A comunicação como motor do golpe

“Com o tempo,uma imprensa cínica, mercenária, demagógica e corrupta formará um público tão vil quanto ela mesma.”
Joseph Pulitzer (1847-1911)
Fotos: SEsteliam
por Sulamita Esteliam

Minha semana começa com o vídeo de uma equipe de jornalistas da TV Globo sendo expulsa de uma passarela sobre uma avenida no Rio de Janeiro, de onde filmava a fila de caminhões parados no estacionamento.

Uma tristeza só, para mim que sou jornalista por profissão e escolha.

Não apenas o ódio exposto em alto e bom som é trágico. Mas o fato de profissionais serem impedidos de exercer suas atividades, e se tornarem alvo de agressões verbais e ameaça de violência física, quando não morte, devido à politica editorial de seus patrões.

É mais do mesmo, infelizmente, a cutucar a ferida da desperança e a escancarar as trevas em que insistem em nos mergulhar; às quais, entretanto, não podemos sucumbir.  Que se faça luz!

É, porém, a tradução da realidade manipulada desembestadamente. O pensamento único imposto à nação pela emissora monopolista e líder da imprensa golpista nativa, toda a mídia hegemônica no mesmo diapasão, provoca reações no mesmo viés.

Como dizia minha vó, quando muito se espreme, vaza entre os dedos. Ou “quem semeia vento, colhe tempestade”, no bem dito popular.

Ainda que o caos não seja nossa prerrogativa, antes mundial, aqui o fundo do abismo é mais profundo. Hoje ninguém mais ousa dizer que não vivemos sob um estado de golpe permanente.

A nós cabe resistir, resistir e resistir; lutar para sair das cordas e retomar a linha de frente, buscar a luz que parece se esconder no fundo abismo.

Sem deixar de lembrar que a tal da imparcialidade, apregoada mas inexistente até por impossibilidade humana, não é o xis do problema, quando se trata do modus operandi da mídia nativa.

A questão de fundo é, aqui mais do que alhures, o papel que a comunicação exerce no jogo de poder, onde, no caso, o capital dá as cartas. É, portanto, de transparência de objetivos: a distorção dos fatos domina a narrativa para moldá-la à trapaça que tira da mesa o jogador que ameaça a banca.

Um jornalismo “raivoso, sem espaço para a divergência e sem diversidade de opiniões e ideias”, na definição do deputado, e também jornalista e parlamentar atuante da Frente Parlamentar pela Liberdade de Expressão, Jean Wyllys (PSol-RJ).

Nesse ponto, é lapidar a frase de Maria José Braga, ou Zefinha, presidenta da Fenaj – Federação Nacional de Jornalismo, ao contrapor-se à expressão “jornalismo de guerra”, usada por Wyllys para resumir a prática da mídia venal.

“As empresas (de comunicação) abandonaram o jornalismo para fazer propaganda política.”

A discussão sobre os Retrocessos na Comunicação, no segundo dia do 6º Encontro Nacional de Blogueir@s e Ativistas Digitais é fundamental para entender os caminhos do golpe em curso. E por quê?

É da articulação dos barões da mídia, com o Legislativo e o Judiciário que nasce o monstro que está a nos engolir. Nada é por acaso. Tudo é articulado, e não é de agora.

Começa lá atrás, em 1988, quando se consegue incluir, restritamente, um capítulo, o V, com regras básicas sobre a comunicação na Constituição Cidadã, lembra e pontua Zefinha Uma carta mutilada e violada, mas que ainda guarda o espírito possível de uma sociedade mais igualitária, a ser resgatado.

Está lá, no capítulo da comunicação, o princípio de vedar o monopólio, a propriedade cruzada, a exigência de produção de conteúdo regional pelas emissoras concessionárias, a complementariedade da concessão privada, estatal, pública e comunitária, por exemplo. Embora sem regulamentação, passados 30 anos.

Os donos da mídia barraram toda e qualquer iniciativa de regulação, seja no Executivo, seja Legislativo, seja no Judiciário. O projeto do Conselho Federal de Jornalismo, enviado por Lula ao Congresso, não seguiu adiante. A Lei de Imprensa foi revogada com o auxílio luxuoso da Suprema Corte.

Da mesma forma, os 653 pontos resultantes dos debates da Confecon, extraída a fórceps e nos estertores do governo Lula, diga-se, se mantiveram letra morta na gestão Dilma Rousseff. Dentre eles, Lei dos Meios, urgente e necessária, foi demonizada como tentativa de censura e legada para as calendas.

Criou-se, no governo Lula, a Empresa Brasileira de Comunicação, com participação da sociedade organizada no Conselho Gestor, é bem verdade.  Conseguiu-se aprovar o Marco Civil da Internet,  no governo Dilma, apesar de toda a pressão contrária de provedores e que tais, incluídas as emissoras de rádio e difusão com interesses no negócio.

Todavia, é inegável que, assim como a esquerda ao longo do tempo, os governos populares subestimaram o poder da comunicação como política. E já se fez, e se faz, o mea culpa.

É certo, também, que a correlação de forças não foi suficiente para afugentar o medo e estimular ousadias. Mas faltou vontade política para encarar o monstro, há que reconhecer. E foi o que apontaram os convidados do #6BlogProg.

Há uma certa incapacidade de se assimilar que comunicação é política, na perspectiva de Antônio Gramsci, não mero instrumento, como lembra Renata Mielli, coordenadora-geral do FNDC – Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação. É portanto, disputa de hegemonia, cotidiana, diurturna. Ela observa:

“No Brasil, tratamos muito tempo a comunicação como uma questão meramente instrumental. Até havia a discussão sobre a comunicação, mas não a discussão sobre políticas de comunicação. Não colocávamos a comunicação no centro da agenda política.”

E é Mielli que lembra dois pontos essenciais a potencializar os efeitos nocivos da mídia hegemônica, a despeito do fenômeno da internete: 1) no Brasil, mais de 40% dos brasileiros não têm acesso à rede; 2) o modelo de negócios da rede tem evoluído para o domínio total sobre os usuários, o que coloca a proteção de dados na ordem do dia da discussão sobre liberdade de expressão e direito à privacidade.

A coordenadora-geral do FNDC alerta que o desgoverno do mordomo usurpador golpista trabalha para proteger o interesse das empresas, não do usuário. No Congresso, tramitam dois projetos diametralmente opostos sobre o assunto,

Por essas e outras é que é preciso que cada um de nós reflita a respeito na hora de escolher o Congresso. O Executivo sozinho não é ninguém. A menos que se assuma como ditadura totalitária.

Nem mesmo um governo golpista, como agora, consegue avançar sobre os direitos sociais e civis, sem a parceria do Legislativo – e, na republiqueta de bananas em que nos transformamos, também do Judiciário.

E quem conhece a História, deve colocar barbas e cabelos de molho.

Do contrário, podemos dar adeus a qualquer possibilidade de, havendo a restauração democrática, governos progressistas avançarem minimamente na pauta da redução das desigualdades sociais e econômicas, e na evolução da diversidade e pluralidade de ideias.

O estrago está feito. Mas alguém, em alguma hora, tem que botar o guizo no pescoço do gato.

*******

A Tal Mineira passou o chapéu para estar no 6º BlogProg, dias 25 e 26 de maio, em São Paulo. Um esforço coletivo para viabilizar a viagem desde o Recife, translados e estada, que inclui dois dias em Curitiba, para onde esta escriba segue na manhã da próxima quarta-feira.

Sou extremamente grata a cada uma e cada um d@s amig@s que até agora contribuíram para esta jornada.

Mas digo que continua valendo. Quem puder e quiser pode usar a seguinte conta para depósito:

Ideias e Letras Comunicação

Esteliam & Estelian Comunicação integrada Ltda (razão social)

cnpj: 13.602.046/0001-22

Caixa Econômica Federal

Agência 0867 Operação 022 Conta 238-6

Seguimos na batalha.

Abração.

Sulamita

 

 

 

 

 


2 comentários sobre “A comunicação como motor do golpe

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