Povo catalão reage à barbárie e diz ‘sim’ no referendo pela independência

por Sulamita Esteliam

Não é só o Brasil. O mundo anda de ponta-cabeça, hoje mais do que sempre. E a Europa, centro cultural do mundo, não foje à regra; muito antes pelo contrário.

A truculência do governo espanhol sobre o povo da Catalunha não revela o melhor do continente  dito civilizado, que dirá da democracia que tanto pregam.

Indigna e revoltante o uso da força para tentar deter o direito legítimo de se manifestar por anseios de liberdade. Que diabo de democracia é essa!? E depois falam da Venezuela, da Bolívia e que tais…

Ocorre que, me informa o amigo Ulisses Capozolli, no FB, “o sim, pela separação da Espanha, foi o vencedor da consulta neste domingo conturbado na Catalunha: 90,09% da população que foi às urnas quer a separação da Espanha. O tiro de Rajoy saiu pela culatra.”

O povo não é bobo – muito menos acolá.

Tenho cá o meu lado espanhol de ser, com toda a verve, o fetiche e o lado passional – para o mal ou para o bem. Talvez seja mais um desejo, fruto de identidades. E isso me faz ainda mais solidária às gentes sob o jugo da intolerância.

Suponho, por dedução baseada em histórias, mas também em documentos, que tenho cá um dedinho de sangue dessa gente que encanta e dá medo. Minha bisavó paterna era uma Castilho – Cesárea Honória. Descobri nas certidões de nascimento de minhas tias paternas – não disponho da certidão do meu pai.

Provavelmente, bisa Cesárea veio para ao Brasil numa das levas de importação de agricultores, quando a colônia se preparava para substituir a mão de obra escrava, nos primórdios dos fins do século retrasado.  Era uma época de debacle nos territórios de Castela.

Nada de brasão ou direitos de uso, pois.

Juntou-se com um Ramos Vieira, meu vô Francisco Gonçalves, que tanto como Castilho, pode ter vindo da Espanha ou de Portugal – pois para lá migraram vários de origem das Astúrias ou da Catalunha com esses sobrenomes.

Tiveram, dentre outros, Emydio – Gonçalves Ramos -, que, por sua vez se casou com Liscínia Pereira Pinto, e pariram Raimunda, Zélia e Guilherme – que veio a ser meu pai, ao casar-se com Dirce da Conceição Gonçalves Coelho, se lhe tivessem aposto sobrenome no registro de nascimento.

Não carrego quaisquer dos nomes, por capricho do meu pai, que, dado a arroubos independentes, inventou o que adotei como sobrenome repassei à minha prole e, por decisão desta, à prole da prole. Mas adorei me descobrir Castilho.

Lembro-me que minha tia Mundica dizia de uma vó que “falava uma língua enrolada, acho que italiano…”. Quando a tia se encantou, coube a mim invadir seus segredos e documentos. Foi aí que me deparei com as certidões e, por associação, descobri-me bisneta, não de uma italiana, mas provavelmente de uma espanhola.

Tenho, para mim, que meus bisavós paternos, do lado do meu avô,  se encontraram na Galícia, onde os dois maiores da Península Ibérica se confundem. Puro instinto, que essa história se perdeu na parca reprodução, intelectual principalmente, da família.

Não faz o menor sentido esse revival familiar, mas agora já foi.

Túnel do tempo a partir da leitura do “textão”, como dizem nas redes sociais, do mineiro-paulistano Capozolli, no FB, sobre a barbárie na Catalunha.

Transcrevo, desta vez, sem pedir autorização, mesmo, contando com a generosidade conhecida do autor:

Catalunha desafia o governo central espanhol e colhe SIM no referendo deste domingo, sob truculência policial – Foto: Claudio Alvarez/El País

A truculência de todas as polícias

por Ulisses Capozolli – no Facebook

A polícia espanhola, como todas as polícias do mundo, é covarde e bruta. Espanca a mãe, se precisar. Não conheço, mas certamente há inúmeros trabalhos clínicos demonstrando o que leva um policial a espancar um manifestante desarmado. Quase sempre um jovem, como está acontecendo em Barcelona, na Espanha, neste momento.

Mas foge, como fazem todos os covardes, se o oponente for mais forte ou melhor armado. Aí a coragem escorre perna abaixo.
Eu mesmo experimentei a truculência da polícia espanhola no pós-franquismo. Em cidades como Madri, Pamplona, ou qualquer grande localidade espanhola era impossível cruzar uma esquina sem, antes, olhar cuidadosamente para os lados. Era comum uma pequena multidão de manifestante aparecer em correria com a polícia atrás, espancando e atirando bombas. Às 14h45 dados do governo da Catalunha, com população que está nas urnas hoje para decidir uma emancipação da Espanha, apontam 465 feridos (dois deles em estado grave) como resultado da ação provocativa, covarde e fascista da polícia espanhola, que nunca se livrou das influências nefastas do franquismo.

O governo regional da Catalunha garante que governo espanhol vai responder, “nos tribunais internacionais” pela violência deflagrada contra uma iniciativa absolutamente democrática de consulta legítima à população para decidir-se pelo sim ou não em relação à autonomia.

Autoridades europeias se esquivam de opinar sobre os acontecimentos na Catalunha. Liam Fox, ministro do Comércio do Reino Unido, por exemplo, segundo o portal de O Globo, disse que “devemos lamentar e condenar a violência na Catalunha”, mas emendou que o referendo é assunto interno, do governo espanhol.

Os interesses político-econômicos fazem com que esse tipo de gente ignore, formalmente, as ocorrências mais brutais, caso da repressão na Catalunha acompanhada da determinação tomada em Madri de bloquear os centros de votação. Mas, se segmentos mais radicais pegam em armas para tentar obter o que não conseguem pelo diálogo e as vias pacíficas, as tais “autoridades” falam em terrorismo e atos abomináveis”.

A Espanha tem longa tradição de brutalidade. Abrigou a Inquisição (o “Santo Ofício”) mais cruel e repugnante da história das lutas religiosas e, no século passado, colocou no poder o generalíssimo Francisco Franco que se julgava acima do bem e do mal. Em 1974, Franco matou, no chamado “garrote vil”, instrumento legado pela inquisição, um anarquista catalão, Salvador Puig Antich numa demonstração ostensiva de brutalidade e arrogância desmedidas. Casos, como o assassinato de Puig Antich, ficam no inconsciente coletivo à espera de um acerto de contas que, se for devidamente encaminhado, ameniza a situação, ainda que jamais possa justificá-la. Mas, quando a arrogância não se curva, como ocorre com o primeiro-ministro espanhol, Mariano Rajoy, conservador e acusado de corrupção, a situação tende ao radicalismo. 

Então, essa pode ser a origem ou recrudescimento de uma violência que esteve adormecida durante certo tempo, como ocorre com vulcões que podem despertar sem aviso prévio. Pode ainda reativar movimentos como a independência dos bascos, no norte da Espanha, com cultura e língua que nada tem a ver com a Espanha dos truculentos Francisco Franco e Mariano Rajoy.

PS do autor: Às 16h30 de Brasília o número de feridos pela delicadeza policialesca de Mariano Rajoy havia subido para 844 vítimas. E o presidente catalão, Carles Puigdemont, anunciava que iria levar ao Parlamento, nos próximos dias, o resultado da votação de hoje. Em um pronunciamento, em seguida, ele se dirigiu à Europa e disse que “a questão não é mais assunto interno (da Espanha) mas assunto europeu”.

Claro que sim. Ocorre que a Europa, em meio à crise que devastou a Espanha e arrasou a Grécia, entre outras devastações, também finge que não enxerga mais essa desagregação. Mas que a Catalunha tem direito a consultar seus moradores se querem ou não permanecer ligada à Espanha é uma questão democrática. Cultura e história entre Catalunha e Espanha não distintas. Mas Madrid não quer perder 20% do PIB nacional e assim não hesita em soltar seus cães de guarda contra o conjunto da população catalã.

PS 2 do autor: O sim, pela separação da Espanha, foi o vencedor da consulta neste domingo conturbado na Catalunha: 90,09% da população que foi às urnas quer a separação da Espanha. O tiro de Rajoy saiu pela culatra.


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