O ‘Estado de Gotham’ é aqui, e só temos uma vida…

‘Apocalipse’, Durer Hosermen – Capturado em Arnobio Rocha.com
por Sulamita Esteliam

Porque hoje é sexta, Euzinha e a caçula passamos a tarde assistindo os episódios finais da terceira temporada de Gotham, na Netflix. A quarta temporada já está no ar, mas ainda não chegou à provedora global.

Qualquer semelhança com a realidade do Brasil temeroso não é mera coincidência…

Cá, com meus botões plugados no etéreo, pergunto: quem será o nosso anjo vingador: Batman ou a Mulher Gata!? Pinguim ou o Charada?

Digo que, a exemplo de O Rappa, que faz show neste sábado no Recife, “a minha alma está armada e apontada para a cara do sossêgo…/pois paz sem voz, não é paz, é medo.”

A propósito de Gotham, o colega blogueiro e escritor, Arnóbio Rocha, já traçou o paralelo entre os dois cenários, faz tempo. E trabalha novo livro sob esse prisma, com o sugestivo título de Estado de Gotham City, com direito a aperitivo em seu blogue, a exemplo de textos anteriores.

Trata do “Apocalipse” ou do vale-tudo, que denomina Crise 2.0. Uma crise política, de consequências econômicas e sociais, com profundo impacto na vida dos trabalhadores, principalmente, e da sociedade de modo geral, define com precisão.

Nada além do revival do ultraliberalismo, consagrado nos anos 80 do século passado por Margareth Tacher, na Inglaterra, e Reagan, nos Estados Unidos. Bem ou mal copiado pelo complexo de vira-latas tão bem incorporado pelo tucanato e dublês de direita e seus arautos e miquinhos de plantão.

Escreve Arnóbio Rocha:

“O Estado Gotham City é a síntese da Crise 2.0, ele é, ao mesmo tempo, causa e resultado da maior crise do Capital desde 1929, uma crise que denomino de paradigmática, aquela que muda e aprofunda os controles do sistema. Do ponto de vista do Estado ele começa a ser forjado no final dos anos de 1970, com a Crise do Petróleo e das Dívidas externas no início dos anos de 1980. (…)

Os 25 anos de longo domínio desta lógica de funcionar do Capital encontrou limites na Crise 2.0 e na resistência do velho Estado de Bem-estar Social, que trava a “liberdade” total de movimentos mundiais do Capital. A Crise é o problema-solução, toda uma nova ordem pode advir dela, inclusive a Revolução. (…) o Capital faz a sua própria revolução, ou melhor, impõe uma dura mudança dentro do sistema que mais lhe favorece, em detrimento dos trabalhadores e da sociedade. A face mais visível é a repressão aberta, ou a sutil, a do controle de tudo que acontece na sociedade para melhor dominá-la.”

Você deve estar me questionando sobre o intuito de escrever sobre assuntos tão indigestos numa baita sexta-feira, justo a última do mês que é, teoricamente, primaveril …

Ora, ora, de repente, você não tem programa cultural ou farra que valha à pena, e pode aproveitar para ilustrar o raciocínio.

Uma questão, sempre pertinente, e que meu amigo escritor-blogueiro coloca, provocativamente, é a seguinte:  desse “Novo Estado, que ressurge, só sobrou a Força?”

E quem a “Força”?, pergunto Euzinha.

O que explica, por exemplo, que toneladas de cocaína voem livres em helicópteros, com prefixo e registro conhecidos, nas Minas Gerais e no Mato Grosso, para lá e para cá, e só a banda de cá, a de sempre, toca no assunto!?

O que justifica que a Força Nacional invada a Rocinha, torne reféns seus moradores, trabalhadores e crianças em sua maioria, a pretexto de combater o tráfico?

No Outras Palavras, sítio alternativo editado pelo singular Antônio Martins, um artigo me chama a atenção, exatamente, por fazer a ponte entre a realidade e o sonho, entre a inteligentzia e o pé rachado na rudeza chão nosso de cada dia.

Eduardo Migowski, filósofo e doutorando em Ciência Política, escreve sobre o conflito entre a “Vontade Geral” e “as vontades particulares”; sobre  a privação do direito de ir e vir “afetado pela dinâmica corrosiva de conflitos egoístas” como o que se assiste na Rocinha.

Transcrevo um trecho. expressivo do que aqui se quer demonstrar:

“Ao contrário do que pensam os liberais, na política a soma das partes não forma o todo. A soma das vontades individuais é apenas a expressão de interesses conflitantes, um jogo de forças sem direção. No fim, prevalece quem tem mais poder. Todos perdem. É pura e simples dominação.

O filósofo Michel Foucault, invertendo a famosa frase de Clausewitz, disse que a política é a guerra por outros meios. Eu diria que não exatamente a política, mas a democracia é a guerra por outros meios. Como lembrou Marilena Chauí, o sistema democrático é o único que aceita os conflitos como legítimos e, desse modo, os mantém dentro dos limites institucionais.

É preciso estar atento. A Vontade Geral choca-se, a todo o momento, com as vontades particulares e corre-se o risco de que os interesses acabem por prevalecer. É nesse momento de conflito que o indivíduo deve ser súdito, ou seja, abrir mão de seus desejos egoístas momentâneos. Mas nem sempre isso acontece.

Em 2011, o mesmo traficante que agora leva o terror à favela da Rocinha, Nem, disse as seguintes palavras numa entrevista: “UPP não adianta se for só ocupação policial. Tem de botar ginásios de esporte, escolas, dar oportunidade. Como pode Cuba ter mais medalhas que a gente em Olimpíada? Se um filho de pobre fizesse prova do Enem com a mesma chance de um filho de rico, ele não ia para o tráfico. Ia para a faculdade” (“Meu Encontro com Nem”, revista Época). Se o filho do pobre fizesse vestibular com condições iguais a um rico, ele não iria para o tráfico e eu não ficaria em casa, sem poder sair. A educação pública de qualidade para todos, portanto, pode ser entendida como a emanação da Vontade Geral. Ela assegura o bem e a tranquilidade comum.

O projeto das UPPs queria transformar os moradores das comunidades carentes em súditos, sem lhes conceder a soberania. A ideia era impor a ordem, sem democracia. Era acabar com os conflitos pela força, pelo medo. Por isso estava fadado ao fracasso. Violência só produz mais violência. Como numa panela de pressão, no primeiro furo, tudo iria para os ares.

O Rio de Janeiro está sofrendo os efeitos negativos dessa política desastrosa. Mas os erros locais não explicam tudo, o problema é ainda mais sério. Nessa mesma entrevista, o traficante fez outra afirmação desconcertante: “Meu ídolo é o Lula. Adoro o Lula. Ele foi quem combateu o crime com mais sucesso. Por causa do PAC da Rocinha. Cinquenta dos meus homens saíram do tráfico para trabalhar nas obras. Sabe quantos voltaram para o crime? Nenhum. Porque viram que tinham trabalho e futuro na construção civil.”

Independentemente da avaliação que cada um de nós tenha do ex-presidente, há nessa frase algumas revelações importantes. Nem, o traficante, disse que o PAC tirou de modo definitivo 50 homens do crime, pois conseguiram um emprego e uma chance de mudar de vida. O investimento público em infraestrutura é outro exemplo prático da Vontade Geral. Um programa de obras públicas, agindo numa comunidade carente, melhorando a vida dessas pessoas, gerando empregos e ajudando na construção da paz. Emprego, renda, paz e crescimento econômico, contribuem para o equilíbrio social.

A harmonia do todo é um bem coletivo que não pode ser alcançado pela interação egoísta entre indivíduos atomizados. A sociedade existe, não é pura abstração, ao contrário do que afirmou Margaret Thatcher. Foram seus vícios que fizeram com que eu ficasse em casa na sexta feira ou que um morador da Rocinha perdesse a prova da UERJ no domingo, uma das poucas oportunidades que essas pessoas teriam para mudar a sua realidade.

Liberdade formal não basta. Do que adianta a Constituição Federal garantir a liberdade de ir e vir em casos como esse? O indivíduo, como parte desse todo, é afetado por essa dinâmica corrosiva dos conflitos egoístas A ideia de comunidade pode ser uma abstração, mas os conflitos são reais e os tiros matam.”

Clique para ler a íntegra. Vale muito à pena ler, também, o artigo As guitarras do Rock in Rio no cenário de guerra da Rocinha, do professor Dennis de Oliveira, da Eca – Escola de Comunicação e Artes da USP, publicado no blogue do Celacc e reproduzido pela Revista Forum.

E para não dizer que não falei de música, deixo um, não, dois bônus de O Rappa, faixas do Acústico Oficina Brennand, lançado em junho de 2016, com sal da terrinha pernambucana. Direção do cineastra Lírio Ferreira, de O Baile Perfumado:

 

E agora, pra encerrar, o clipe oficial, com toda a beleza natural e de arte do cenário:

 

Fotos: Outras Palavras e Revista Forum


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