O porquê do furo do ‘Interceptador’ em cima da mídia venal, ou a imprensa que nós temos

por Sulamita Esteliam
Delícia de texto do Gustavo Conde, que colho e compartilho mais abaixo, a partir do Tijolaço. Circulou amplamente pelos grupos de zap-zap nos quais me inscrevo, e isso me chamou a atenção.
 
Analisa o comportamento da mídia venal, a pratica do “jornalismo de cativeiro” colocado em xeque pelo jornalismo investigativo do “Interceptador”, tradução do The Intercept que nunca nos preocupamos em fazer; pois Conde o faz.
 
Coloca a nu o porquê de o sítio dirigido pelo jornalista Glenn Greenwald ter sido o escolhido como depositário fiel do vazamento colossal das patranhas da #VazaJato ou #Morogate. Exatamente por isso, lisura ética: a fonte é sagrada.
 
O Moro que, por falar nisso, se agarra feito peçonha ao posto de ministro do qual deveria – caso tivesse um mínimo de desconfiômetro, para dizer o mínimo -, ter, não resisto ao trocadilho, vazado imediatamente à divulgação do escândalo.
 
Ao invés disso, anuncia que “decidiu” ir se explicar ao Senado, antes que o convoquem. A propósito, vale muito a leitura das “considerações” de Luis Nassif a respeito.
 
Mas vamos à crônica do Conde, sem mais delongas.
 
Só mais uma: para quem não sabe, informa o Escavador, ele é mestre em linguística pela Universidade Estadual de Campinas. Trabalha com teorias do humor e com a história da representação do riso. As áreas do conhecimento que caracterizam sua pesquisa são: análise do discurso, psicanálise e semiótica. 
 
Está bom ou quer mais!?
 

 

Gustavo Conde: a miséria da imprensa brasileira explica o furo do Intercept

por Gustavo Conde – no Tijolaço

Vou fazer que nem o Lula e dizer: “deixa eu falar uma coisa pra você”.

(Sempre quis fazer isso).

O dado concreto é que o The Intercept é vacinado. Eles conhecem o nosso jornalismo de milícia.

Um lote de vazamentos com Moro e Dallagnol em dança promíscua jamais seria suficiente para mobilizar a atenção da nossa imprensa, quando mais a ‘recepção narrativa’ dessa imprensa.

Mas um conjunto de lotes? Aí a conversa é outra.

Não é à toa que Glenn Greenwald tem um Pulitzer nas costas.

No Brasil, praticar o jornalismo real, investigativo, exige cifras de inteligência e caráter adicionais.

O drible da vaca dado pelo “Interceptador” (que nome para um site!) é da ordem do inconsciente e da ciência econômica (sic): a projeção – de futuro – é mais forte simbólica e retoricamente do que o posto na linha do horizonte.

Em língua de gente: pouco importa o lote vazado na histórica noite de 9 de junho de 2019. O que conta mesmo é o volume gigantesco de conversas que o site diz ter em mãos – e o respectivo conteúdo ‘estarrecedor’.

O que vimos ontem foi só uma prévia.

É o aperitivo desta que anuncia ser a maior fraude judicial-eleitoral de todos os tempos, levando-se em conta não apenas o Brasil, mas o próprio mundo (que não é plano e dá voltas).

No Brasil, produzir jornalismo investigativo exige essa artimanha: é preciso garantir a continuidade e a sequência narrativa, senão o brasileiro não ‘pega’. Nem no tranco.

É o nosso novelismo aplicado, décadas de corrosão cerebral com novelas intermináveis e idênticas umas às outras (com os mesmos atores, diretores, iluminação etc).

Uma pergunta adicional, no entanto, ainda me faz coçar o calcanhar aflitivo das indagações: por que a fonte vazou essa montanha de diálogos criminosos para o The Intercept e não para a imprensa comercial?

Precisa responder?

Precisa.

Porque resta evidente, olimpicamente evidente, que a imprensa comercial denunciaria a fonte e a entregaria às “autoridades”.

Esse é o jornalismo de cativeiro praticado no Brasil.

Tanto mais interessante também é a nossa subserviência à cultura anglo-saxã (no quesito ‘elite-informação’).

O verniz que um veículo com título em inglês dá ao escândalo Moro Leaks é uma sinuca de bico para a nossa classe média tosqueada pela indigência cognitiva de bolsos e de minions.

A própria imprensa vassala caiu nessa armadilha. É bonito estampar o nome “The Intercept” no frontispício das matérias subdesenvolvidas brazucas que querem ser sempre made in USA.

Afinal de contas, isca não é só minhoca, é também um miolo de pão adocicado.

O The Intercept não tem apenas – e é bom que se diga – ambições domésticas com essa matéria.

É uma matéria para ganhar o mundo, para romper fronteiras e abrir um flanco de resistência jornalística nas fraudes eleitorais – seguidas de lawfare – que ainda estão por vir.

O conceito de ‘Wiki Leaks’, “vazamentos rápidos” em tradução livre, depende, paradoxalmente, de uma duração longa – a duração da desova mesma dos vazamentos, a conta gotas e a seleções cirúrgicas e controladas.

Porque assim, dá-se a dimensão de instituição ao jornalismo praticado e impõe-se a ‘fiança do sentido’ (a verossimilhança narrativa).

Contra as notícias rápidas e rarefeitas, só pílulas de tempo denso, recheadas do óbvio ululante. Ou: todos já sabiam de tudo isso, mas era um ‘saber’ ainda ‘marginal’.

Sobre esse já dito e já sabido, é preciso enunciar mais uma cifra de percepção fugidia.

Como era de conhecimento público e notório que Sergio Moro e Deltan Dallagnol sempre foram dois criminosos a serviço da perseguição política, é-nos assaltada a surpresa diante de tal compêndio de vazamentos.

A reação fica entre o deboche e a indignação, o que é um dilema terrível para quem precisa de sinalizações concretas e claras de que a civilização e a justiça ainda existem.

Um desafio a mais sem dúvida (mas quem disse que seria fácil?).

Resta acompanhar e torcer para que o The Intercept siga seu destino de recolocar os pingos nos is neste país.

Mais um Pulitzer para Glenn Greenwald.


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