povos originários, territórios de seus ancestrais ocupados irregularmente pelos brancos ou por eles disputados, a bala.

De seu lado, o desgoverno usurpador golpista, sob domínio do agronegócio exportador, os mantém sob mira e em permanente desespero.

A situação dos Guarani-Kaiowá é a mais dramática. Particularmente na região de Dourados, no Mato Grosso do Sul, onde os conflitos pelas terras só fizeram agravar-sem nos últimos tempos. São o exemplo mais gritante do jugo latifundiário, mas também da omissão do Estado.

A Funai, órgão criado para defender os direitos indígenas e gerir as políticas públicas para esses povos, foi esvaziada. Para se ter ideia, o atual gestor está convicto de que “passou da hora de o índio aprender a pescar”, segundo outra reportagem, a de Carta Capital.

Segue a trilha do ministro da Justiça, Osmar Serraglio, conhecido por sua estreita ligação com o agronegócio, e para quem discussão sobre terras “não enche barriga de ninguém”.

Não esquecer que o ministro da Agricultura é Blairo Maggi, ele próprio um latifundiário no Mato Grosso.

Ambos são egressos de um Congresso dominado por representantes da casa-grande, muitos deles coronéis em seus domínios rurais.

Escárnio.

Ricardo Stukert, cercado por curumins Kalango, Alagoas – Foto: Xavier Donat

A dica do caderno especial 517 anos de resistência eu encontrei no FB do brasiliense Ricardo Stuckert, fotógrafo oficial do ex-presidente Lula, que desenvolve o projeto “Índios Brasileiros”.

Stuckert é reconhecido mundo-afora por suas fotos indígenas. Há anos percorre o Brasil nesse trabalho de registro, sobretudo dos povos amazônicos. As fotos vão resultar em livro, ainda sem data para ser publicado. É um dos entrevistados da reportagem do CB.

À reportagem de Gabriela Vinhal e Hellen Leite, editada com esmero por Anderson Costolli, o fotógrafo explica o objetivo que o move:

“Pretendo mostrar a importância dos índios para o mundo, a importância de preservá-los e da implantação de políticas que preservem seus territórios e sua cultura. Os índios são os guardiões da natureza. Merecem e devem ser respeitados por todos nós”.

 

 

 

 

 

 


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