Para não dizer que não falei de Lua…

por Sulamita Esteliam

Uma lua imensa, beirando o clímax, surgiu no céu nesta noite de eclipse, no Recife. Meio que brincando de esconde-esconde com nuvens mais ou menos espessas. Preguiçosamente, como convém a uma dama paquerada em conveniente distância por sedutor guerreiro.

Na dúvida, Marte tão próximo como nunca, guardou segura indiferença.

Quando apareceu, a lua provocou delírios nos grupos de pessoas que aguardaram ansiosas, por quase uma hora inteira, que ela se dignasse a mostrar sua face de sangue e fogo. Choveu o dia inteiro no Recife, e o tempo nublado frustou a visão na hora do nascimento, mas aumentou o frisson pelo sorriso coquete da eleita.

Crianças, jovens, gente adulta ou velha,sozinhas no calçadão ou na areia. Adoradores da Lua, que longe está de ser apenas dos namorados.

Para os místicos, a lua de sangue é a chave do Universo para a remissão dos carmas; uma energia catalizadora de encerramento de ciclos e abertura de novos caminhos, uma energia de transformação.

Sou daquelas que creem no poder da energia. Vibro com ela e dela me alimento, e por ela às vezes me acabo. Feito mata-borrão, daqui mesmo, desta Terra Brazilis.

Mas nada muda se a gente não botar o pé na estrada. Como fizeram os trabalhadores do MST em Pernambuco, na Marcha por Lula Livre, que aportou no Recife há uma semana.  Cinco dias de estrada, sob sol e chuva: 150 km desde Caruaru, passando por Bezerros, Gravata, Bonanza e Moreno.

Ou no Encontro dos Sem Terrinha em Brasília esta semana. Mil e duzentas crianças de 24 estados reunidas para elencar, discutir e reivindicar seus direitos.

A energia da ação coletiva, da resistência ao arbítrio, da resiliência. O bom combate da desobediência civil em nome da esperança de um país decente e para todos. Tudo isso há de nos levar aonde precisamos ir.

E aí, vem o mais importante desta conversa, Não é um despertar, propriamente. É um agregar continuado, que precisa e urge ser crescente até a abundância da lua cheia.

Exatamente hoje, partiu de Caetés, no sertão pernambucano, a Caravana do Semi-árido Contra a Fome, Do torrão onde brotou Lula, vai bater em Curitiba, onde ele está encarcerado, e de lá para Brasília,

No mote da denúncia da fome, a denúncia do retrocesso, fruto do golpe, em cada parada: Feira de Santana (BA), Belo Horizonte (MG), Guararema (SP). Curitiba (PR) e, por último, Brasília (DF), já no dia 05 de agosto.

O ato que acompanhou a saída da caravana reuniu milhares de pessoas no centro de Caetés teve poesia e música permeando os discursos, do jeito que nordestino gosta.

Assista ao vídeo do ato político-cultural produzido pelo Brasil de Fato:

Enquanto isso, num shopping de Curitiba, longe da carceragem da Polícia Federal que guarda o preso político mais querido do Brasil e do mundo, o trompetista braziliense, Fabiano Leitão dá o tom para o grito que não quer calar:

Atos relâmpagos caíram de vez no gosto da militância, e ainda bem, pois tem efeitos contagiantes. O eco de Curitiba repete o que aconteceu, sábado passado, no Mercado Central de Belo Horizonte, e também no Mercado Municipal da capital do Paraná, no domingo.

Do marketing cultural para a política, do flash mob não escapou nem o japonês da federal – o agente escalado pela Lava Jato para acompanhar presos da operação, e que acabou condenado por contrabando, mas já está por aí livre, leve e solto, e até lançando livro de suas diatribes na PF.

Só faltou combinar com a oposição, que terminou roubando a cena. No lançamento na quarta-feira, no mesmo shopping da ação da sexta, a trilha sonora convidou a cantar: Olê, olê, olê, olá, Lula, Lula/Olê, olê olê, olê, Lula Livre…!

Organizado via redes sociais, as ações relâmpagos concentram ativistas em local pré-determinado, que se espalham pelo ambiente e ao sinal, no caso do trompete, atiçam nos frequentadores a vontade o clamor por Lula Livre.

Política e cultura voltam a se misturar, desta feita apoteoticamente, no Rio de Janeiro, neste sábado. Longe de ser um  ato relâmpago, porém. Os Arcos da Lapa vão abrigar o Festival Lula Livre, uma profusão de artistas, intelectuais e movimentos sociais pela democracia e pela liberdade de Lula.

Salvador também faz seu Festival Lula Livre, registre-se, e é bom que faça, e Recife, e Beagá, já estão devendo algo no gênero.

A festa-protesto no Rio envolve música e outras manifestações artístico-culturais, já no meio da tarde – oficinas de dança, literatura, grafite e fotojornalismo; apresentações teatrais, cortejo, DJs.

No palco central, a Orquestra Voadora abre as apresentações de dezenas de artistas da música brasileira, num leque que vai do azé de Magnno Goes ao MC Carol, do hip hop de Flavio Renegado ao samba de Noca da Portela. E tem rochk da Gang 90 e Chico César, e nomes da nova geração, como Francisco El Hombre, Filipe Catto e Ana Canãnas. E figuras consagradas Jards Macalé, Odair José e Beth Carvalho.

Ah, sim, o músico Daniel Teo, autor da canção You’re not alone/Você não está sozinho, sucesso nas redes sociais – aqui no blogue-, está entre as atrações. A letra da música compara Lula a Mandela, Gandhi e Martin Luther King, dentre outros lutadores pelas causas humanitárias.

Chico Buarque e Gilberto Gil se reencontram no palco para lacrar a noite que, claro, terá a presença de TromPETISTAS.

É de se supor que o Festival prestará tributo, também, a Marielle Franco, que teria completado 39 anos no 27 de julho. Não dar trégua às autoridades responsáveis pela apuração do assassinato da vereadora do PSol e do motorista Anderson Gomes. Afinal, mais de quatro meses passados, não se sabe que matou e quem mandou matar.

A expectativa da comissão organizadora é que o Festival Lula Livre se transforme em um marco da luta por democracia e justiça para o Brasil e para Lula.  O objetivo é amplificar a denúncia do caráter político e ilegal de sua prisão e reafirmar o direito de Lula disputar as eleições de outubro.

O Festival Lula Livre, que é organizado por artistas, ativistas da cultura e representantes da Frente Brasil Popular e Frente Povo Sem Medo.

 


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