De meninos e anjos travessos

por Sulamita Esteliam

Segurar um neto no colo é uma benção que deveria ser dada a toda mulher e todo homem. Estou a caminho de me tornar sete vezes abençoada.

Meu neto mais velho, Gabriel Odim, acaba de completar 21 anos. Nasceu, em meio à festa de aniversário de três anos da tia caçula. Euzinha, com a casa cheia de convidados, não pude acompanhar minha filha à maternidade; quem o fez foi minha mãe e os avós paternos.

Antecipamos o assoprar das velinhas, e encerramos a festa logo após servir o bolo. Pensei comigo: “Este menino não vai me fazer a falseta de nascer sem que esta avó esteja presente”. E de fato não o fez; nasceu quinze minutos após minha chegada ao hospital.

Morou comigo até completar um ano, em Fortaleza, e enquanto criança passou todas as férias escolares em minha casa no Recife.

Pequeno, marrento e esperto, feito um gato, tinha mania de escalar não importava o quê e a que altura; e era irresistível quando, confrontado, apelava para a emoção: “Ôoo, vovó!”

Anjo travesso, deu o que fazer ao seu Anjo da Guarda, que não por coincidência é o mesmo meu, Damabiah, da falange de Gabriel – bem chegado em aventuras e apaixonado pelo mar.

Do garoto levado da breca, que tirava o sossego da gente, e nos fazia temer pelo futuro, emergiu um rapagão tranquilo, protetor da mãe, companheiro do irmão, focado nos estudos e no trabalho independente.

São insondáveis os caminhos dessa nossa passagem pelo planeta.

No fim de outubro ou inicio de novembro, ele e o irmão Guilherme Cauã, sete anos mais novo, ganham de presente uma irmãzinha, Agatha Luna – a caçula, acredito que por longo tempo, da prole de minha prole.

Dádivas de Gabriela, que desde cedo tem a estranha mania de ter fé na vida. Brincou de boneco com o primeiro filho e agora, na plenitude de sua maturidade, decide recomeçar, quando seu caçula já tem 14 anos.

Não posso criticá-la. Meu primogênito e único Elgui tinha 18 anos e a então caçula, Carolina, 10 anos quando Bárbara nasceu. E teria tido mais um, caso Gabriel não tivesse me feito avó aos 42 anos.

Ontem, finalmente, pude ter no colo o par de gêmeos, Arthur e Nicolas, com que o Universo nos brindou no início de fevereiro. Dois bebês robustos e risonhos, terceiro e quartos do Elgui, que já tem Larissa, há 19 anos e Mateus, há 7 anos.

Receberam-me como velha conhecida, sem a menor sombra de dúvida de que fizeram a escolha certa em aportar nesta família.

É assim com todos os meus netos.

Talvez, devesse ser mais estreita a relação com até então única neta,que nasceu e mora na capital do Ceará.  Mas as coisas são como são, e ela tem na outra avó a proximidade, física e emocional, que não desenvolveu comigo. Sorte delas.

Passei a tarde de sábado por conta do Mateus, meu parceirinho desde pequenino, sempre que estou em Beagá. Saímos para lanchar e fomos parar numa das muitas pracinhas do bairro onde mora, onde há uma pequena academia pública. As crianças, rapidamente, transformam os equipamentos variados em brinquedos estimulantes.

O garoto se esbaldou, também com os cães, de raça e tamanho variados, que se exercitavam na praça, e também com todos  os bichinhos  que encontramos pelo caminho. É impressionante sua empatia com animais, e desde cedo.

Há certas coisas que Mateus só faz com esta avó: andar de ônibus, dar longas caminhadas e praticar Lian Gong, “aquela dancinha”, por exemplo.

Depois do lanche, convidei-o para acompanhar-me à casa da tia Lili, minha irmã que mora no bairro vizinho. Fomos a pé, e ele se divertiu com a subida e descida das ladeiras, e não reclamou do percurso de cerca de dois quilômetros.

À noitinha voltou a fazer frio, mas o menino chegou suado, com o coração agitado, e faminto. Traçou vários pães de queijo que a tia-avó acabara de tirar do forno, comeu duas porções de pudim de leite e uma barra de chocolate. Ainda assim, deu conta de outra fatia de bolo, também de chocolate, quando chegamos em casa.

Há pouco, pediu companhia no quarto, enquanto o sono não vinha. Bastaram cinco minutos para que mergulhasse nas delícias do sono profundo, como só as crianças, os inocentes e os justos têm.

Cá pra nós, sou especialista em dar canseira em meninos travessos.

E só posso dar graças à vida, que me tem dado tanto.

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Postagem revista e atualizada em 06.08.2017, às 20:50hs: correção de erros ortográficos  e de gramática em diferentes parágrafos .

 

 

 


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