Política – para não ser, e não reproduzir, idiota

por Sulamita Esteliam

Já que existe até prêmio  internacional para premiar o Idiota de Ouro em cada ano. Coisa de francês, que tem lá seu humor, vamos convir. E já que  o título veio para um brasileiro que se acha “O tampa”, e foi eleito presidente da República, não importa por quais expedientes, proponho que o título seja incorporado pelo coletivo.

Até ouço o enunciado, não em tom de conveniente deboche, como se deu na emissora de França, mas  com aquele entusiasmo vibrante de certo locutor global: “Ééééé… do Brasilll!”

Depois do 7×1 da Alemanha, em nosso território, a gente imaginava que nada poderia ser pior… 

Pois sofremos um golpe parlamentar-jurídico-midiático travestido de impeachment fraudulento, que depôs uma presidenta honesta para encastelar uma quadrilha, que desmontou nosso patrimônio, degolou direitos de cidadania, nos jogou no abismo e no pântano da recessão e do desemprego.

Deixamos encarcerar, sem crime e sem provas, o presidente que mais fez pelo País e pelos pobres do Brasil desde a invasão, e que deixou o governo depois de dois mandatos consecutivos, com 86% de aprovação, e que voltaria a ser presidente, se não o tivessem bloqueado.

O juiz que o condenou para dar exemplo de rigor no combate à corrupção, que não conseguiu provar – sim, o juiz aqui também é promotor e carrasco –  é membro da equipe do futuro desgoverno. 

O presidente eleito, também com discurso de caça-corruptos, nem assumiu, além de piada pronta, já conseguiu causar pelo menos três incidentes internacionais.

Seu ministério futuro chama a atenção pelo prontuário, e não consegue explicar as peraltices de seus “garotos”, todos eleitos para o Congresso Nacional com farta votação e a peso de ouro, bananas e laranjas, como bem explicita a charge do genial Aroeira.

Muito menos explica por que o motorista empresta dinheiro para o patrão e paga à prestação, colocando dinheiro na conta da patroa. 

Aliás, a futura primeira dama se arroga em ter linha direta com o Divino, e crê, firmemente, ser um exemplo de fé, a ponto de, não contente em assumir o Alvorada, arvora-se em apossar-se do Planalto, símbolo do Estado, como o púlpito de sua igreja, defenestrando, antes da posse, obras de arte.

E isso da missa nem é o começo… 

Somos ou não somos mesmo um país de idiotas!?

Destarte, creio ser bastante oportuno buscar o sentido, a etimologia, a origem da palavra idiota.

Idiota vem do grego, idhiótis, e significa “um cidadão privado, individual”, que não participa da vida pública, mesmo tendo condições de fazê-lo. 

A palavra navegou pelos mares da antiguidade e aportou no latim, onde ganhou esta grafia e significado válidos no português e no espanhol: idiota.

Uma palavra tão boa de usar em discussões acaloradas, mas também em murmúrios carregados de desprezo: i-di-o–ta!

Na Psiquiatria, idiota é a pessoa que é portadora de idiotia deficiência mental grave – diferente de idiotice, que vem a ser a prática do idiota. Mas isso é outro papo, que merece a devida formação e o devido respeito.

Nos bons dicionários da Língua Portuguesa, idiota é o indivíduo “pouco inteligente; estúpido, ignorante, imbecil” ou também “pretensioso, afetado”. É a definição do Aurélio, também nominado “pai dos burros”.

Já o Houaiss, que também é bom pai, define idiota como sendo a “pessoa que carece de inteligência, de discernimento; tolo, ignorante, estúpido” ou a “pessoa pretensiosa, vaidosa, tola”, ou ainda quem “denota falta de inteligência, de discernimento; parado, estúpido, imbecilizado”.

Sérgio Cortella, sociólogo protestante bastante requisitado, por que sagaz, é co-autor com o filósofo e ex-ministro da Educação, Renato Janine Ribeiro, de um livro que reproduz uma conversa entre eles com o título que inspira esta postagem: Política para não ser idiota, Papirus 7 Mares, 2010, 112 páginas.

O livro debate os rumos da política na sociedade, aborda temas como a participação na vida pública, o embate entre liberdade pessoal e bem comum, os vieses de escolhas e constrangimentos, o descaso dos mais jovens em relação à democracia, a importância da ecocidadania.

No vídeo abaixo,  postado por Sandro Pacífico no Vimeo, que compartilho a partir do Portal Geledés, Cortella fala exatamente do vocábulo idiota, no sentido clássico, em oposição ao vocábulo político.

Vale à pena recuperar a fala, sobretudo em momento tão punjante da vida nacional. 


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